Cultura

EXPOSIÇÃO NO CCB: BASQUIAT OBRAS DA COLEÇÃO MUGRABI

Basquiat, e o que tocou em mim

Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle

quinta-feira 29 de março| Edição do dia

Era preciso, sim, fazer uma pesquisa rica sobre Basquiat; mas a ansiedade e a teimosia me levam as letras e palavras pra dividir tudo o que vi, pois é preciso sentir Basquiat.

Durante toda a exposição há textos dizendo que Basquiat era um grafiteiro e sua arte parte muito disso, mas aqui parece que “grafite” é usado como um eufemismo porque não se pode dizer em voz alta que Basquiat era um pixador e levou a arte do pixo, arte sim, para suas obras.

“Encontro meus elementos em livros, latas de spray, blues, álcool etílico, gansos em glifos egípcios [...]. O mérito dos fatos não é meu. Eles existem a despeito de mim.”

Basquiat não pode ser emoldurado. Basquiat transgride como fazer arte, onde fazer arte, com o que fazer arte utilizando novos materiais; lápis, papel, giz, pintando portas onde se lê “atletas negros famosos” e uma cruz. E mesmo se não houvesse sua “coroa”, sua assinatura, em cada obra saberíamos que se trata de Basquiat.

O negro é o protagonista da maioria das minhas pinturas

Parece haver em Basquiat - desculpa as regras de redação, mas é preciso repetir o nome Basquiat até à exaustão - uma obsessão, um desejo de se expressar, de se afirmar através da repetição de imagens, como o osso em diferentes telas ou o mesmo desenho diversas vezes na mesma peça. Esse desejo de se afirmar também parece se revelar nas imagens de corpo que sempre permeia sua obra de alguma maneira; mas que são sempre apenas partes de corpo, corpos mutilados, corpos faltantes. E se falamos dos corpos desenhados por Basquiat não podemos nos esquecer que esse carregava um corpo negro, e colocava em sua obra, e a tornava também um corpo negro - e isso não pode nunca ser apagado.

O baixo e o alto aparecem indissociáveis nas obras de Basquiat - na mesma obra em que fala de linguiça ele fala também da ave de Deus, outro exemplo é quando usa para falar do jovem Moisés, personagem bíblico, o desenho de um pé; o mais baixo do corpo humano literalmente falando.

“Acredite ou não, eu sei desenhar... Mas quase sempre tento lutar contra isso.”

Já falei e volto a repetir que Basquiat transgredia, uma força que não parecia ser capaz de ser contida, uma força tão grande que devorou um artista da magnitude de Andy Warhol; as peças produzidas em conjunto pelos dois artistas quase apaga Warhol deixando só a força de Basquiat transparecer.

É sempre muita coisa junta acontecendo nas obras de Basquiat, uma expressão de um universo próprio imenso, criado nas ruas, lendo enciclopédias, em um contexto histórico em que a contracultura era a palavra de ordem; para olhar pra Basquiat é preciso se perder, se deixar levar, não dá pra se aterrar frente a algo tão vasto, e por isso mesmo tão assustador.

Não cabe colocarmos Basquiat em um pedestal de gênio, quando o genocídio negro ainda mata negros, artistas negros; quando o capitalismo sufoca qualquer potencial artístico para que possa nos explorar e nos proibir o direito de expressão. Basquiat não escapou disso, morreu aos 27 anos, mas resistiu como negro, como artista negro, como um artista das ruas.

A exposição com as obras de Jean-Michel Basquiat fica no Centro Cultural Banco do Brasil até o dia 7 de abril.




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