Gênero e sexualidade

PEPSICO

As garotas da sua classe

O apoio a luta da PepsiCo fala da solidariedade que desperta uma luta atual, mas também das lutas passadas que superaram o corporativismo sindical. O protagonismo das mulheres.

Celeste Murillo

Argentina | @rompe_teclas

terça-feira 25 de julho| Edição do dia

“A empresa tampouco via com bons olhos que as operárias realizassem medidas por Nenhuma a Menos, assim confirma iProfesional (portal de economia argentino voltado à empresários) que a preocupação da Pepsico excedeu um tema de custos trabalhistas. Ao que a empresa “não via bem” era que suas trabalhadoras exigissem igualdade de categorias, quisessem licenças quando seus filhos e filhas estivessem doentes e muito menos que participassem de movimentos políticos como o Nem Uma a Menos.

Uma das marcas registradas da luta contra o fechamento e as demissões na Pepsico é sem dúvida o amplo apoio conquistado. Como parte desse apoio, se destaca a solidariedade e identificação do movimento de mulheres com a resistência das Leoas. A consigna #NemUmaMenos associada a uma luta operária exemplar em meio a demissões e ajustes volta à pôr no centro a importância de uma aliança estratégica.

DNA

Em contraposição à passividade da CGT (central sindical argentina) e do Sindicato da Alimentação, a comissão interna da fábrica funcionou como organizadora da ação operária contra o ataque dos empresários. Longe de ser uma resposta espontânea, condensa a experiência desde o fim dos anos 1990 e particularmente uma “agenda” não corporativista que tomou e fez seu os problemas dos setores mais explorados e precarizados e dos 70% da planta da fábrica: as mulheres.

As condições específicas da participação das mulheres no trabalho não doméstico, (precarização e desigualdade) são as “vantagens” expressas pelas empresas, especialmente as alimentícias, que empregam majoritariamente mulheres. Isso, que podia ser um “destino fatal” para as operárias da Pepsico, se transformou em mudança de DNA constitutivo, delas, da sua comissão interna e da comissão de mulheres.

Obrigadas a trabalhar 12 horas para mostrar seu “esforço” para serem eficientes ou marginalizadas em uma gaiola (não metafóricas, reais) quando se acidentavam no trabalho, as operárias que não sabiam que tinham ART (Seguro de Acidente de Trabalho), que suportavam o assédio de chefes e supervisores (como em qualquer lugar de trabalho) e que escondiam que estavam grávidas, se transformaram em lutadoras da sua classe, em vozes do seu gênero.

Alianças

As comissões de mulheres são terreno de alianças por excelência, funcionam como elo entre o local de trabalho e a comunidade fora da fábrica ou empresa. Podem ser temporárias durante lutas ou greves e organizar as mulheres de “fora”, como a comissão de mulheres de LEAR e Donnelley (fábricas na Argentina majoritariamente e exclusivamente masculinas, respectivamente). Mas em consonância com a feminização da classe trabalhadora, cumprem um papel cada vez mais importante na organização das mulheres nos locais de trabalho, e não se limitam a “interesses setoriais”; potencializam a participação das trabalhadoras nas lutas e organizações da sua classe.

Nascidas no calor dos dias quentes de dezembro de 2001 e do processo de reorganização sindical conhecido como sindicalismo de base, as trabalhadoras da Pepsico estiveram na linha de frente para unir a luta das mulheres e à luta da classe trabalhadora. Acompanhadas pela agrupação Pão e Rosas e pelo PTS (Partido dos Trabalhadores Socialistas, organização irmã do MRT na Argentina), formaram sua comissão de mulheres.

Em uma entrevista de 2002, Katy Balaguer contou como impulsionaram, junto a Leo Norniella (falecido em 2015), ambos militantes do PTS, as primeiras atividades, o primeiro 8 de março na Pepsico. Não se tratava somente de um assunto de mulheres, era essencial para fortalecer a organização combativa da fábrica. “Eu pensava no que podíamos fazer e disse que seria bom fazer um boletim que explicasse por que é o dia da mulher (...) Custa muito organizar as companheiras na fábrica, está muito encarnado isso de que devem suportar, que tem que bancar tudo isso. Quando fizemos o boletim ele não chegava e não chegava e depois minha filha chegou com um pacote, como um presente e eu pensei: - Olha só se os seguranças suspeitassem que minha filha estava me trazendo uns boletins! (risos). Nos turnos seguintes, as garotas que estavam com a gente pegavam o boletim aos montes para distribuírem entre elas. Nós distribuíamos no banheiro”.

O grupo de mulheres Pão e Rosas levanta como uma de suas principais bandeiras, desde seu surgimento em 2003, a defesa dos direitos das mulheres trabalhadoras. Essa defesa não se limita a difusão e apoio a suas lutas, significa também a construção junto delas no âmbito da militância comum e impulsionar o debate no interior das organizações que também são de homens, como os sindicatos e as comissões internas. Katy participava, junto a outras operárias da Alimentação, dos Encontros Nacionais de Mulheres, difundindo as lutas que davam nas fabricas e contra a burocracia sindical. Essa experiência se expandiu para outras fábricas.

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Nem Uma Menos antes de Nem Uma Menos

Como parte dessa experiência comum, a Comissão de Mulheres da Pepsico realizou campanhas com temas sindicais como o acesso das mulheres à categoria de oficial médio (restrita aos homens) e também instalou a discussão na fábrica sobre o problema da violência que as trabalhadoras conheciam muito bem, inclusive antes do movimento de massas #NemUmaMenos.

Um exemplo dessa política se viu em 2010, quando junto a Comissão de Mulheres da Kraft Foods (que vinha do conflito de 2009 em torno da gripe A) e o Pão e Rosas, impulsionaram um corte da rodovia Panamericana com a consigna “Violência é trabalho terceirizado e precarizado”.

Atendendo o chamado os homens somaram-se na luta que afetava principalmente as mulheres. Em uma ação simbólica no dia de combate à violência contra a mulher, uniram a luta contra a violência machista com a luta contra a precarização do trabalho que também castiga fisicamente os corpos das mulheres e limita suas vidas.

Nessa época, as trabalhadoras da Kraft e sua comissão de mulheres (que reunia operárias e familiares de trabalhadores homens, unindo dentro e fora) mostraram a toda a fábrica uma resposta coletiva à violência machista. Em 2011, quando uma trabalhadora denunciou o assédio sexual de seu supervisor, o turno da noite completo paralisou a produção, com a exigência de que a trabalhadora não mais sofresse represálias e sanções do supervisor. “Os companheiros homens mostraram uma enorme sensibilidade, sendo os impulsionadores, junto com a comissão interna, desta medida de força, com as companheiras que expressavam indignação e raiva, mas também a decisão de deixar claro que isso não seria mais aceito. A ação não somente mostrou características classistas (defender aqueles que pertencem a nossa classe), mas também a potência da mobilização unificada de homens e mulheres na defesa das mulheres” (Comissão de Mulheres: Laboratórios de emancipação)

Nesses anos que aconteceram as jornadas a cada 25 de novembro (dia internacional de combate à violência contra a mulher), que se juntaram comissões de mulheres de outras fábricas da zona norte (zona industrial argentina), que acompanharam conflitos como os da gráfica Donnelley ou da automobilística Lear, ficaram experiências e conclusões e um fruto inesperado que colheriam no futuro.

Quando passar o Tremor

Desde o 3 de julho de 2015, as operárias da Pepsico disseram PRESENTE! Em seus locais de trabalho, nas mobilizações e Encontros Nacionais de Mulheres. No 19 de outubro de 2016, que trouxe a ideia de uma paralisação para dar visibilidade à violência machista, as trabalhadoras da Pepsico seriam protagonistas no 8 de março junto com seus companheiros com a paralisação da fábrica desde o primeiro turno.

O impulso da comissão interna por uma agenda não corporativista-sindical confirmou a “mensagem” de que não se tratava de um “problema das mulheres” e sim do conjunto da fábrica. Essa mensagem tinha e ainda tem dois interlocutores. De um lado, os homens que compartilham o mesmo local de trabalho e são testemunhas da discriminação e das humilhações que sofrem suas companheiras de trabalho. E de outro lado, é uma resposta prática às críticas (corretas) do movimento de mulheres e organizações feministas a indiferença dos sindicatos, incluídos os de maioria de mulheres como os de professores e da saúde.

O que a burocracia sindical com suas secretarias de gênero antiquadas critica incomodada, com debates acalorados sobre cotas para mulheres (que dificilmente cumprem) ou adesões simbólicas para as comissões internas combativas e relacionados a partidos de esquerda é uma política tanto vital e potencializadora. Vital porque fortalece a organização da classe trabalhadora e potencializadora porque ensaia, no local de trabalho, uma resposta coletiva da classe trabalhadora a um problema social (e não apenas corporativista-sindical).

Numa pequena escala, o começo da jornada da Paralisação Internacional de Mulheres no 8 de março passado com a paralisação das trabalhadoras e trabalhadores da Pepsico deixou uma mensagem clara: “Mulheres, tomem nossas palavras vendo nossas ações. Sua luta é nossa luta”. Essa mensagem, ampliada pela legitimidade que obteve a luta contra a violência machista, se transforma hoje em apoio, identificação e reconhecimento à luta das trabalhadoras e trabalhadores.




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