Gênero e sexualidade

MULHERES NAS ELEIÇÕES

Atacadas pelo golpe, mulheres decidirão as eleições

Estas eleições estão marcadas pela intervenção do judiciário, retirando o direito da população votar em quem quiser e por uma altíssima taxa de votos nulos e indecisos. Isto é muito maior entre as mulheres. As mais afetadas pelas consequências do golpe na saúde, no emprego, nos direitos trabalhistas, terão peso decisivo nessas eleições. Essas mulheres são muito mais do que uma no poder.

Leticia Parks

São Paulo

sexta-feira 17 de agosto| Edição do dia

Em todas pesquisas eleitorais já encomendadas, os resultados alarmam: enquanto são 52,5% do eleitorado brasileiro, as 54% indecisas e as 26% decididas a anular somam uma enorme fração de 80% de mulheres (1) que de alguma forma explicitam sua insatisfação com o regime eleitoral.

A incerteza e desconfiança não é a toa. Boa parte das mulheres declaram também que caso Lula fosse candidato, votariam nele, mas são impedidas disso por uma política golpista do judiciário e de sua Lava-Jato, que com o golpe institucional e a prisão arbitrária de Lula, tentam definir em quem o povo pode ou não votar. E a política do PT em nada ajuda a resolver isso, à medida em que enquanto governo já haviam aplicado uma série de ataques - como o aumento da terceirização de 4 a 12 milhões - que recaíam diretamente sobre as costas das mulheres, que ainda que sejam uma parcela importante das intenções de voto petistas, são menos proporcionalmente do que já foram tempos atrás. Essa debandada é inseparável dos ataques que o próprio PT implementou e por ter adotado os mesmos método de corrupção dos partidos capitalistas.

No caso de realizar a candidatura, de acordo com a pesquisa Datafolha de 10 de julho, Lula teria 29% de mulheres e 31% dentre o público masculino, estabelecendo uma média de 30% entre os dois gêneros. Na última eleição de Dilma, entretanto, as mulheres representavam 53% de seu eleitorado, de acordo com dados colhidos pelo Estado de São Paulo. Nas primeiras vem que Lula se apresentou candidato, o interesse das mulheres também era fraco, representavam pouco mais de 40% do eleitorado total do PT. O discurso que acompanhou as duas candidaturas de Dilma, de que era preciso que as mulheres ocupassem os cargos de poder para combater o machismo estrutural do país, certamente se tornou uma enorme desilusão em um governo que em seus 6 anos com uma mulher à frente, não realizou qualquer uma das demandas mais sentidas pelas mulheres.

Dentre essas demandas, a que mais se destaca é a necessidade de melhorias no sistema de saúde, como aponta a pesquisa mais recente do Datafolha de avaliação do governo Temer. À questão “qual deve ser a prioridade do presidente eleito”, 46% das mulheres responderam saúde, mais do que a soma das opções seguintes, educação (18%), desemprego (8%), segurança (5%) e economia (3%). Mas ainda que no eleitorado masculino, a saúde tenha liderado com 35%, na pergunta sobre o principal problema do país, os homens, em 21% dos casos escolherem a corrupção, enquanto as mulheres diziam que é a saúde.

Isso não é à toa. Com a aprovação da lei do teto de gastos, que limita o aumento do repasse de recursos aos serviços públicos de acordo com a inflação, as mulheres são forçadas a suprir pela via do trabalho e cuidado doméstico a ausência de serviços públicos de saúde essenciais à vida. São as mulheres que trabalham jornadas duplas ou triplas, responsáveis pela higiene, cuidado dos doentes, e que quando buscam os serviços de saúde, se vêm forçadas a deixar de trabalhar para acompanhar os filhos durante uma jornada de dias para encontrar atendimento. Isso é o que no marxismo chamamos reprodução da vida, um trabalho essencial que deveria ser realizado pelo Estado mas que é exercido exclusivamente pelas mulheres. O mesmo se dá com educação, a segunda maior necessidade do eleitorado feminino, que com a ausência de creches, fechamento e precarização da educação, são forçadas a pagar uma terceira pessoa para cuidar de seus filhos, ou quando não ter recursos, levá-los ao trabalho ou deixá-los sozinhos em casa.

Também não é à toa que os candidatos com discurso mais explicitamente golpista atraem tão pouco. As mulheres são absoluta minoria nos votos para Bolsonaro. Os 14% de intenção de voto espontâneo que o candidato ostenta na pesquisa são a balança entre 22% de eleitores homens e apenas 7% de eleitoras mulheres, uma diferença de mais de três vezes. Nos cenários estimulados pelo DataPoder, nos quais há uma lista de candidatos, o voto em Bolsonaro vai de 26% a 28% entre eles e de 11% a 12% entre elas, quando Lula não concorre. No mesmo cenário no DataFolha, dentre seus 19% de votos estimulados, Bolsonaro reúne apenas 6% das mulheres.

Há um sentimento geral entre as mulheres de que os atuais políticos não nos representa, e não está apenas ligado ao discurso de ódio à mulheres que aparece em Bolsonaro, ou à desilusão PTista. Fato é que a crise social e econômica que vivemos recai ainda mais fortemente sobre as costas das mulheres, que pagam o ônus da crise com a precarização da própria vida. Não é possível para muitas delas, portanto, serem otimistas com o processo eleitoral. O Ibope afirma que, entre os eleitores do sexo feminino, 47% se declararam pessimistas na pesquisa e apenas 18% das mulheres entrevistadas se disseram otimistas. Entre os homens, 28% são otimistas. O levantamento do Ibope foi encomendado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e foi realizado entre os dias 21 e 24 de junho.

Na Argentina, a insatisfação e pessimismo com o parlamento se tornou força nas ruas, com a enorme maré verde que tomou o país e forçou o parlamento a votar a legalização do aborto, que só será de fato definida a partir da votação do senado, que ocorrerá no próximo dia 8. Com o enorme papel que as mulheres começam a cumprir na produção, dividindo meio a meio a composição da classe operária, o destino material que o capitalismo nos preserva se torna cada vez mais explícito e aprofunda a crise orgânica que se torna visível nos números eleitorais. As mulheres não querem votar porque não conseguiram, em 200 anos de história, confiar no capitalismo e na democracia dos ricos. As mulheres argentinas ensinam: é preciso ocupar as ruas e conquistar os direitos pela luta. As mulheres russas, há 101 anos, ensinaram mais: é preciso ocupar as ruas para derrubar governos e regimes, e só é possível vencer com uma estratégia socialista e revolucionária.

Nosso feminismo é socialista

Nos EUA, a debandada das mulheres das candidaturas tradicionais levou muitas a buscar candidaturas femininas como a de Hillary Clinton para sua representação política, isso porque a crise orgânica lança confusões que nem sempre vão à esquerda. Tanto nos EUA quanto aqui, muitas são as mulheres que se candidatam dizendo que serão nossas representantes, mas não passam de porta-vozes dos ataques que os capitalistas querem lançar sobre as nossas costas. Hillary, por exemplo, foi uma das principais apoiadoras da guerra contra o Iraque e foi com o seu voto junto ao de outros senadores que Bush foi autorizado a bombardear brutalmente o país, assassinando milhares de mulheres e crianças. Aqui, candidatas como Marina Silva colecionam declarações anti-operárias e de aproximação com as medidas do golpe. Em 2016, quando se votava o impeachment de Dilma e o golpe se consumava, essa candidata disse que o impeachment não era golpe.

Aqui no Brasil, através das candidaturas anticapitalistas da classe trabalhadora, de Diana Assunção, Marcello Pablito e Maíra Machado em São Paulo, Flávia Valle e Valéria Muller, queremos debater com as trabalhadoras e trabalhadores, os negros, as mulheres e a juventude, que é preciso buscar uma saída política de independência de classe, que seja capaz de colocar a insatisfação das mulheres como potência motora de uma forte luta pelo direito do povo decidir em quem votar, pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito e pela não pagamento da dívida pública. Isso porque sabemos que nossas demandas não vão se resolver nas eleições, mas com luta e organização, porque nada nunca nos foi dado, nem por governantes e patrões homens nem por governantes e patroas mulheres. Nessas eleições, sabemos que não fomos, nem nunca seremos, uma no poder.




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