Teoria

REVOLUÇÃO RUSSA

As questões da insurreição: 1917

‘’O que acaba de ser dito não significa portanto de forma alguma que a insurreição popular e a conspiração se excluem uma à outra em todas as circunstâncias. Um elemento de conspiração, em tal ou tal medida, entra quase sempre na insurreição. A etapa historicamente condicionada da revolução, a insurreição das massas, nunca é puramente elementar. Mesmo tendo eclodido de improviso para a maioria dos seus participantes, ela é fecundada pelas ideias nas quais os insurrectos vêm uma saída às dificuldades da existência. Mas uma insurreição das massas pode ser prevista e preparada. Ela pode ser organizada antecipadamente. Nesse caso, a conspiração é subordinada à insurreição, ela serve-a, facilita a sua marcha, acelera a sua vitória. Mais elevado é o nível político de um movimento revolucionário, mais séria é a sua direção, maior é o lugar ocupado pela conspiração na insurreição popular.’’ Trotsky, A Arte da Insurreição, em A História da Revolução Russa

terça-feira 7 de fevereiro de 2017| Edição do dia

As diferenças táticas entre Trotsky e Lenin sobre as formas da tomada do poder

Continuamos aqui o debate iniciado no artigo anterior sobre as questões da insurreição na revolução de 1905, no presente artigo abordaremos a insurreição de 1917. A insurreição em Petrogrado em outubro de 1917 será expressão maior do processo revolucionário que se inicia com a revolução de fevereiro e que durante todo o ano, com as múltiplas e profundas experiências do proletariado, do campesinato, de todos os demais setores oprimidos colocam, os bolcheviques, primeiramente setor minoritário, a frente do movimento, dirigindo os dois principais sovietes (Petrogrado e Moscou) e gozando de grande influência frente às massas. Toda experiência dos grandes embates até ali, as jornadas de julho, a resistência à Kornilovada, tinham mostrado para amplos setores que eram os bolcheviques os mais decididos a resolver as questões fundamentais colocadas à revolução: terra ao campesinato, paz e fim da guerra imperialista, luta contra a desorganização econômica e controle operário da produção e distribuição, principalmente dos alimentos, sintetizados na consigna de ‘PAZ, TERRA E PÃO’’ e que os bolcheviques eram os únicos comprometidos com um poder organizado a partir das massas oprimidas em luta, através da consigna de “todo poder aos sovietes”

As traições dos partidos pequenos burgueses de esquerda, socialistas revolucionários e mencheviques, sua demora e convocar a assembléia constituinte, sua recusa em defender uma reforma agrária, sua conciliação com os partidos burgueses, tinham-lhes tirado toda confiança de que gozavam entre os trabalhadores e reforçado a confiança nos bolcheviques, que apareciam como único partido coerente, digno de crédito e decidido a resolver de forma radical as questões.

A partir de setembro de 1917, após as jornadas de julho e a tentativa de golpe liderada pelo general reacionário Kornilov, e o papel central que tinham cumprido os bolcheviques na resistência ao golpe, o partido conquista a maioria e a presidência nos dois principais sovietes, nas duas mais importantes cidades do país, Moscou e Petrogrado.

A partir desse momento começa intenso e profundo debate nas fileiras do partido sobre a necessidade de tomar o poder, a forma que deve assumir a insurreição e o momento correto de deflagrar a luta. A guerra imperialista tinha se encarregado de armar amplas camadas das massas populares, tanto operárias quanto, principalmente, camponesas; a revolução de fevereiro tinha garantido aos bolcheviques ampla liberdade de agitação entre as tropas, podendo debater suas idéias diretamente com soldados.

As questões da insurreição, portanto, se colocavam de forma diferente em 1917 do que tinham se colocado em 1905. A questão em 17 não era como garantir um organismo combatente com uma mínima operacionalidade técnico/militar, capaz de opor uma primeira resistência real as tropas governamentais que num momento posterior permitisse disputar as idéias revolucionárias com a finalidade de dividir essas tropas e ganhar um setor de suas fileiras para o lado da insurreição (isso a partir de uma massa insurreta certamente com menor treinamento militar e mal armada).

A questão que se colocava para a insurreição em 1917, dado a grande influencia inicial dos bolcheviques em setores importantes do exército, era como garantir a fidelidade do maior numero possível de regimentos à revolução, desde um primeiro momento, e ao mesmo tempo como garantir que o mínimo de regimentos passasse para o lado da contra-revolução e defesa da “ordem”, isso sobre o pano de fundo de um período que se abre, a partir do meio de setembro, em que a insurreição está colocada na ordem do dia e que se os bolcheviques protelam por muito tempo seu movimento visando a tomada do poder podem perder sua influência sobre as massas trabalhadoras, pois iriam aparecer como mais um partido que fez promessas às massas para ganhar influencia mas que quando adquiriu essa influência traiu as promessas feitas no momento anterior. A perda dessa influência nas massas seria a perda da influência no exército, posto a relação extremamente dinâmica e de mútua interação quer existia entre população civil e militar naquele momento.

É nesse contexto que se expressarão as divergências táticas entre Lenin e Trotsky sobre as formas da tomada do poder que iremos debater nesse artigo.

O CURTO PERÍODO EM QUE SE ABRE A POSSIBILIDADE DE UMA INSURREIÇÃO VITORIOSA

A partir do meio de setembro, quando os bolcheviques ganham maioria nos sovietes das duas capitais e em várias das províncias mais importantes (o que expressão super-estrutural de uma viragem pró-revolucionária no espírito das massas) Lenin começa uma febril correspondência com os membros do comitê central do partido bolchevique defendendo a necessidade imediata da organização da tomada do poder, lutando contra toda e qualquer vacilação que pudesse existir no CC do partido.

Isso porque para o líder do partido bolchevique naquele momento se abriu um curto período de ruptura radical do espírito, da consciência, das massas com as antigas ideologias, tradições, formas organizativas e super-estruturais que as mantém ligadas e submetidas a dominação das classes dominantes e sua passagem rápida e decidida (durante esse curto período) para idéias, perspectivas e organizações que defendessem a ruptura radical com essas antigas formas e a construção de uma sociedade nova.

Nesse curto período as massas expressavam uma grande confiança em suas próprias forças e nas organizações e partidos que representavam essa ruptura com as antigas formas e que tinham tido papel chave nesse processo de auto-esclarecimento do povo trabalhador.

Esse momento de profundíssima crise orgânica da hegemonia burguesa, culminação da crise orgânica que se abriu no inicio do processo revolucionário de fevereiro de 1917, em que as massas trabalhadoras rompem com as antigas formas de pensar e sentir legadas pelos séculos de opressão, em que há uma cisão entre a consciência de massas e os aparatos hegemônicos e organismos super-estruturais construídos pela classe dominante para garantir consentimento das classes subalternas à dominação, crise orgânica profunda que apontava à esquerda (posto que a crise orgânica pode se resolver e apontar à direita ou à esquerda) abria a possibilidade para uma atuação decidida do partido revolucionário, único capaz de organizar e dar um sentido, um programa e uma estratégia, para essa ruptura radical das massas trabalhadoras com a antiga ideologia que as tinha oprimido até ali.

Se abria assim a possibilidade de o partido revolucionário atuar de forma radical e decidida sobre essa ruptura de consciência das massas com os antigos organismo e aparatos para dirigir essa ruptura, que apesar de radical é por definição confusa e tateante, posto sua espontaneidade e inexperiência, para objetivos revolucionários. É esse momento de ruptura radical das massas com suas antigas formas de pensar e sentir, que apontam à esquerda, a “matéria prima” para a atuação decisiva do partido revolucionário, dando um sentido claro e concreto para essa explosão espontânea de rebeldia dos trabalhadores.

Contudo, esse momento de ruptura radical da consciência das massas com as antigas formas ideológicas e os organismos super-estruturais que as sustentam é por definição breve, fugaz. As massas vivem num mundo concreto, em que tem que reproduzir suas condições de vida, por miseráveis que sejam, de forma objetiva. Essas formas ideológicas e aparatos hegemônicos construídos pela classe dominante representam e são expressão ideal de uma determinada forma concreta e objetiva de reprodução material das condições de vida das classes subalternas, mesmo que em condições de exploração e opressão. Se o partido revolucionário não aproveita o momento propício para romper com as antigas formas ideológicas e principalmente para propor novas formas objetivas de reprodução das condições materiais da vida as massas tendem a voltar a aceitar as antigas formas de dominação, sentindo uma profunda desilusão em relação à direção que não soube aproveitar esse seu momento de profunda efervescência.

Se o partido revolucionário deixa passar esse momento particularmente propício para sua atuação a desilusão das massas, sua volta a condição de passividade, tende a se manifestar de 3 maneiras: 1) seus setores mais decididos e combativos tendem a tentar continuar a luta por fora da correlação de forças real, exasperados e frustrados pelo que vêem como uma traição, explosões espontâneas, semi-insureições podem surgir daí, mas que tendem a ser derrotadas sem uma direção capaz de coordenar e dirigir esses processo de luta; 2) o setor mais passivo, que tendo se colocado em movimento por fruto da grande comoção social e da força que ela gera tende a voltar e muitas vezes a aprofundar a passividade anterior; 3) o setor mais reacionário das massas, ou algumas vezes inclusive seu setor antes mais combativo, mas sem muita clareza política, pode se voltar a formas fascistas militantes de resposta a crise social, tanto pelo sentimento de traição em relação a direção revolucionária, quanto por sentirem que são os fascistas os setores realmente audazes na busca por uma resposta. Será a interação algébrica entre esses 3 fatores que decidirá o rumo do processo em caso de falha da direção revolucionária.

Lenin, no entanto, quer mostrar que se abria um período em que era possível a tomada do poder, contra as vacilações existentes no comitê central do partido bolchevique, e toda sua febril produção no período entre o meio de setembro e a insurreição de outubro terá esse objetivo.

O QUE GARANTE A LEGITIMIDADE DO MOVIMENTO PELA TOMADA DO PODER?

A partir do momento que Lenin levanta o debate sobre a necessidade de que os bolcheviques se preparem para tomar o poder se iniciará intenso debate na direção do partido sobre as formas de garantir a legitimidade da tomada do poder pelo partido. O que queremos dizer aqui sobre as formas de garantir a legitimidade da tomada do poder pelos bolcheviques?

Um momento de insurreição é um momento de profunda e radical ruptura com as formas de interação e relação social tal qual tinham se constituído anteriormente. Todas as instituições e organismos que garantiam a coesão social até ali são rompidos e superados e substituídos por novos. É um momento de particularíssima instabilidade social, portanto, pois os antigos aparatos hegemônicos que organizavam as relações sociais perdem sua capacidade de representar esse papel e os novos ainda tem que construir e ganhar a confiança dos amplos setores da população para as novas instituições que se formam. A legitimidade aqui é portanto a capacidade desses aparatos hegemônicos e organismos superestruturais de se fazerem reconhecer pelas massas como novos órgãos de poder, formas de organização das relações sociais.

No momento da insurreição essa questão está ligada a capacidade de as formas escolhidas pelos revolucionários para organizar a tomada do poder garantirem: 1) o consentimento ativo e não só, o entusiasmo popular, dos setores que apóiam a revolução para o movimento de ruptura com o antigo aparato institucional e a construção de um novo; é necessário que esse movimento pela tomada do poder apareça claramente para esses setores não como algo “artificial”, não como uma imposição de um pequeno grupo, mas como expressão necessária do desenvolvimento do processo revolucionário até ali, como necessidade inescapável da luta dos oprimidos, como movimento que apesar de dirigido de forma consciente e planejada por um setor de vanguarda, representa os interesses do conjunto dos oprimidos em sua luta por emancipação; 2) o movimento tem que ser capaz de dividir os setores mais vacilantes, conseguindo a simpatia, mesmo que passiva, de uma parte importante desses setores e a neutralidade, pelo menos, dos setores menos ativos; 3) ser capaz de garantir o menor apoio possível aos setores irremediavelmente reacionários, que organizarão a resistência à insurreição.

Na revolução russa de 1917 essa problemática se expressava na necessidade de garantir o apoio do maior número de regimentos possíveis à tomada do poder e tentar fazer com que o menor número possível passasse para o lado da contra-revolução.

As formas “técnicas”, organizativas, que assumirá a tomada do poder (por exemplo, se a tomada do poder se dará sob a cobertura de organismos de frente única como os sovietes, os sindicatos, comitês de fábrica, ou através da ação unilateral do partido, etc) deve partir dessas preocupações.

No entanto, o que Lenin irá combater dentro da direção do partido bolchevique é a existência em qualquer fetiche das formas organizativas que deve assumir a insurreição. Se é evidente que ligar a tomada do poder a decisão democrática de organismos de frente única, como os sovietes, dá grande legitimidade ao movimento de ruptura e tomada do poder, esperar de forma passiva a possibilidade de que essa decisão seja tomada democraticamente pode ser igual a trair o processo revolucionário num momento de tensões e contradições tão agudas.

O que garante a legitimidade, nesse sentido, à insurreição é sua capacidade de de forma aguda, audaz, ativa, expressar em ação as esperanças e desejos dos setores mais resolutos e combativos das massas, gerar o entusiasmo e consentimento ativo desses setores a esse movimento, garantir a passividade dos vacilantes e isolar os reacionários. A insurreição se legitima, assim, não pelo metro dos votos e da “legalidade” mas por sua capacidade de ser expressão subjetiva, ativa, das contradições objetivas que chegaram a um grau insustentável dentro das antigas relações.

A partir da metade de setembro de 1917, portanto, Lenin defenderá contra os setores da direção do partido bolchevique (inclusive Trotsky) que ligavam a tomada do poder ao congresso dos sovietes, a ser realizado em breve, a necessidade de uma ação unilateral do partido bolchevique, que a partir dessa ação audaz tomasse o poder e a partir disso transferisse todo o poder aos sovietes. Dizia Lenin que a partir de um levante coordenado nas duas capitais (onde os bolcheviques gozavam de ampla maioria) e da frota do Báltico da marinha (também sob forte influência dos bolcheviques) seria possível aos revolucionários tomar e sustentar o poder.

Tanto a radicalização das contradições internas quanto o começo do aprofundamento da luta de classes a nível internacional (revoltas contra a guerra na maioria dos países, principalmente na Alemanha) mostravam a Lenin que a ‘Situação Amadureceu’ (título de uma de suas cartas ao comitê central do partido bolchevique) e que era necessário organizar desde já a tomada do poder, que qualquer espera poderia significar uma traição da revolução.

Os bolcheviques poderiam tomar o poder de forma unilateral pois sua ação representaria os interesses de todos os setores oprimidos e explorados da população russa; garantido terra aos camponeses, negociando uma paz em separado com os alemães, lutando pelo controle operário da produção e distribuição dos alimentos, os bolcheviques garantiriam o apoio popular e a legitimidade para sua ação. Apesar de formalmente a insurreição tal qual o plano traçado por Lenin ser a ação unilateral de um partido, não corroborada, por exemplo, por uma decisão democrática de um novo congresso dos sovietes (o congresso nacional dos sovietes ainda estava nas mãos de mencheviques e SRs, posto que desde setembro não haviam ainda novas eleições para seus organismos dirigentes, um novo congresso estava marcado pra outubro) ela apareceria como representando os interesses gerais das massas oprimidas pois era expressão mais concreta do movimento real, objetivo, do processo revolucionário.

Era uma ação necessária também, e esse talvez seja o ponto principal para Lenin, porque esperar o congresso dos sovietes, por exemplo, poderia significar deixar passar a situação particularmente propícia e fazer com que os setores mais combativos se desiludissem com a direção bolchevique, os setores passivos se reforçassem e os reacionários saíssem de seu isolamento.

Numa situação de crise revolucionária os tempos políticos se medem em meses, dias, talvez horas e não em anos como nas situações normais. Esperar, protelar, pode significar a derrota. A luta contra a demora e as vacilações (reais e supostas) será a luta central de Lenin em todo esse período da metade de setembro até 25 de outubro de 1917.

TROTSKY E A LIGAÇÃO DA TOMADA DO PODER A “LEGALIDADE SOVIÉTICA”; DEFENSIVA TÁTICA E OFENSIVA ESTRATÉGICA

Lenin, no entanto, não poderá participar da organização prática e concreta da insurreição e tomada do poder. A partir das jornadas de julho e da onda reacionária que se levantou logo após, sua prisão havia sido decretada e Lenin teve que se esconder, primeiramente na Finlândia e posteriormente junto aos operários do bairro de Viborg.

A organização prática da insurreição, as formas concretas da tomada do poder, foram dirigidas a partir disso por Trotsky. Será ele que assumirá a presidência do soviete de Petrogrado a partir do momento que os bolcheviques ganham a maioria no organismo, ele dirigirá o comitê militar que se formará no começo de outubro pra defender o soviete contra as manobras do governo de Kerensky.

Para entender as formas táticas que assumiu o movimento estratégico da tomada do poder é necessário entender o contexto histórico em que elas se deram: a partir do momento em que assumem a maioria nos sovietes de ambas as capitais os bolcheviques vêem a necessidade da convocação de um congresso pan-russo dos sovietes, dado que esses, cuja última reunião tinha acontecido a alguns meses, ainda estavam sob a direção de mencheviques e socialistas revolucionários de direita (o partido SR tinha se dividido em uma ala esquerda e direita). O congresso de toda Rússia dos sovietes era necessário pois sua direção anterior não mais refletia o estado de animo das massas, que tinha caminhado à esquerda no último período.

O governo provisório, nesse momento, sentindo essa mudança no estado de animo das massas e vendo as possibilidades de uma insurreição dirigida pelos bolcheviques o derrube do poder, passa a tomar medidas para se proteger e diminuir a influencia dos bolcheviques sobre as tropas estacionadas em Petrogrado. As tropas que se mantinham na capital tendiam a apoiar os bolcheviques, posto a influência das massas trabalhadoras da capital sobre seus contingentes e a própria propaganda e agitação dos bolcheviques dentro das tropas.

As tropas no front, no entanto, tendiam a um maior apoio ao governo provisório de Kerensky, posto não estarem sob influência de trabalhadores revolucionários e a menor agitação de idéias revolucionárias no front. O movimento que tenta fazer Kerensky, nesse ínterim, é trocar as tropas estacionadas em Petrogrado pelas tropas que estavam no front de batalha, substituindo tropas leais aos sovietes e a revolução por tropas leais ao governo provisório. Outra possibilidade para o governo provisório, ainda mais radicalmente reacionária, seria negociar com os alemães, os inimigos da Rússia na guerra imperialista, o abandono da capital revolucionária pelas tropas russas e que o exército alemão pudesse reprimir qualquer possibilidade de revolução.

Será a partir desse contexto e nessa situação objetiva no ‘’teatro de operações’’ que Trotsky formulará seu plano de batalha para a insurreição. O plano de Trotsky, particularmente hábil, será ligar a tomada do poder a defesa da capital revolucionária e do congresso dos sovietes, mostrando que o governo provisório buscava impedir a realização do congresso e ao mesmo tempo reprimir a revolução. Para isso Trotsky em cada um dos regimentos leais (ou mesmo os vacilantes) a revolução e aos sovietes, na sua figura de presidente do soviete de Petrogrado e dirigente de seu comitê militar (recém formado no começo de outubro, como organismo militar do soviete para a defesa da capital) defenderá a necessidade de que esses se mantivessem fieis as ordens do soviete e rompessem com as ordens do governo provisório no caso de esse tentar tirar as tropas da capital e mandá-las para o front, substituindo as tropas leais à revolução por tropas leais ao governo.

O plano de batalha formulado porTrotsky será particularmente hábil pois: 1) ligava a tomada do poder pelos bolcheviques a “legalidade soviética”, ou seja, fazia com que esse movimento do partido aparecesse não como uma medida unilateral de um partido se impondo sobre todos os outros, mas como um movimento do soviete de conjunto, um movimento em frente única. Ligar a tomada do poder a legalidade soviética era particularmente interessante pois num momento insurrecional, momento por definição de profunda crise orgânica, em que as massas não reconhecem de forma mecânica e direta nenhuma direção como imediatamente legitima, a divisão e contestação da ação de um setor pode diminuir sua capacidade de criar entusiasmo e consentimento ativo à tomada do poder entre os setores mais ativos, aumentar a passividade dos setores médios e também aumentar o apoio aos setores reacionários e contra-revolucionários.

Que a tomada do poder se dê com o menor atrito possível entre os setores que se reivindicam revolucionários, seja vista com a máxima legitimidade pelos setores revolucionários das massas, encontre os maiores meios possíveis de aparecer como medida tomada pelas massas revolucionárias de conjunto e não por um setor de forma unilateral é algo que tende a garantir ao movimento de ruptura radical que é o momento da insurreição, por definição momento de máxima instabilidade política e social, a maior legitimidade e capacidade de exercício de hegemonia possível.

Ligar a tomada do poder a “legalidade soviética” dava ao movimento tomado pelos bolcheviques a “aura” de legitimidade que garantia um movimento tomado por dentro do organismo reconhecido por amplos setores das massas como seu organismo, como organismo que representava não esse ou aquele partido e os trabalhadores ligados a ele, mas todos os trabalhadores e oprimidos da Rússia.

2) Além disso, Trotsky fez do movimento estratégico ofensivo da tomada do poder um movimento tático defensivo para defender tanto a capital revolucionária quanto a possibilidade da reunião do congresso dos sovietes. Fazer do movimento estratégico ofensivo um movimento tático defensivo é um dos princípios básicos no campo de batalha, que tende a fortalecer e muito o exército que realiza com êxito tal movimento. Isso porque liga a ofensiva estratégica, aquela que visa a destruir a capacidade de resistência organizada do inimigo a defesa de uma posição no campo de batalha, a defesa sendo a forma por excelência mais forte que pode assumir o combate para um exército.

Ao defender que as tropas fieis aos sovietes na capital rompessem com o governo provisório no caso de esse buscar substituí-las por tropas reacionárias localizadas no front, Trotsky fazia com que a posição dos sovietes frente ao governo provisório para a tomada do poder deixasse de ser uma posição de ataque contra o governo para ser uma posição de defesa da revolução e da convocação, vista como legitima por amplas massas, do congresso daquele organismo. Seria o governo que teria que atacar para impedir a realização do congresso e para retirar as tropas revolucionárias de Petrogrado, enquanto o soviete poderia aparecer como organismo que toma uma posição não ofensiva, mas defensiva.

3) Essa posição defensiva dos sovietes em relação ao governo provisório fazia também com que a ruptura das tropas vacilantes com o governo provisório fosse mais fácil, profunda e com menores atritos, pois era o governo provisório que aparecia como aquele que rompia com o equilíbrio anterior entre os poderes que tinha se estabelecido desde a revolução de fevereiro, e portanto aquele que tinha que arcar com o ônus político de romper esse equilíbrio.

Para os setores vacilantes nas massas e nas tropas, que viam a revolução de fevereiro ainda como sua revolução o ataque do governo provisório aos sovietes aparecia como um ataque a revolução de fevereiro e uma ruptura com o equilíbrio e dualidade de poderes que tinha se estabelecido. O soviete, pelo contrário, aparecia como um defensor da revolução, mesmo para setores mais vacilantes, a insurreição e tomada do poder se expressando não como uma ruptura do antigo equilíbrio e contra a revolução de fevereiro, mas como seu “complemento”, como algo necessário para defender e aprofundar as conquistas da revolução.

Esse hábil plano operacional para a tomada do poder garantirá a Trotsky posteriormente um profundo reconhecimento, mesmo por adversários, de sua habilidade como estratega e sua maestria na arte da insurreição.

CONTUDO, TROTSKY NÃO FEZ DA LIGAÇÃO ENTRE INSURREIÇÃO E LEGALIDADE SOVIÉTICA UM PRINCÍPIO, MAS UMA QUESTÃO TÁTICA

Alguns poderiam questionar a partir daqui: não existe uma diferença entre as forma de organização da insurreição tal qual propostas por Lenin e aquelas que foram efetivamente realizadas por Trotsky? Pois não foi Lenin quem propôs a organização imediata da insurreição a partir de meados de setembro, mesmo que isso se desse através de uma ação unilateral do partido bolchevique, combatendo qualquer fetiche que ligasse necessariamente a tomada do poder a uma decisão do congresso dos sovietes? Trotsky não fomulou seu plano operacional para a tomada do poder ligando ela ao congresso?

Certamente existe uma diferença, mas entender sua profundidade é essencial para entendermos qual a relação entre o pensamento desses dois grandes estrategas do proletariado.Historiadores stalinistas, por exemplo, tentarão fazer dessa diferença tática uma diferença de princípios entre Lenin e Trotsky, como se o segundo tivesse vacilado frente a necessidade da tomada do poder, contrariando os fatos históricos.

A questão colocada da forma correta, no entanto, é: se Trotsky tivesse ligado como uma necessidade, como um princípio, a insurreição ao congresso dos sovietes realmente haveria uma diferença profunda entre os dois revolucionários, pois uma das lutas centrais de Lenin no período será contra qualquer fetiche organizativo na forma que deveria assumir a insurreição e tomada do poder. A questão é que Trotsky não ligou em momento algum a tomada do poder e o congresso dos sovietes como uma necessidade ou princípio. Essa ligação para Trotsky foi algo tático, contingente, fruto de uma situação concreta, que fazia com que essa ligação aparecesse como particularmente vantajosa, mas de forma alguma ela era um princípio, como se a tomada do poder só pudesse ser realizada a partir da corroboração do congresso.

Assim, as diferenças sobre as formas através das quais deveria ser organizada a tomada do poder entre os dois revolucionários são diferenças táticas, parciais, muito legitimas de existirem entre dois grandes revolucionários que viam a mesma situação de pontos de vista distintos (um num semi-exílio, afastado da organização prática imediata e tentando combater as pressões à vacilação que efetivamente existiam no CC do partido bolchevique, Lenin, e o outro a partir da posição prática de organizar efetivamente a insurreição, Trotsky) e nem de longe diferenças de princípio ou estratégicas.

Ambas as formas táticas tinham vantagens e inconvenientes, como qualquer movimento concreto no campo de batalhas. A tática proposta por Lenin tinha a grande vantagem de não permitir qualquer desperdício de tempo, sendo esse fator, o tempo, matéria prima central na guerra, assim como na insurreição. Tomando uma ação rápida e decidida, mesmo que unilateral, o partido bolchevique podia se aproveitar do elemento surpresa frente ao inimigo (que com a aproximação do congresso dos sovietes foi tomando medidas defensivas) e da conseqüente desorganização e desorientação no seu campo. Sua grande debilidade é que a ação unilateral de um partido certamente seria utilizada pelos adversários e inimigos para deslegitimar a insurreição e caracterizá-la não como insurreição de todo o povo, mas como insurreição apenas dos bolcheviques, o que poderia enfraquecer a capacidade do partido de exercer hegemonia sobre amplos setores. Lenin combatia esse elemento negativo do movimento tático tal qual proposto por ele com as medidas que defenderia a revolução vitoriosa, paz , terra aos camponeses e controle operário da produção e distribuição, o que tenderia a garantir apoio mesmo dos setores vacilantes.

A grande vantagem da forma organizativa formulada concretamente por Trotsky foi que ela garantiu amplo apoio imediato à insurreição ao ligá-la a legalidade soviética e realizá-la como movimento taticamente defensivo, mas estrategicamente ofensivo. Seu grande risco foi que para organizar a insurreição dessa maneira concreta foi necessário protelar a tomada do poder por quase 1 mês, o que no momento revolucionário pode significar a derrota numa situação não tão propícia e com uma direção não tão hábil e decidida quanto a de Trotsky.

Entender a diferença tática e contingente, e não estratégica e de princípio, das formas organizativas para a tomada do poder entre os dois revolucionários é fundamental para que não se produza um fetiche da forma concreta que assumiu a tomada do poder em Petrogrado sob a direção de Trotsky, fetiche que o revolucionário sempre combateu, posto que a situação concreta em que se deu a insurreição na capital russa não irá se repetir.

Aprender com as grandes batalhas do proletariado exige essa visão crítica sobre elas. O autor dessas linhas espera que essa tenha sido uma pequena contribuição a esse estudo.




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