Cultura

POESIA CONTEMPORÂNEA

As mulheres que vivem em vulcões, de Rita Isadora Pessoa

Coluna sobre poesia contemporânea sendo produzida hoje, agora, todos os dias, em cada canto. Hoje: a poesia de Rita Isadora Pessoa.

Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle

segunda-feira 22 de janeiro| Edição do dia

Posso nunca ver pessoalmente Rita e mesmo assim conseguirei invocar seu olhar em minha memória sempre que quiser porque ela traz um olhar tão forte que marca e que me segue aonde eu for. Descrevo esse olhar de Rita porque ele parece estar em toda a sua obra, um olhar de força de quem já enfrentou a tormenta e sabe que terá que enfrentá-la de novo e de novo.

A vida nos vulcões foi lançado pela editora oito e meio em 2016. Dividido em três partes parece querer traçar o início disso que se chama mulher, sem tratar a mulher como algo universal, passando por passados longínquos até chegar a nós - ou não. Onde estão hoje essas mulheres do passado? Como viviam essas mulheres em tempos em que não se pensava tão intensamente existência da mulher oprimida e explorada, mulheres que foram queimadas como bruxas, violadas cotidianamente em sua própria casa, sem direito ao voto, a aprender ler e escrever? Como vive hoje o ser mulher?

Sibéria

A primeira parte intitulada Sibéria traz poemas marítimos, salgados, tem um peso abissal, traz um mar com sua funduras, seu terreno rochoso com defeitos sísmicos.

...como réptil que abdicou da
habilidade aquática

Os poemas de Sibéria também trazem os seres que vivem nesses mares, que guardam em si todo o passado desde a formação do planeta; as primeiras mulheres - ou o que viria a ser o que conhecemos por mulheres, criaturas que abdicaram da sua habilidade aquática -, sereias, peixes, águas marinhas, os répteis na praia, e as aves que o sobrevoam.

Essa primeira parte já mostra a poesia de Rita, uma poesia bem trabalhada, lapidada até a delicia de seu núcleo quente, como o da terra sobre o qual estão os mares, Sibéria, China, as mulheres, e toda a vida. Uma poesia arrebatadora, que se constrói cuidadosamente na criação de imagens.

sobre eventos adâmicos

cansei de fissuras
e capilares intradérmicos
: essa existência
de apêndice
içado
no coração do mundo
não alcança a antimusa
verídica
que se equilibra invertida
no avesso de meus passos.

é que eu
quase não sinto.

essa costela
que você tão generoso
retirou

do teu tórax cerimonioso
para esculpir um quadril
que violasse as regras
dos homens e do fogo.

é que eu quase não sinto
o amor -
teu arco, teu movimento
solar
no meu ventre tão recente;

o amor
que eu quase não sinto
elevar no sobrevoo plano,
e
u
q u a s e,

eu quase não sinto.

China

A segunda parte intitulada China carrega uma intertextualidade muito forte com a astrologia chinesa num estudo sério da astrologia pra além da moda que é emitir opiniões vazias como "tal signo não serve pra namorar" ou algo semelhante.

Outra novidade que aparecerá, em comparação com a parte anterior é um eu lírico, que irá Dakar diretamente com um interlocutor trazendo ele também para o poema em si.

“suas palavras
me arranham as gengivas

são palavras engolidas às pressas
me laceram a boca”

China é um retorno ao ser mulher no início dos tempos. Um retorno cronológico ou uma invocação a essas mulheres; mulheres abissais, bruxas, ciganas, mulheres histórias, figuras femininas mitológicas ou lendárias.

É preciso dizer que talvez não seja uma simples coincidência - com certeza não é - duas das três partes do livro serem nomeadas por lugares ligados de alguma forma a deformação do socialismo (sob a estratégia de Stalin); Sibéria o local pra onde eram mandados qualquer um que discordasse da estratégia stalinista, onde se localizavam os gulags, e China, o país socialista que sob a mão de Mao Tse Tung veio a se tornar uma ditadura e o país que importa sua mãe semi-escrava e seus suicídios cotidianos nos locais de trabalho para produzir celulares com custos de fabrica de 10 dólares para serem comercializados por mais de mil dólares em suas lojas chiques em shoppings e na quinta avenida.

gauloises

você tem eloquência
de um jovem hemingway
enunciando a diferença
entre os suicídios covardes
e os suicídios verdadeiros

escarra póstumo
uma semelhança
com h. ledger vermelho:
os braços apertados
na camisa de iansã,
um verdadeiro arqueiro.

você me oferece cigarros
e, diante da negativa,
explicou que eram
os cigarros de sartre,
camus e bogart

sei que farejou em mim
um bafejo acre
de curiosidade

e me entregou um

“eu fumo o resto
se você achar
muito forte”

mas eu
nunca
aprendi
a manejar
um isqueiro,
eu disse,
parecendo
mais inapta
do que
de fato era

me ensinou então
a tragar como se
eu tivesse catorze
e não vinte e oito anos

e de repente
falou de chagall,
picasso
e modigliani, como se
os conhecesse
-  aquela familiaridade
que alguns personagens
nos ofertam
quando são mais reais
do que eles, do que nós mesmos

e eu
eu tinha
ossos grandes
e desajeitados,
varetas de i ching
me encorajando
a atravessar a grande água,
um cigarro na boca
queimando mais rápido
do que eu previa

eu tinha catorze
e não vite e oito,
um cigarro
queimando na boca
mais rápido
do que eu previa

A vida nos vulcões

A terceira e uma parte, que também da título ao livro, questiona onde foram parar essas mulheres invocaras durante China, em que espaço elas foram aprisionadas, quais espaços em que elas foram vetadas, e o que ainda resta ou deveria restar dessas mulheres em nós.

“Paga-se um preço pela serenidade doméstica”

Nessa parte também parece ser revelado quem é o outro, o interlocutor a quem o eu lírico falava, ou talvez não seja nada disso e aqui estejam outros completamente diferentes. Um outro que é o fogo, o pássaro que se bate contra o telhado, e/ou o rato que se mata com apenas um golpe.

sereia blooming blues

porque é preciso
exercitar a violência
que só uma ideia incorpórea
imprime
ao corpo
-  ricochete que vai de trás
para frente
em mar aberto, ferida
que espuma pela boca, sal
e gritos e gritos e gritos

no fundo, a vida depende
da coragem de arrancar
um sorriso tímido dos astros
com um pé de cabra
investigando a malha beligerante
na marra:
qual era mesmo o teu formato?
qual a velocidade com que
crescem os ossos?
onde ficou aquela que partiu
antes, antes de todos?

[que partam todos os raios
que partam todos
e que ainda assim eu fique
que eu fique - só e inteiriça
que seja pernas ou rabo ou nado
inspire respire amém]

para descobrir tarde demais que
a coisa mais triste do mundo
é a pele

que a coisa mais triste do mundo
não deixa sequer cicatriz

A vida nos vulcões, uma vida que resiste, uma vida que nasce em um solo profundamente fértil, mas que vive à espera da próxima erupção que pode queimá-la ou vive na morte do seu lar, o vulcão, à espera de lagoas que de formarão.

Talvez nada do que eu diga se reflita de fato na obra, se trata da minha leitura, ou de fato seja um monte de besteiras. Mas o fato é que Rita Isadora Pessoa é uma poeta que lapida seus poemas até o resultado final trazendo uma obra bem preparada, sem descuidos e que, com toda a certeza, deve ser lida.




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