Política

DEMISSÃO NO GOVERNO PEZÃO

Beltrame, Secretário de Segurança do Rio, pede demissão após quase dez anos no cargo

José Mariano Beltrame, responsável pela implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no Rio de Janeiro, a principal política de segurança pública no estado, deixará seu cargo como Secretário de Segurança Pública pouco antes de completar dez anos à frente da pasta.

terça-feira 11 de outubro| Edição do dia

Alguns fatores garantiram a Beltrame sua longevidade em uma posição difícil de ser mantida: o fato de ser alguém “de fora”, gaúcho e oriundo da Polícia Federal, ajudou a que tivesse um papel importante na pacificação das intermináveis disputas entre a Polícia Militar e a Civil na capital fluminense. Essas disputas, por controle de território e dos lucrativos negócios ilegais que são controlados pela polícia, como as milícias, e os “arregos” (propinas) do tráfico de drogas e do jogo do bicho, são uma pedra no sapato dos governos, e Beltrame conseguiu lidar com elas de forma razoavelmente bem sucedida por não pertencer a nenhuma das duas corporações e, assim, ter melhor condição de mediar as disputas.

A política das UPPs, implantadas sob a gestão de Beltrame e elogiadas indiscriminadamente por todos os setores dos governos dos patrões – de PT a PSDB – foram recebidas inicialmente, quando foram criadas em 2008, com uma aprovação praticamente unânime entre cariocas. Setores críticos às UPPs desde seu início, como nós que hoje construímos o Esquerda Diário, inicialmente se encontravam bastante isolados diante de uma enorme campanha da imprensa e governos, que foi bem sucedida em convencer a maior parte da população de que essa política chegaria para mudar a relação entre a população pobre e os trabalhadores das comunidades com a polícia. Baseado no conceito de “polícia de proximidade”, que em tese se fundamenta na colaboração entre a população e as forças policiais, ao longo dos anos a verdadeira fachada ideológica dessa propaganda foi erodindo e mostrando à população que convivia diariamente com as UPPs o que elas realmente representavam.

Assassinatos, intensificação da repressão, “esculachos” nas comunidades. Casos emblemáticos se tornaram verdadeiras bandeiras da luta contra as UPPs, como os do pedreiro Amarildo ou do dançarino DG. Protestos contra as unidades foram cada vez mais frequentes.

Beltrame também passou a fazer críticas públicas em relação à falta de investimento social, que, segundo ele, obrigava a que os policiais das UPPs fizessem tarefas que não eram de sua incumbência, o que desgastava sua imagem e aumentava a impopularidade dos agentes nas comunidades. Recentemente, os cortes devido à crise intensificaram suas críticas à falta de recursos. O pedido de exoneração de Beltrame ocorreu logo após uma operação na comunidade do Pavão-Pavãozinho, que resultou na prisão de oito suspeitos e a morte de três, e gerou um clima de tensão na região de Copacabana. Ele comentou a operação em seu Twitter:

De acordo com O Globo, quem o substituirá será o subsecretário de Planejamento e Integração Operacional da secretaria, Roberto Sá. Ele já foi instrutor do BOPE, de 1989 a 1992, e depois passou a atuar na Polícia Federal. O programa das UPPs foi planejado e coordenado por sua subsecretaria.

Ele terá o desafio de assumir o lugar de Beltrame em um contexto de maior divisão no governo carioca, com a recente derrota do PMDB no primeiro turno da prefeitura, o crescente questionamento à atuação das UPPs e a disputa entre as polícias civil e militar pelo controle das regiões da cidade. Organizar a repressão estatal contra os trabalhadores e o povo pobre em um estado com tamanha precariedade e desigualdade social como o Rio não é tarefa fácil, mesmo para um assassino fardado com extenso currículo como Roberto Sá.




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