Política

ELEIÇÕES MUNICIPAIS

Bandidos políticos nas eleições, esquerda censurada: onde vai o combate à corrupção?

André Augusto

São Paulo| @AcierAndy

domingo 28 de agosto| Edição do dia

Quando o juiz berlinense fechou a disputa entre o rei da Prússia e o pobre moleiro em favor deste último – que só queria proteger seu moinho – Frederico o Grande gritou “Ainda há juízes em Berlim!”. Assim reza a lenda. Rodrigo Janot, nosso Procurador-Geral e chefe da Operação Lava Jato em Brasília, adora repetir a frase. O Judiciário construiu o mito do combate à corrupção através da Lava Jato. Entretanto, em meio à campanha eleitoral municipal – que obscurece as patéticas encenações no Senado para definir o impeachment – podemos dizer com os juízes, “Ainda há censura contra a esquerda!”.

De fato, as contrareformas reacionárias feitas para restringir esta “democracia dos ricos”, tanto a nível político como eleitoral, miram o objetivo especial de impedir que surja uma alternativa política dos trabalhadores à esquerda do PT. A esquerda não pode participar dos debates televisivos a menos que tenha 9 deputados federais; caso não os tenha, tem o enorme benefício de aguardar a opinião da mídia golpista, que graças ao Judiciário decide quais idéias a população poderá ou não ouvir.

Mas nenhum cacique dentro do Parlamento ou do Supremo Tribunal pode justificar a legislação eleitoral dessa forma. Não; faz de outra maneira. O regime eleitoral estica os bigodes e nos diz que a restrição eleitoral serve para “impedir que os corruptos participem das eleições”.

Com a desculpa cínica de “evitar a corrupção”, está impondo a censura sobre os trabalhadores, a juventude e a esquerda. No fundo possuem o objetivo de restringir o sistema de partidos a alguns poucos partidos ultrapoderosos. Assim fez a Operação Mãos Limpas na Itália: todos os quatro partidos no governo em 1992, a Democracia Cristã, o Partido Socialista Italiano (PSI), o Partido Social-Democrata Italiano e o Partido Liberal Italiano, desapareceram posteriormente, de algum modo. Sérgio Moro e Rodrigo Janot, que em meio a divisões dentro do Ministério Público estão em batalha comum contra Gilmar Mendes e o STF, podem não fazer desta forma. Mas o principal é censurar brutalmente a esquerda sob o lema “combater a corrupção!”.

Mas vejamos como vão nossos juízes de Berlim.

Bandidos políticos à solta

Acusado pelo Ministério Público de ter forjado um flagrante e torturado pessoas em abordagem policial no Pará, além de ter ameaçado uma menor de idade e o pai, o deputado Delegado Éder Mauro (PSD) concorre este ano à Prefeitura de Belém. Contra ele, tenta a reeleição o prefeito Zenaldo Coutinho (PSDB), que responde a um processo por incêndio culposo.

Além dos dois postulantes de Belém, enfrentam ações penais candidatos de Belo Horizonte, Fortaleza, Maceió, Recife, Porto Velho, Palmas e Aracaju. Três deles tiveram condenação em primeira instância.

Em Aracaju, o prefeito João Alves Filho (DEM), que concorre à reeleição, é réu numa ação sob acusação de corrupção passiva e peculato, além de desvio de recursos destinados à duplicação da Adutora do São Francisco na gestão de Alves no governo de Sergipe.

Na capital mineira, Alexandre Kalil (PHS), ex-presidente do Atlético-MG, foi condenado na Justiça Federal sob acusação de apropriação indébita previdenciária.

Por sua vez, o candidato a prefeito de Palmas, Raul Filho (PR) tem uma condenação por crime ambiental por fazer uma construção sem licença em uma chácara de sua propriedade que fica em área de proteção ambiental.

Estes dignos representantes do “combate à corrupção”, há alguns dias, tinham em suas mãos o poder de veto sobre a esquerda. Agora, por modéstia do STF, este poder passou às mãos dos grandes monopólios de televisão que promovem os debates, a vasta maioria das quais de posse dos mesmos coronéis e caciques regionais.

Mas a lista de êxitos contra a corrupção não termina aí. Em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, o Judiciário já tomou medidas que alteraram o destino das eleições municipais. Celso Russomanno (PRB) foi absolvido no STF mesmo condenado em primeira instância sob acusação de peculato, por ter pago a sua gerente produtora de vídeo com dinheiro da Câmara, entre 1997 e 2001. Ele lidera as pesquisas para vencer o primeiro turno da prefeitura paulistana, com 31%.

“Peculato é de todos”, deve imaginar em voz baixa o partido da Toga. Mas os políticos da burguesia se preocupam em insistir com seus exemplos edificantes. O mesmo Russomanno foi citado pelos chefes da máfia da merenda em SP – comandada pelo presidente da Alesp, o tucano Fernando Capez – como “novo parceiro”. Escutas e gravações do próprio MPF mostram que, se eleito, Russomanno entregaria duas secretarias a Leonel Júlio, ex-deputado cassado e pai do lobista número 1 da quadrilha da merenda, Marcel Júlio.

Mesmo na presença de tão "tímidas" evidências, os juízes preferem fingir que não há nada.

Participam, portanto, das eleições municipais uma variedade de espécimes da fauna política capitalista, condenados por crime ambiental, desvio de verbas públicas, apropriação de patrimônio público, torturadores, incendiários e ladrões de merenda de crianças da rede pública de ensino.

Essas edificantes personalidades tem todos os privilégios em rádio e televisão. Russomanno, por exemplo, tem 1min12s para lavar a audiência com sua ideologia reacionária. O empresário milionário João Dória (PSDB-SP) tem 3min6s para animar o público com sua “pobreza originária” e “habilidades de empresário”. A golpista Marta tem praticamente 2min para seguir pedindo desculpa pela taxas que criou. E o petista Haddad tem 2min35s para silenciar sobre o golpe institucional e mostrar-se pateticamente ao lado da direita com que o PT sempre governou.

Combinados, os candidatos patronais em SP tem quase 10min de aparição. A esquerda, combinada, tem 20s de tempo de televisão. Isso, sem contar organizações como o MRT, a única a fazer uma campanha eleitoral anticapitalista dentro do campo da esquerda, que sequer pode legalizar-se como partido sem ultrapassar barreiras colossais elaborados pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Assim segue havendo juízes em Berlim!

A corrupção é inerente ao capitalismo e seu sistema judiciário privilegiado

Fica claro que a restrição eleitoral não está a serviço de combater a corrupção, mas de promovê-la com todas as forças. Bandidos políticos podem participar, ladrões de merenda e condenados judiciais são a expressão da impunidade inerente ao capitalismo. O Judiciário prova uma e outra vez que está “no leme” deste segundo semestre político para resolver os elementos de crise orgânica e de representatividade no Brasil pela direita. Todo espaço aos golpistas da direita, algum espaço menor para os traficantes apáticos de votos dentro do PT, e censura absoluta aos trabalhadores, à juventude e à esquerda.

A Lava Jato suspende sua espada sobre as cabeças dos políticos, mas apenas para substituir um esquema de corrupção com rosto petista por um esquema com a cara da direita. Sérgio Moro e seus procuradores ganham medalhas do Exército por saber aproveitar a crise da Petrobrás para criar uma indústria milionária de delações. Faz jus em pertencer ao Judiciário mais rico do mundo: 1,2% do PIB nacional (quase R$70 bilhões) é consumido em salários aos juízes, sem contar os do Supremo, que merecem depois de tão árduos esforços por “extirpar” a corrupção nacional.

Nós do MRT e do Esquerda Diário lutamos para que a esquerda que surja desta situação tire lições da conciliação de classes promovida pelo PT, erguendo uma voz anticapitalista e que fortaleça as lutas dos trabalhadores, lutamos para que todos candidatos da esquerda possam ter direito a participar dos debates. Colocamos nossas forças militantes a serviço de uma grande campanha política contra a censura á esquerda por este carcomido regime político burguês.




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