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Bertolt Brecht: resenha, legado e polêmica

Recordamos o célebre dramaturgo e poeta alemão, pai do teatro épico, no 60º aniversário de sua morte.

segunda-feira 15 de agosto| Edição do dia

Sem dúvidas Brecht foi um dos dramaturgos e poetas mais influentes do século XX. Viveu até os 26 anos em Augsburg, sua cidade natal. E ali mesmo, na sua adolescência, esteve próximo de ser expulso de seu colégio por polemizar, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, com a famosa frase: “doce e honroso é morrer pela pátria” afirmando que é uma “propaganda dirigida” na qual só os “tontos” caem. Anos mais tarde, se viu obrigado a interromper seus estudos de medicina ao ser chamado a participar dessa disputa como soldado sanitarista.

Sua primeira obra teatral escrita, Baal, a finalizou aos 20 anos. Sua vida girou em torno do teatro e da literatura ao radicar-se em Berlim, começando assim a trabalhar como dramaturgo em 1924. Desta forma começou seu êxito com a obra “Tambores na noite”. O primeiro matrimônio, com Marianne Zoff (atriz e cantora de ópera), o estimulou a redesenhar a “Ópera do mendigo” (escrita originalmente por John Gray) e com música de Kurt Weill, escreveu a mais resplandecente de suas obras: “A ópera dos três centavos”.

Brecht exilado

Além da teoria, os encontros frequentes com artistas socialistas e a grande influência da Revolução Russa em muitos jovens daquela época, o levaram a reivindicar-se marxista. Desde o início suas obras possuem, em seu conteúdo, uma crítica ao sistema capitalista. Em 1933, ano em que Hitler é nomeado chanceler e começa uma onda de perseguição contra os comunistas, foge com seus familiares para Dinamarca e posteriormente para os países nórdicos.

Em seus 15 anos de exílio escreveu: “Galileu”, “Mãe coragem e seus filhos”, entre outras; obras nas quais se critica a autoridade religiosa, e as causas e consequências dos conflitos bélicos, entre outros. Já residindo na Califórnia, escreve uma de suas obras mais maduras: “O círculo de giz caucasiano”.

Depois da Segunda Guerra Mundial, e vivendo nos Estados Unidos, foi interrogado pelo Comitê de Atividades Antiamericanas em 30 de outubro de 1947. Apesar de ter sido influenciado pela linha oficial do KPD (Partido Comunista Alemão), nunca pertenceu a nenhum partido. De todo modo, no dia seguinte fugiu novamente para a Europa. Em 14 de agosto de 1956 faleceu em Berlim devido a uma parada cardíaca.

Brecht contraditório e inovador

Na época em que se desenvolve como dramaturgo, dentro do campo da arte, intelectual e também político havia candentes debates sobre estética, e que “papel” deveria cumprir a arte e os artistas. É que no mundo inteiro, com o processo revolucionário aberto pelo outubro russo, estava em jogo nada mais nada menos que o triunfo de revoluções operárias ou a contrarrevolução reacionária e conservadora. Como homem de seu tempo, Bertolt não ficou fora desses debates. Não só se dedicou a escrever obras, como teorizou e levou para a prática uma nova dramaturgia e colocação em cena. Seu teatro hoje é conhecido como Teatro Épico, que se diferencia do naturalismo de Stanislavsky e da teoria aristotélica sobre o teatro. A técnica principal para isso foi o “distanciamento”, que tinha como objetivo a participação ativa do público. Ou seja, o que mais importava para Brecht não era a empatia que o público pudesse ter com um personagem, senão que buscava evidenciar a construção da ficção e, portanto, que o público tomasse uma posição sobre o que está vendo. Isso não apaga que tenha menosprezado a beleza estética da arte, mas pelo contrário: foi capaz de gerar uma própria estética na qual os cantos líricos, por exemplo, foram distintivos.

Brecht tem o mérito de revolucionar a forma de pensar o teatro de sua época, mas isso não condiz de forma consequente com sua boa visão sobre o regime stalinista, inclusive chegando a receber em Moscou o prêmio Stálin da Paz, em 1955. Já nessa época o PC dirigido por Stálin até sua morte, em 1953, havia traído todas as revoluções que tomavam a russa como exemplo, havia perseguido e assassinado toda a oposição política em seu país, como também muitas vezes no exterior, como é o caso de Trotsky no México. No campo da arte tinha quase a mesma política autoritária e restrita que o nazismo.

Em 1932 o Estado soviético declara o realismo socialista como cultura oficial. Essa prática restringia e perseguia qualquer tipo de arte que não reivindicasse o regime burocratizado da URSS. Em um mundo polarizado pela ascensão do nazismo, e a consolidação de uma burocracia no único Estado operário que existia no mundo, a única opção era escolher entre um dos dois? Breton, expoente do movimento surrealista, e Leon Trotsky, dirigente da oposição de esquerda do PC e fundador da Quarta Internacional, escrevem o Manifesto por uma arte revolucionária independente em 1938 e conseguem colocar-se e traçar tarefas para realizar um caminho independente e emancipatório para a arte. Os artistas deviam combater firmemente qualquer subordinação estatal ou partidária em suas produções, como pretendiam o nazismo e o stalinismo, mas ser plenamente conscientes de que para alcançar esse “sonho” era necessária a independência da arte pela revolução e a revolução para a total liberação da arte.

Bertolt Brecht nunca aderiu a esse Manifesto. Até sua morte manteve um teatro com sua esposa em Berlim Oriental. Suas inovações teatrais seguem sendo fonte de debate entre catedráticos da arte e também fonte de inspiração para as novas gerações que não pensam a arte como mera mercadoria para ser vendida. Para todos eles é fundamental conhecer o legado desse dramaturgo, estudá-lo e avaliá-lo à luz dos acontecimentos históricos.




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