Sociedade

GÊNERO EM DEBATE

Bebê Ariel vai afirmar qual é seu gênero quando quiser, decidem os pais

quinta-feira 24 de agosto| Edição do dia

À pergunta que todos fazem ao ver sua criança recém-nascida, "é menino ou menina?", o jovem casal Taynan Carneiro, 18, e Yudi Luiz Santos, 25, respondem: "É um bebê". Moradores de Camaragibe, o casal decidiu que o gênero não pode ser decidido por eles, mas sim pela própria criança, em seu próprio tempo.

A decisão tomada pelo casal e noticiada primeiro no jornal "Diário de Pernambuco" levou a uma onda de ódio e insultos contra o casal nas redes sociais. Mas isso não abalou a decisão do casal. Taynan disse:

"Estou em choque por causa dos comentários negativos. A sociedade tem que abrir a mente, é uma coisa de construção. Deixa a criança viver, ser feliz. Ele não precisa de um gênero para ser uma criança".

O pai biológico da criança não é Yudi, o parceiro de Taynan que é um homem trans e que, segunda ela, foi quem deu muita força, sempre ajudando. A criança foi concebida durante um término na relação entre Yudi e Taynan, durante o qual ela se relacionou com outro homem, que a engravidou. Taynan ainda afirmou:

"Não impomos nada. Ele é um menino, imposto pela sociedade, da forma como foi registrado. Mas, se mais à frente, ele decidir que não é um menino, é uma decisão dele. A gente enxerga com a mente muito aberta. Ariel é uma criança independente de qualquer coisa. O gênero vai ser uma escolha dele. Eu e o Yudi falamos isso desde o início da gestação. O pai biológico concordou."

Foi o pai biológico, André dos Santos, que sugeriu o nome de Ariel, por ser usado tanto para meninos quanto meninas. Yudi também falou sobre a decisão do casal:

"Eu e Taynan somos militantes das causas sociais e, dentro dessa perspectiva, começamos a entender o que é a construção de gênero e essa proposta de criar o Ariel em um modelo em que ele se sinta livre, sem determinar roupas e brinquedos. Se é menino, menina ou não-binário, é algo que ele vai decidir, vai ser uma pessoa desconstruída de machismo desde pequena. Ele vai ver, por exemplo, um menino brincando de boneca e entender isso como algo normal. Eu também não tive imposições, brincava de bola, de tudo. Mas, sendo um homem trans, eu sei das dificuldades que passo no dia a dia para que minha dignidade de homem seja respeitada."

As declarações de Taynan e Yudi foram extraídas de matéria do jornal O Globo, que, logo após, foi retirada do ar.

As repercussões em outros veículos também mostraram a discriminação contra o casal, como no caso do notícias Gospel, cuja reportagem afirma que Taynan é "adepta da ideologia de gênero" e é abertamente transfóbica ao afirmar que ela "vive com uma mulher que se identifica como homem".

A decisão de Taynan e Yudi é particularmente corajosa em um país como o Brasil, em que a violência transfóbica bate recordes. Há pouco tempo, Kori Doty, uma pessoa não-binária no Canadá, conseguiu obter na justiça o direito de que seu bebê recém-nascido não tivesse definição de gênero na certidão de nascimento.




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