Economia

OPINIÃO

Bancos estressados, estímulos monetários e consequências neoliberais

Simulacros e realidade no sistema bancário. Signos de recessão no Reino Unido: o Banco da Inglaterra sai para comprar tempo. O poder dos fenômenos políticos e a administração da crise.

Paula Bach

Buenos Aires

quinta-feira 11 de agosto| Edição do dia

Uma boa para a economia europeia: as recentes provas de resistência dos bancos conseguiram melhores resultados que em 2014. A má é que ninguém acredita na validade das provas. O resultado: ainda que a maioria das 51 entidades submetidas ao simulacro o superou com êxito, nos dias imediatamente posteriores, às perdas das ações bancárias superaram os 45 bilhões de euros. Uma semana depois a tendência continuava e o sistema bancário europeu havia perdido cerca de 4% do seu valor na bolsa.

De todo modo, tampouco a totalidade dos bancos passou pelo teste satisfatoriamente. A nota a deu o italiano Monte dei Paschi, o terceiro maior banco da Itália, que teria quebrado caso torna-se realidade um dos piores cenários do simulacro. Horas antes de se conhecer os resultados do "jogo" souberam que no "mundo real" o banco havia submetido a um resgate que envolve uma securitização de ativos podres de magnitude sem precedentes na Itália. Também dos bancos irlandeses, um banco austríaco e os alemães Deustche Bank e Commerzbank, mostraram situações de diversa vulnerabilidade.

As provas são comparáveis a um eletrocardiograma de esforço, mas no caso dos bancos se trata de avaliações no papel que medem a solvência das entidades frente múltiplas situações - incluindo as mais adversas- imaginadas desde o presente até 2018. Mas a falência mais importante das provas - e razão pela qual ninguém lhes outorga demasiado crédito- reside justamente na "imaginação"... Como muitas vezes ocorre com a teoria econômica ou a "economia política", os cenários pensados são abstratos.

Por um lado são utilizados modelos desenvolvidos de acordo com os fatos críticos verificados até 2015. De modo tal que os acontecimentos posteriores, novos historicamente e de grande influência sobre a rentabilidade e estabilidade bancária como por exemplo os tipos de juros negativo ou... Ai! o Brexit, ficam por fora. Por outro lado a The Economist observa que a maioria dos investidores estão mais preocupados pelas "dolências crônicas" que pelo tipo de choques (para completar, não demasiado "concretos", insistimos) simulados pelas provas de resistência. Segundo El País, essas "dolências crônicas" se manifestam em dois aspectos chaves. O primeiro, que afeta toda a capacidade do sistema bancário europeu, mas o alemão em particular, versa sobre a capacidade de gerar rentabilidade com tipos de juros em mínimos históricos. O segundo, que afeta em particular os bancos italianos, está associado às suspeitas sobre a má qualidade dos ativos. Enquanto isso, The Economist, ressalta também que os bancos estão estreitamente ligados à saúde econômica dos países nos quais operam e que enquanto o baixo crescimento na Europa persistir, ninguém pode esperar uma performance bancária na qual tudo esteja bem.

E efetivamente, há tempo insistimos que os problemas dos bancos - ainda que se arrastam por bastante tempo e subsistem como um elo débil- adquirem particular relevância frente as novas fragilidades da "economia real". Justamente os dois grandes itens ignorados pelo teste de estresse - taxas de juros negativas e Brexit- derivam de dois assuntos muito "reais". Em grande medida, a menor eficácia das taxas "zero" e a proliferação de taxas negativas, são consequência dos limites da sinergia entre as políticas monetárias expansivas e a "mexa" chinesa que -arrastando os "emergentes"- atuou como receptora dos capitais sem destino nos países centrais. O Brexit, entretanto, é indissociável das consequências econômicas, sociais e políticas do crescimento debilitado dos anos pós Lehman.

Recessão no Reino?

Acontece que o Brexit, goza de um comando que de "exit" não tem muito e tenta negociar com a UE trabalhosas condições intermediárias, permanecendo por hora no Reino Unido em uma espécie de "não lugar". E ainda que as repercussões econômicas internacionais do evento ainda sejam indeterminadas, as consequências sobre a economia britânica já se fazem evidentes. A semana passada o Banco da Inglaterra voltou a cortar as taxas de juros pela primeira vez desde 2009, ampliou o esquema de flexibilização quantitativa e introduziu um novo regime de financiamento dos bancos. O motivo das políticas implementadas pelo presidente da entidade, Mark Carney, é que a atividade do setor manufatureiro, de serviços e da construção, reduziu fortemente em julho e os dois últimos itens, segundo The Economist, o fizeram na maior rapidez desde 2009. Também segundo o semanário britânico, as pesquisas revelam um amplo pessimismo entre as empresas a medida que os pedidos do exterior se esfumaçam e a economia britânica parece destinada a sofrer, ao menos, uma recessão leve.

Para além do tom que finalmente adquira a recessão, se vislumbram brechas entre o Banco Central e o Tesouro e diversas vozes estão clamando de antemão que as medidas monetárias serão insuficientes no Reino do Brexit. Segundo o colunista da The Economist, Larry Elliot, com o novo pacote de estímulo, o presidente do Banco da Inglaterra não teria feito mais do que comprar algum tempo porque na verdade o Banco só pode gerar uma versão modesta da apagada e desequilibrada recuperação que ocorreu depois da grande recessão de 2008/09.

Nas tensões entre Banco Central e Tesouro, se abre novamente o caminho para os problemas relativos à debilidade da economia real. Elliot insiste que o Banco Central não pode cortar o IVA ou explorar as ultra baixas taxas de juros para investir em projetos de gasto público de longo prazo. E ressalta que tampouco pode resolver, o Banco, os profundos problemas estruturais que contraem a economia durante décadas como um excesso de confiança no mercado imobiliário, um setor produtivo de tamanho insuficiente que gera um déficit comercial crônico ou a falta de conhecimentos e de investimento que se manifestam em dados de produtividade pobre.

Para falar a verdade, o murmúrio que fomenta a necessidade de políticas de investimento público- para além de suas probabilidades reais de implementação- excede o Reino Unido e expressa tanto a debilidade de "demanda agregada" e o crescimento econômico durante os últimos anos, como as maiores dificuldades que num novo cenário enfrentarão as políticas monetárias. Para mencionar os mais imediatos e possíveis efeitos, o corte da taxa de juros do Banco da Inglaterra- num contexto de grande incerteza na segunda praça financeira mundial- vai afetar novamente a rentabilidade bancária - outra vez a economia real incitando as linhas de falha dos bancos. Justamente o novo esquema britânico de financiamento para os bancos tem o objetivo de neutralizar antecipadamente a queda de rentabilidade. Por outro lado, a desvalorização derivada da libra gera pressões a revalorização do dólar ao mesmo tempo que dificulta qualquer intenção - por mais distante que seja- de aumento das taxas por parte do Fed. Questões que devem ser remarcadas - ainda sem necessidade de realizar prognósticos apressados- tem ao menos a potencialidade de afetar a economia norte-americana e aumentar o dano do Brexit sobre a economia internacional.

O "fracasso do êxito" neoliberal

Voltando atrás na história e retomando a dicotomia entre o "mundo das finanças" e o mundo da "economia real", vale recordar que se um dos acontecimentos que marcam o início do neoliberalismo foi o aumento das taxas de juros por parte do Federal Reserve em 1979, a capacidade de restabelecer a rentabilidade do capital e propiciar o crescimento moderado das décadas recentes, teve origem claro na "economia real" ou para dizê-lo de maneira mais contundente, no "território". Sem pretender desenvolver aqui as condições gerais da ofensiva neoliberal, importa ressaltar que o objetivo fundamental nos países centrais que consistiu em, como aponta David Harvey, "fazer o trabalho local competitivo com a mão de obra mundial". Tarefa que contou entre seus marcos chaves os processos que - com particular ênfase na década de 2000- operaram deslocalizando a produção dos Estados Unidos para China e da Alemanha e os países da Europa central para o Leste. Enquanto isso, e por sua vez, a migração interna europeia para o centro se intensificou desde 2004 depois da ampliação da UE. Segundo Timothy Garton Ash, desde aquele ano se estabeleceram na Grã Bretanha cerca de 2 milhões de migrantes. Obviamente o papel instrumental dos mecanismos financeiros destinados a habilitar a mobilidade internacional do capital, foi um complemento chave do processo.

Mas o que interessa ressaltar aqui é que aquele êxito neoliberal - cujos limites analisamos em Estancamento secular, fundamentos e dinâmica da crise- está se constituindo - com sua sequela de renda estancada, precarização e desemprego estrutural- na substância do repúdio à globalização que hoje brota em amplos setores das classes operárias brancas dos países centrais. Fenômeno ao qual - com uma alta cota de demagogia- vai dirigido o discurso xenófobo, isolacionista e protecionista de Donald Trump ou dos impulsionadores da campanha do Brexit, entre outros, como desenvolvemos em A "fúria populista" que comove o mainstream.

E o problema central é que justo quando as conquistas da ofensiva neoliberal na "economia real" estão num processo de esgotamento, o sentimento de "ausência de progresso individual" está adquirindo peso em expressões políticas de direita que ameaçam a base de sustentação das "elites governantes". A ilusão - ainda débil- de substituir a "meca" chinesa pela Índia que até alguns meses não mais tinha a imprensa financeira internacional, foi trocada por uma espécie de pânico a la "ira populista". A provável persistência e eventual consolidação daqueles fenômenos - ainda em médio prazo- obriga a pensar um cenário de maior polarização e fortalecimento de suas contrapartidas pela esquerda. Não está descartado que a política golpeie antes que a economia, obstaculizando a administração gradual da crise para a qual as "elites" demonstraram bastante perícia durante os últimos anos.




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