FEMINICÍDIO

Aumenta os feminicídios no país e Campinas tem taxa acima da média estadual

Uma pesquisa com metodologia inédita realizada por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Unicamp apontou, entre outras coisas, que a cidade de Campinas apresenta taxas de feminicídios maiores que a média estadual, chegando mesmo próximo à alta média nacional. O mapa da violência 2019 também indica um aumento da violência letal contra mulheres nos últimos anos.

sábado 3 de agosto| Edição do dia

O alarmante crescimento dos casos de feminicídios no Brasil tem gerado uma gama de pesquisas e discussões a respeito do tema. O Atlas da Violência 2019 que analisa dados da década de 2007 a 2017, indicou um aumento expressivo de mais de 30% da violência letal contra mulheres, sendo que a maior parte destes homicídios são caracterizados como feminicídios. Foram 3778 assassinatos de mulheres registrados em 2007 que evoluíram a 4936 registrados em 2017, um aumento brutal de 1158 em somente uma década. A própria Secretaria de Segurança Pública divulgou que no 1° trimestre de 2019 houve um aumento de 76% de casos em comparação ao mesmo período de 2018. Trata-se de um crescimento alarmante que acompanha e se relaciona à intensificação dos efeitos da crise econômica, social e política que o país atravessa.

Veja mais: O crescimento da taxa de feminicídios no Brasil e a política machista de Bolsonaro

Um grupo de pesquisadores da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp) analisou os dados relativos à violência letal contra as mulheres no ano de 2015, no município de Campinas. O estudo se deu a partir do objetivo de caracterizar os feminicídios na cidade, aplicando para isso uma metodologia chamada “autópsia verbal”. Essa metodologia pouco utilizada parte de entrevistar pessoas que possuíam relação com as vítimas, para traçar melhor os perfis e identificar situações de risco. Há controvérsias sobre as estatísticas de feminicídios no país, seja porque tal caracterização por muitos anos simplesmente não existia do ponto de vista legal, já que a Lei do Feminicídio é apenas de 2015, seja porque há uma disputa social e política em relação a essa caracterização.

Entende-se por feminicídio aquele assassinato de mulheres motivado pelo fato único de serem mulheres, ou seja, submetido à opressão de gênero em suas mais distintas manifestações (machismo). Os casos de violência contra as mulheres e feminicídios crescem em meio ao conservadorismo alentado pelo governo Bolsonaro, que como ilustração tem o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos entregue à sua correligionária Damares Alves, que afirmou que para resolver os crescentes casos de estupros basta instalar fábrica de calcinhas- reforçando a moral machista de culpabilizar as mulheres dessa que é uma das violências mais brutais a que estão submetidas centenas de milhares em nosso país.

A pesquisa do grupo da FCM, com suas entrevistas demonstrou que a ampla maioria de homicídios de mulheres configuram como feminicídios, sendo 73,1% do total registrado em Campinas no ano de 2015. Um perfil comum às vítimas é traçado: estão significativamente na faixa etária de 18 a 44 anos, são mães de 1 a 3 filhos, pouco escolarizadas (maioria com apenas ensino fundamental) e se consideradas juntas as autodeclaradas pardas e pretas são uma maioria de 52,6% em relação às brancas. O agressor é na maioria dos casos íntimo, o companheiro atual que não aceitou a decisão da mulher de se separar ou alegou ciúmes. Os crimes são também em maioria praticados dentro da casa da vítima ou em vias públicas, com os instrumentos mais absurdos possíveis (facas domésticas, navalhas, cacos de vidro) além da arma de fogo e outros, o que demonstra uma naturalização dessa violência como um assunto onde “não se mete a colher”. Mais que isso, o perfil levantado pelos pesquisadores junto aos familiares e amigos das vítimas mostra que a maioria dessas mulheres teve seu assassinato como um ponto final de uma história carregada das mais brutais violências de gênero, num cotidiano de extrema opressão.

Em meio a um governo que tem como inimigas declaradas as mulheres, pessoas negras e LGBTs, bem como àqueles que se enfrentam a moral conservadora da direita, como fazem os movimentos sociais e organizações de esquerda, não é de se estranhar que os feminicídios disparem. E, diferente do que Lula e o PT já chegaram a afirmar, as declarações e ofensiva de Bolsonaro e seus aliados a estes setores e direitos democráticos elementares, como o direito à memória e justiça dos presos, torturados e assassinados pela Ditadura Militar que o presidente veio atacando nos últimos dias, não são cortina de fumaça. Esses ataques se combinam à Reforma da Previdência em curso e a cada ataque econômico que esse governo, com o aval autoritário do Judiciário e a tutela das casernas, quer aplicar contra a classe trabalhadora. Querem dividir a nossa classe para melhor nos atacar, mas é preciso unificar todos os setores oprimidos e trabalhadores para vencermos o projeto de país que o Golpe institucional e seus atores buscam efetivar. Por isso é urgente romper a lógica parlamentarista e palaciana, que o PT vem esterilmente fazendo, assim como as negociações que as centrais sindicais e entidades estudantis que dirigem, CUT, CTB e UNE assumiram vergonhosamente contra os nossos direitos.




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