Sociedade

RICAÇOS NO COMANDO

Bia e João Doria: Ralph Lauren e dentes para o "povão" do Minhocão

A distância entre os trabalhadores e o povo pobre e a casta “nobre” de onde vêm João Doria e Bia Doria não poderia ser maior. Suas recentes declarações absurdas sobre as questões “do povo”, que vão da proposta de popularizar as camisas polo Ralph Lauren à dúvida sobre o que é o Minhocão (um tipo de viaduto?) mostram essa “profunda intimidade” com a vida das pessoas comuns, nós, os “plebeus”.

Fernando Pardal

São Paulo | @fepardal

terça-feira 11 de outubro| Edição do dia

A entrevista de Silas Martí, jovem repórter da Folha de S. Paulo, com a nova primeira-dama de São Paulo, Bia Doria, é uma verdadeira obra prima do jornalismo, que deve ser preservada e lembrada como um retrato profundo e autêntico – como em raros momentos nos é permitido ver – de como pensa uma “dondoca” do Jardim Europa, que vive entre encontros com amigos como Ronnie Von, seu ateliê com madeiras extraídas de áreas devastadas por construções de hidrelétricas (como ela gosta de ressaltar, todo seu material de trabalho “artístico” vem de resíduos, é tudo “madeira morta”).

É um retrato do quão imbecilizante pode ser uma bolha sem nenhum contato com a realidade, enfiada em mansões, helicópteros, iates e convivendo com gente milionária. É assim que Bia Doria se define “do povo”, dizendo que se sente como Evita Perón, a esposa do presidente argentino Juan Domingo Perón. Provavelmente, ela assistiu “Evita”, o filme musical com a Madonna que romantiza a vida de Eva Perón e pensou: “sou loira, popular, artista, casada com um homem rico e influente, eu também sou do povo como ela”.

Ela é tão “do povo” que diz ao jornalista que a entrevista: “O Minhocão hoje para que serve? Quase nunca fui lá. É tipo um viaduto, né?" É um tipo peculiar de povo paulistano, que não sabe o que é o Minhocão, mas que com rara astúcia intui que é “tipo um viaduto”. Em compensação, ela diz gostar dos lindos parques de Sydney, capital australiana, e das ciclovias de Cingapura. Talvez ali ela se sinta mais “povo”, já que acha as ciclovias paulistanas muito perigosas.

Não é que a cidade inteira seja perigosa: há um lugar – o único – que a madame diz estar à vontade para “andar a pé, igual em Nova York”: é a Rua Avanhandava, uma rua no centro que foi fechada e transformada em Bulevar de luxo (caso você não seja o tipo de “povo” que frequenta os mesmos lugares que Bia “Evita” Doria).

Um leitor pode ficar estupefato se perguntando o que é mais inacreditável: o nível de elitismo imbecil e alienado das declarações da primeira-dama, ou o fato de que ela mesma não perceba o quão “alienígenas” são suas declarações diante de qualquer mortal que não faça parte de seu clube de socialites multimilionárias. Contudo, a equipe de Doria, contratada para pensar no lugar dele e de sua “mulher do povo”, viram o tamanho do problema – talvez um pouco tarde – depois da publicação da matéria na Folha: recomendaram que ela fizesse um “media training” para aprender a lidar com a imprensa, ou seja, para aprender a não dizer tudo o que pensa, porque nem todos estão acostumados com tamanha sofisticação de pensamento em uma mulher que, apesar de se sentir do povo, parece pertencer a outro mundo. Um que nós não somos convidados a frequentar.

Mas apesar disso, Bia parece acreditar que possui uma grande sensibilidade com os “menos favorecidos”; e mais uma vez ela solta inocentemente as frases, certamente sem sequer entender o quão racista e elitista é. Os “pobres” são como animais ou seres inferiores para ela, que vê sempre da perspectiva de sua "utilidade": "No Morumbi tem aquela favela, né? Paraisópolis. Ali é a Etiópia, mas eles respiram o mesmo ar, sentem o mesmo frio que a gente. Essa desigualdade tem que diminuir. Não adianta ter uma funcionária que chega no ateliê e tem problemas de nutrição".

Claro, os pobres tem que estar bem nutridos para serem bem explorados para seu uso recreativo, compondo sua “arte”. E, para melhor preocupar essa demonstração com seus “serviçais”, Bia conta mais sobre seu lado caridoso, referindo-se a como trata seus assistentes, os que efetivamente executam o trabalho sobre as peças de madeira e mármore que ela chama de sua “arte”: "Todos moravam em barracos e nem tinham dentes. Consegui casa para todos eles, dei dentes para eles, dei um plano de saúde bom. Hoje eles se sentem felizes, até se acham artistas porque são meus assistentes." E ela, por sua vez, até se acha artista porque tem milhões de reais para ordenar que transportem as madeiras que ela escolha, que façam o trabalho que ela pensa, e cria objetos que figuras como seu amigo Ronnie Von e Otávio Mesquita Júnior louvam em seus programas de celebridades. E, no ápice de sua bondade, como uma Maria Antonieta odontológica, ela distribui dentes ao povo, fazendo deles felizes. Bem aventurados sejam os generosos, pois deles será o Reino dos Céus. E, afinal, um pobre feliz e que se acha artista – além de ter dentes e não ter problemas de nutrição – trabalha melhor, não é?

Um pouco da arte de Bia Doria

Doria, certamente mais “treinado” para lidar com o público “mundano”, não comete tantas gafes públicas. Mas quem se esquecerá de sua cara de nojo e desgosto para comer um pastel ou tomar um pingado, essas comidas “exóticas” que ele e Bia Doria não devem comer em suas frugais refeições preparadas por empregados com dentes e bem nutridos, que, além de tudo, devem ter sido treinados para compreender o gosto refinado do almofadinha prefeito e a artista “do povo”.

Claro, os assessores, desesperados em preservar a imagem deles, fazendo o possível para que se passem por gente normal, procuram fazer milagres: o “João trabalhador” foi proibido por seus marqueteiros de comer em campanha, e também lhe vetaram a estilosa malha milionária cruzada ao redor do pescoço; um modelito elegante, mas que não gera tanta identificação entre os frequentadores de lugares como tal do Minhocão, aquele tipo de viaduto.

Às vezes, no entanto, não conseguem escapar, mesmo com todas as instruções fornecidas por uma sólida e competende equipe responsável por criar o mito de um homem comum que enriqueceu por trabalho próprio. Assim foi no último sábado, quando Doria, questionado sobre o meme que dizia que ele transformaria os uniformes escolares à imagem e semelhança de seu característico pólo ao redor do pescoço, deixou escapar para a imprensa: "Algum dia, quem sabe, todos os brasileiros poderão usar polo Ralph Lauren".

Privatize, congele os gastos públicos, demita, reprima os que lutam por um teto. Mas dê-lhes dentes e polo Ralph Lauren.




Tópicos relacionados

Sociedade

Comentários

Comentar