Internacional

ATO INTERNACIONALISTA DA FRAÇÃO TROTSKISTA

França: "Nos opomos a todo patriotismo"

Gaetan Gracia, trabalhador da indústria aeronáutica, fala no ato internacional da Fração Trotskista de como, frente à crise construída há anos pelos capitalistas, torna-se ainda mais necessária a organização para que os trabalhadores controlem a produção de acordo com a demanda da população e construam por si próprios uma resposta à catástrofe que nos ameaça, em que "nossa única fronteira [seja] a fronteira de classe".

Lina Hamdan

Estudante de Artes Visuais na UFMG

sexta-feira 1º de maio| Edição do dia

"a crise do coronavírus não surgiu como um raio em céu sereno"

A crise atual, catalisada pelo coronavírus, é resultado de anos de destruição dos serviços públicos e de redução do nível de vida das maiorias populares no mundo todo, enquanto uma parcela ultra minoritária seguia ganhando em cima da precariedade da vida dos trabalhadores.

Uma crise sanitária, econômica, social e política em que as lutas de classes dos últimos anos no mundo e sobretudo na França não deixaram dar o sinal de quais os sujeitos revoltosos que podem se emergir contra o descaso dos governos com nossas vidas.

Gaetan Gracia é trabalhador de uma fábrica terceirizada da gigante Airbus francesa e representante sindical dos trabalhadores na indústria aeronáutica, além de militante do jornal irmão francês do Esquerda Diário, o Révolution Permanente, ambos impulsionados pela mesma organização internacional, a Fração Trotskista.

A voz de Gaetan expressa a luta que os trabalhadores franceses vieram enfrentando ao longo dos últimos 4 anos, desde a batalha contra a reforma trabalhista do governo Hollande em 2016, passando pela inesquecível e enorme revolta dos Coletes Amarelos nos finais de 2018 e início de 2019, e chegando às vésperas da pandemia do coronavírus com a moral de terem enfrentado a facínora reforma da previdência do governo Macron através da greve mais longa da história recente francesa, com os trabalhadores do transportes deixando completamente parada a maior capital turística do mundo.

"É nesse contexto de retorno da luta de classes que o governo se deparou com a crise sanitária. E o mínimo que podemos dizer é que sua gestão da crise foi catastrófica e inclusive criminosa."

Frente à pandemia atual, os trabalhadores da indústria aeronáutica francesa foram um dos primeiros a levantarem sua voz defendendo o direito de protegerem a sua saúde na medida em que produzir peças para aviões na situação atual seria algo completamente desnecessário.

O governo e a gigante Airbus contra atacam para exigir o retorno ao trabalho, mesmo isso significando que os trabalhadores industriais usariam milhares de máscaras n95 enquanto as trabalhadoras da saúde estão sofrendo enorme escassez de equipamentos de proteção individual. Em depoimentos, as trabalhadoras relatam algo que vemos não só na França, mas ainda mais em países da periferia capitalista, como o Brasil: são obrigadas a passar um dia inteiro de trabalho nos hospitais usando apenas uma máscara, e nem sempre é a mais adequada, como é a n95.

"Num país que tem indústrias como Airbus, Renault e Peugeot-Citroën, fomos incapazes de produzir máscaras suficientes (...) Em um país que diz ter o melhor sistema de saúde do mundo, não fomos capazes de garantir trajes de proteção para os trabalhadores, que tem que usar um saco de lixo no lugar"

Contando da reação à crise atual, Gatean, no ato, fala dessas movimentações atuais no seio da classe trabalhadora francesa e da repressão brutal e seletiva do governo francês para impor uma quarentena a duas marchas: aos parisienses do centro da cidade histórica, vista grossa; aos bairros e cidades periféricos da metrópole, onde moram sobretudo os trabalhadores que estão na primeira linha do combate ao vírus (transportes, limpeza, saúde, caixas de supermercado, etc), violenta repressão, crueldade policial e racismo.

"Esse mesmo Estado francês testou esses métodos de repressão na Guerra da Argélia, antes de estendê-los às suas ex-colônias na África, mas também aos bairros marginalizados das grandes cidades francesas."

O trabalhador industrial conta de como os revolucionários estivemos no seio de todas essas lutas, batalhando pela organização independente das das rotinas paralisantes das direções sindicais burocráticas, através do controle operário, buscando uma saída de fundo contra a miséria capitalista.

"Pra nós, são os trabalhadores que devem controlar as medidas sanitárias. Não temos nenhuma confiança em nossa própria patronal. Pra nós, são os trabalhadores que por eles mesmos devem controlar os livros de contas, as finanças das empresas, principalmente daquelas empresas que alegam dificuldades para justificarem as demissões" disse Gaetan.

E completa: "Para nós, são os próprios trabalhadores que devem controlar o que deve ou não ser produzido, o que é útil ou não frente à pandemia. Temos dado muita importância a esse aspecto, da necessidade de reconverter a produção. Somos capazes de fabricar respiradores artificiais, máscaras, álcool em gel e tudo o que seja útil para enfrentar a pandemia, e estaríamos muito orgulhosos de poder fazer isso."

E frente a lógica da classe dominante do país imperialista que agora fala em reconversão de parte da produção, para entrar em um mercado lucrativo, como a produção de máscaras, Gaetan fala: "diante da política do imperialismo francês, por exemplo, que rouba os recursos africanos, que faz com que hoje milhões de africanos tenham apenas algumas dezenas de respiradores frente à pandemia, nós, ao contrário dessa política, estaríamos orgulhosos de fabricar respiradores em grande escala, para todos os trabalhadores, franceses ou africanos, sem distinção nem fronteiras".

Veja a fala de Gaetan Gracia e outros trabalhadores e estudantes no ato internacional da Fração Trotskista pela Quarta Internacional

"Como podemos ver, o MEDEF, [organização patronal francesa], e o governo, eles estão levando sua própria política. E eles estão tentando impor o seu "mundo de amanhã". E, frente a isso, precisamos lutar para impor nossas soluções, para impor nosso mundo de amanhã, não o deles, um mundo que não seja imposto pela violência e vigilância policial generalizada, com desemprego para alguns e duplas jornadas de trabalho para os outros. Eu repito, devemos lutar por nosso próprio mundo de amanhã."

É para dar voz aos trabalhadores e ser uma ferramenta deles próprios para expor suas denúncias e construir sua organização de maneira independente dos setores que explícita ou implicitamente são contrários à nossa classe, que internacionalmente nós da Fração Trotskista pela Quarta Internacional, que aqui no Brasil conformamos o Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), impulsionamos mídias militantes em 14 países, em 8 línguas.

A construção deste ato internacional neste histórico primeiro de maio é uma das nossas iniciativas de expandir a voz dos trabalhadores para que estes lutem pela emancipação de toda a humanidade, em uma lógica anticapitalista anti-imperialista e sem-fronteiras, a não ser a fronteira entre nossa classe e a dos capitalistas.

"Camaradas, nossa única fronteira é a fronteira de classe. Falamos alto e claro, sobretudo nesses momentos em que as tensões entre Estados são cada vez mais fortes. Pra nós é central repetir. Nos opomos a todo patriotismo, seja o dito de esquerda como o de Mélechon, ou o claramente reacionário como o de Marine Le Pen. Nossa política é o internacionalismo e o anti-imperialismo de todos os trabalhadores. É com essa lógica que lutamos na França pela construção de um grande partido revolucionário que agrupe militantes e correntes de diversas tradições e diferentes origens. Estamos lutando por essa perspectiva dentro do Novo Partido Anticapitalista, começando pela reunião do Novo Partido Anticapitalista e do Luta Operária [ambos partidos trotskistas] ao redor de um debate que extraia lições das lutas de classes dos últimos anos. Porém, lutamos também por um partido que saiba agrupar militantes para além desses partidos, como militantes sindicais e operários que têm se mobilizado desde 2016, assim como uma fração dos Coletes Amarelos, dos bairros populares, da juventude, das mulheres e de todos aqueles que hoje em dia se sentem anticapitalistas. Nós pensamos que é possível construir um partido que tenha claramente um programa e uma estratégia revolucionária e que lute pelo comunismo, por um mundo de amanhã que seja organizado em função de nossas vidas e não do lucro deles." finalizou Gaetan.




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