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AMEAÇA RACISTA

As pichações de ameaças racistas na Unicamp precisam ser rechaçadas com a organização dos estudantes

Na última quarta-feira, 15, a Unicamp se deparou com uma nova série de pixações racistas, pregando a supremacia branca (White Power), com símbolo nazista e ameaça fazendo menção ao massacre de Columbine, em algumas bibliotecas e prédios. Essas declarações e ameaças são inteiramente repudiáveis pelos conteúdos que trazem, e se atrelam ao maior espaço para figuras como Bolsonaro e Daciolo, mas centralmente ao cenário de maior autoritarismo do Estado, que quanto mais se aproxima de outubro, dá maiores provas da tutela judicial sobre as eleições, impedindo o direito do povo decidir em quem votar.

Ítalo Gimenes

Campinas

quinta-feira 16 de agosto| Edição do dia

Nesta quarta, 15, foi publicado um comunicado institucional e as aulas foram canceladas após a biblioteca Antônio Cândido do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp sofrer um ataque com pichações de conteúdo racista, nazista e de referência ao massacre ocorrido em Columbine-EUA. Pixações com mesmo conteúdo também foram encontradas em outros Institutos.

Na segunda-feira dessa semana, cartazes de uma campanha em defesa da legalização do aborto impulsionada pelo grupo de mulheres Pão e Rosas também foram alvo de ataques da direita, que colou outros por cima chamando de “feminazismo” a campanha pela vida das mulheres.

Esse conjunto de demonstrações absurdas de pessoas e grupos de ultra-direita na universidade, que mostram claramente que querem uma Unicamp mais restrita e racista, estão diretamente associadas ao cenário político em que o conjunto da população vê de maior decomposição do regime democrático capitalista, que abriu espaço para que ideias radicais, tanto pela esquerda quanto pela direita, se expressem via figuras pró-ditadura e racistas como Bolsonaro e fundamentalistas como Daciolo.

Para além dessas figuras aberrantes, o que dá verdadeiro caldo reacionário e autoritário para esse tipo de manifestações é o avanço sobre o direito elementar do sufrágio universal, de modo que distintas instâncias do Judiciário brasileiro, desde Moro, o MPF, até o TSE e o STF, estão fazendo uso de métodos arbitrários para decidir quem a população tem ou não direito de votar quando prendem Lula, o candidato com maior intenção de votos.

Tudo isso para garantir que nessas eleições presidenciais se eleja um candidato comprometido em continuar o governo Temer, legitimar o golpe, e terminar de aprofundar os ataques à juventude, aos trabalhadores e aos negros que o PT iniciou, em especial no segundo mandato de Dilma. Não é preciso defender politicamente Lula ou o PT, que não merecem o voto de confiança que a maior parte da população lhes dedica, para entender que esse tipo de ação autoritária do Estado são uma ameaça aos nossos poucos direitos democráticos e as nossas condições de vida, tal como se expressou com o assassinato de Marielle Franco. Esse cenário político é o trampolim para que as ideias mais reacionárias sintam-se livres para se manifestar, tais como as que temos hoje também na universidade.

A reitoria da Unicamp, gerida por Marcelo Knobel, é diretamente conivente com esse tipo de ideia dentro da universidade, quando, após a aprovação das cotas, ela passou um pano para as afirmações racistas do professor Palma, que afirmou estarmos “trocando cérebros por bundas”, enquanto a reitoria punia e perseguia estudantes negros que lutaram na greve de 2016.

Não é a primeira vez que esse tipo de manifestação abertamente racista aparece na Unicamp. Em 2016, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, símbolos e motes White Power (de inspiração nazista) geraram revolta nos estudantes, que responderam com intervenções visuais (poster bomber) no instituto e uma série de espaços de discussão e auto-organização dos estudantes. Essa auto-organização, com base em assembleias e comandos de mobilização, em resposta ofensiva a essas ameaças e ao golpe institucional que havia se consolidado na mesma época, antecedeu a histórica greve estudantil de 2016, que arrancou da reitoria as cotas étnico raciais.

É nesse sentido que os estudantes da Unicamp precisam encarar essas ameaças. Para além do medo natural que gera, e que é tudo o que esses reacionários e conservadores querem nos fazer sentir, temos que batalhar para fortalecer os espaços de auto-organização estudantil, e não saídas ainda mais reacionárias e ótimas para a reitoria como seria a entrada da polícia no campus, ou mais vigilância. Polícia não traria maior segurança aos estudantes e as mulheres vítimas de assédio. Exemplo disso é a recente arbitrariedade da PM dentro da USP que prendeu estudantes por colarem cartazes pela legalização do aborto.

Por isso, nós da Faísca e do grupo de mulheres Pão e Rosas, fazemos um chamado às entidades representativas (DCE, Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp e Adunicamp) e a todos estudantes e trabalhadores para repudiar essa ação, não deixando apenas nas mãos da reitoria e da polícia a investigação e a resposta a esse caso, tendo uma investigação independente e batalhando para que atitudes e ideias como essa não mais se repita dentro e fora da Unicamp.




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