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As forças armadas de fato têm interesse no avanço do esporte ou usam atletas como propaganda ufanista?

Raphael Mouro

@mouro_77

terça-feira 16 de agosto| Edição do dia

Tem chamado atenção nas olímpiadas as ‘continências’ prestadas por atletas brasileiros/as medalhistas fazendo menção às forças armadas. Mas há de fato interesse e investimento na formação de base do esporte no Brasil?

Como apontamos aqui, enquanto na esmagadora maioria das escolas brasileiras seis em cada dez não têm sequer quadras esportivas – além de outros problemas estruturais como por exemplo a falta de professores de educação física devido ao salário de fome que recebe a categoria na rede pública – alguns destaques do atletismo brasileiro que conquistaram medalhas chamaram atenção pela reverência às forças armadas ‘batendo’ continência sempre que tocam hinos no pódio.

Esse gesto é devido à ligação de muitos atletas com as forças armadas que inclusive têm divulgado esta parte da delegação brasileira como integrantes com títulos militares, de soldados até terceiros-sargentos.

O plano oportunista usado pelo atual governo – e gestado no anterior de Lula e Dilma – para justificar o investimento, é parte do projeto ufanista de venderem o país como ‘uma potência olímpica’ que deveria se materializar em recorde de medalhas.

Neste projeto que só engloba atletas considerados de ponta, pouquíssimos têm uma formação integral nas escolas militares, pois a maioria foi ‘contratada’ a partir de editais já que o exército, a marinha e aeronáutica funcionam como instituições públicas para processos seletivos.

Destinaram investimento anual de R$ 15 milhões em salários somente para estes atletas (1/3 dos pouco mais de 450 do total dos brasileiros que estão nos jogos ) de alto rendimento dentro de um programa que envolve além das forças armadas e o ministério da defesa, o próprio Comitê Olímpico Brasileiro.

E estas instituições os vendem através da mídia tradicional como símbolo triunfalista fruto da disciplina militar brasileira escondendo que treinam e jogam por contrato e que, na verdade é ínfimo o investimento perto dos que sofrem com a falta de estrutura por todo o país. Da infância ao auge, todos querem melhores condições e bons salários para praticar e concorrer.

Porque sob as condições militares, às pressas e somente nos anos próximos às Olímpiadas?

Um dos fatos que comprovam a relação estritamente comercial, é o caso da principal medalhista brasileira na competição, Rafaela Silva, que conquistou ouro no judô enfrentando não só suas adversárias, mas uma longa historia de racismo, preconceitos e a miséria que o povo pobre passa na favela. Além de todas as opressões, Rafaela e assumidamente lésbica, ato que seria considerado crime dentro das leis militares.

Neste caso ficou claro a tentativa destas instituições aliados à grande mídia, de omitir todas a real trajetória, as características, contradições ‘espinhosas’ e preconceitos de um país racista e elitista, apenas vangloriando e vendendo o ‘ouro’ da atleta.

Por outro lado, sobre a questão da homossexualidade no cotidiano dos demais soldados, a regra continua tão restrita quanto reacionária como afirmou há alguns anos o próprio general Raymundo Cerqueira Filho – ex-presidente do Superior Tribunal Militar – que “não admite esse tipo de orientação. Até porque isso coloca dificuldades para a tropa obedecer um indivíduo com esses atributo”, baseado no Código Penal Militar criado em 1969

É totalmente compreensível que o atleta aceite patrocínios e melhores centros de treinamentos diante das condições precárias que se formaram; não faltam relatos dos que treinavam sem até mesmo alimentação básica, fruto da formação esportiva de base historicamente colocada em último plano na educação e na grade curricular brasileira por todos os governos que aqui passaram.

Porém não se resolve centenas de anos de não-investimento em quatro anos injetando milhões de reais para poucos e o oportunismo de instituições como o COB fica claro ao passo que apenas tomaram medidas paliativas – como quase toda a estruturação da Olimpíadas do Rio – datadas e não demonstram nenhum interesse de resolver a questão a fundo e estruturalmente.

Como bem alfinetou o treinador Marcos Goto, do medalhista Arthur Zanetti – também patrocinado como ‘terceiro-sargento’:
"Se fizessem um trabalho de base, eu tiraria o chapéu para eles. Agora apoiar atleta de alto nível é muito fácil. No dia em formarem crianças, apoiar a iniciação, apoiar treinador, aí eu tiro o chapéu. Pegar o atleta pronto é muito fácil.”

Vale repetir...somente 4 de cada 10 escolas no país têm quadras esportivas – considerando, inclusive, as esburacadas e sem condições das escolas nas periferias.




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