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ELEIÇÕES EUA

As eleições nos Estados Unidos são uma farsa

As explicações para a vitória de Trump inundaram a mídia. Interpretações à parte, seu triunfo é uma prova de como o sistema eleitoral é antidemocrático.

Juan Cruz Ferre

Left Voice, EUA

Tracy Young

Left Voice, EUA

quinta-feira 17 de novembro| Edição do dia

Foto: Getty

Reproduzimos este artigo publicado originalmente no Left Voice, parte da rede internacional do Esquerda Diário: US Elections Are a Sham

O fato é que eles não precisam de nós.

A ascensão de Trump ao mais alto cargo da Casa Branca deve ser um alerta estrondoso para todos nós. Enquanto escrevemos, ele e sua equipe fazem planos para uma exibição de pompa para satisfazer os brancos nacionalistas como Bannon e GOP (republicanos), pilares fundamentais de Prebius. Deste modo, os Tempos Áureos de Obama chegam a um final desastroso. Há poucos dias, tudo fazia crer em uma saída tranquila e festiva, complementada com vídeos divertidos do presidente de mãos dadas e passeando pelo jardim com Michelle Obama, a mais nova obsessão do feminismo liberal.

O triunfo de Trump retira o véu e deixa à vista uma democracia estadunidense governada pela classe dominante. O novo presidente eleito fecha ainda mais o estreito circuito da política estadunidense: os ricos governando para os ricos, um governo de nós para nós do 1% privilegiado que não precisa interagir com as massas para tomar decisões sobre como conduzir a sociedade.

A democracia ao estilo estadunidense sempre foi algo que produziu assombro e aversão. As eleições nunca foram democráticas.

Mas na manhã de 09 de novembro, os 76 por cento dos eleitores que não votaram em Trump acordaram em estado de choque. Os 76 por cento que preferiam andar pela cidade com uma plaquinha que dizia “bata na minha cara” em vez de andar com um broche de Trump em sua lapela, nós que só seriamos encontrados em uma reunião de Donald Trump se fosse para protestar e nos manifestar, que queremos do fundo de nossos corações sentenciar Trump a voltar ao inferno dos reality shows, nós nos perguntamos como diabos esse ser desprezível chegou à presidência?

Um ninho para os fanáticos

O trono de Trump é constituído com a retirada sistemática de votos, usurpando, principalmente, os direitos de votar dos pobres, trabalhadores, negros e imigrantes. As pessoas se esforçaram para driblar os horários complicados e ficaram de pé nas filas por horas. Essas filas eram muito mais longas em bairros pobres que em bairros ricos. Vale a pena lembrar, também, que as eleições ocorreram em uma terça-feira, um dia normal de trabalho, em contraste com outros países no mundo onde as eleições ocorrem em um domingo ou em um feriado nacional. As pessoas precisam fingir estar gripadas ou dizer que um parente morreu, aparecer mais tarde no trabalho ou sair mais cedo, sacrificando parte de seus salários nas eleições.

Nessas eleições, havia 868 locais de votação a menos com relação a 2013, quando Shelby v. Holder riscou a Seção 4b da Lei dos Direitos de Voto de 1965, que antes obrigava os estados a aderirem às exigências federais com relação às práticas de votação no dia das eleições. Dentre outras coisas, a Suprema Corte permitiu que os Republicanos na Carolina do Norte estabelecessem restrições no voto antecipado, que segundo eles era, em termos claramente racistas, “desproporcionalmente negros” e “desproporcionalmente democráticos”.

Mais de 6 milhões de pessoas, desproporcionalmente negras e não brancas, não podem votar por conta de uma condenação criminal, e por volta de 11 milhões de imigrantes sem documentos são impedidos de qualquer possibilidade de voto.

À medida que as barreiras para votar se multiplicam para os pobres e oprimidos, o capital ganhou uma influência sem limites sobre as eleições. A Citizens United que governava em 2010 abriu caminho para que os SuperPACs se formassem e para que milhões de dólares chegassem aos candidatos a partir de doadores desconhecidos. Mais recentemente, a Suprema Corte eliminou as restrições sobre as contribuições de pessoas físicas a candidatos federais e comitês de partidos políticos.

E há também o Colégio Eleitoral. Desde que os Pais Fundadores (Founding Fathers) deram à luz a essa estranha criatura (refere-se à fundação nos E.U.A.) em 1787, não houve sequer uma explicação satisfatória para este artigo político antidemocrático. Tanto os Republicanos como os Democratas são rápidos para se queixarem sobre o Colégio Eleitoral, mas nunca levantam um dedo para se opor a ele.

Quanto mais confusas são as regras e mais entrelaçadas as cordas da democracia, melhor. A fachada da democracia continua intacta e, ao mesmo tempo, o desejo da maioria conta muito pouco.

Não é o meu presidente

Sem sombra de dúvidas, presenciamos uma guinada à direita na política em nível nacional. Fica claro que uma grande parte da (quase que totalmente branca) classe média e trabalhadora votou em Trump, comprando (ou pelo menos engolindo) seu discurso racista, misógino, antimuçulmano e anti-imigrante. A persistente crise econômica e a longa retirada da luta de classe causaram graves efeitos na possibilidade de solidariedade entre os trabalhadores.

Mas a mesma retórica reacionária da extrema direita que apoia e consolida Trump, também forma maioria contra ele. Caso ele se mantenha fiel às propostas feitas durante a campanha, é certo que encontrará uma resistência massiva – como os inúmeros protestos na semana passada já previram. Aqueles que já começaram a organizar uma resistência contra o Presidente Trump já expressaram com clareza: Ele não é o meu presidente.

Nas semanas e meses que estão por vir, podemos deixar para trás os Republicanos e os Democratas – que cruzam os braços em um cínico jogo de uma democracia encenada – e levar toda nossa resistência às ruas.

Tradução: Eduardo Prachedes




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