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Baterias de íon-lítio que não explodem e reflexões iniciais sobre ciência e tecnologia

É necessário realizar um esforço para refletir uma sociedade que consiga conceber a ciência como a possibilidade de desenvolvimento das potencialidades intelectuais humanas ao máximo.

quarta-feira 18 de janeiro de 2017| Edição do dia

Quando um professor de química chega no conteúdo de pilhas e baterias lá pelo quarto bimestre dos segundos anos do ensino médio, é comum fazer o seguinte questionamento em aula aos estudantes : onde usamos as baterias? ( para que o interesse seja maior) . A resposta costuma ser em coro: no celular professor(a)! Celular e bateria acabam se tornando quase sinônimos, facilitando a compreensão do conteúdo de pilhas e baterias. Mas nem tudo é positivo sobre baterias de celulares, assim como elas mesmas. A bateria de íon-lítio é ótima para segurar a carga e se encaixar em pequenos dispositivos, mas de vez em quando experimenta o que é chamado de descontrole térmico. O termo se refere a um crescimento exponencial no calor. “O descontrole térmico é o termo técnico daquilo que é popularmente chamado de explosão”, segundo a professora de energia Yang Shao-Horn do MIT. A bateria contém dois eletrodos primários – o ânodo e o cátodo. Se esses eletrodos tocam um ao outro, o descontrole térmico pode se iniciar e é nesse momento que as pessoas repentinamente se encontram com o bolso em chamas ou pior.

As baterias de íon-lítio atualmente são um dos maiores “problemas” no mundo tecnológico e levaram ao recall de aparelhos como o modelo Sansung Galaxy note 7, sendo proibido o embarque em algumas empresas áreas e anunciado ainda em janeiro deste ano nas instruções de bordos antes da decolagem que os tripulantes que portasse este modelo comuniquem imediatamente os comissários do vôo. Este pequeno “problema tecnológico” da Samsung e outras empresas não foi divulgado como deveria reforçando, de certa forma, a ideia da ciência e das inovações tecnológicas como algo puro, sem contradições.

Foi publicado originalmente na Sciences Advances em 13/1/17 um artigo de pesquisadores eletroquímicos da Universidade de Stanfordque criaram uma bateria de lítio-íon com supressão de chama embutida. Quando a bateria atinge uma temperatura crítica (160 graus Celsius neste caso), um retardador de chama integrado é liberado, extinguindo todas as chamas dentro de 0,4 segundos. Normalmente o separador é um polímero chato como o polietileno, o plástico mais utilizado no mundo. O novo separador consiste em uma sequencia fibrosa de fosfato de trifenilo (TPP), um retardador de chama comum, com um invólucro de outro polímero (PVDF-HFP). O invólucro de polímero impede que a TPP infiltre no eletrólito, o que reduziria o desempenho da bateria.

Até agora, o método foi testado somente em baterias do tipo moeda e mais experimentos serão necessários para saber se o retardador de chamas funciona em baterias maiores como as que temos nos smartphones ou até mesmo em carros elétricos, podendo assim evitar que baterias explodam e reduzir os problemas da população, mas será que resolvem as contradições que as tecnologias nos trazem neste sistema?

Os conteúdos ministrados em sala de aula, a pesquisa científica e as inovações nos celulares se convergem em reflexões sobre a as contradições do mundo cientifico. A bateria do celular, enquanto pequena peça, e o celular como um todo fazem parte do cotidiano das pessoas na atualidade de forma intensa em diferentes aspectos, estabelece a comunicação via redes sociais e aplicativos e possibilita que uma ideia, denúncia ou informação se dissemine. Até mesmo com modelos antigos é possível ouvir músicas enquanto o trem não chega na estação, ver filmes e documentários, saber onde há trânsito ou alagamento e quais são as últimas notícias (já com análises críticas), controlar o peso, o horário do remédio e do ônibus, fazer “selfies” a qualquer momento, possibilita que uma trabalhadora entre em contato e faça seus pedidos aos fornecedores, viabiliza parcerias de trabalho e estudo, estabelece vínculos de amizade e amorosos (e desfaz também), em um chip há dados que podem ser transferidos “magicamente” para outro local.

Isso tudo é maravilhoso, mas não é o suficiente, pois um simples aparelho celular trás consigo dentro da caixinha as contradições sociais, já que as tecnologias não se desenvolvem no mesmo ritmo do acesso destas por toda população e das possibilidades de resolução das contradições no sistema capitalista. Estas reflexões partem de uma ideia de que os conhecimentos científicos não estão desligados do mundo em que vivemos, são parte dele e com isso sofrem as contradições que ele impõe.

Retomando um pouco alguns filósofos da ciência, encontramos alguns pensamentos interessantes. Para Popper (filósofo da ciência britânico) uma teoria científica é boa quanto mais estiver aberta a fatos novos que possam tornar falsos os princípios e os conceitos em que se baseia. E a maior contribuição que esta pode dar ao progresso do conhecimento reside na sua capacidade de levantar problemas. Para Kuhn (físico norte-americano) a “ciência normal” não está, em geral, orientada para a descoberta do novo, mas para submeter à natureza a esquemas conceituais fornecidos pela educação profissional.

É necessário realizar um esforço para refletir uma sociedade que consiga conceber a ciência como a possibilidade de desenvolvimento das potencialidades intelectuais humanas ao máximo. E que veja os problemas e ações cotidianas interligados com as contradições impostas e a necessidade de sua superação, levante novos problemas para gerar novas descobertas e não fórmulas mágicas.




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