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As doenças emergentes do capitalismo decadente

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 30 de abril| Edição do dia

A relação mediada pelo lucro entre a sociedade capitalista e a natureza, devastando continuamente determinados habitats e impondo condições artificiais e tóxicas nas instalações de criação de animais para o abate, tem diretamente a ver com o surgimento de pandemias no nosso século.

Esse é o tema do livro Big farms make big flu [Grandes granjas fabricam grandes gripes, em livre tradução] do biólogo evolucionista e epidemiologista Rob Wallace, lançado há pouco tempo [1].

Leitura obrigatória para todos aqueles que pretendam se aprofundar no estudo das pandemias, o autor, uma espécie de Mike Davis da epidemiologia [aliás, M Davis prefacia esse livro], demonstra por que novos vírus e pandemias em série estão entrelaçados à agroindústria capitalista.

A indústria de aves e porcos confinados, boa parte deles geneticamente modificados [eventualmente idênticos entre si, ou seja, clones], empilhados em galpões – megabarns  -, mantidos por antibióticos, rações antinaturais e com milho transgênico, imunologicamente deprimidos e sob o jugo estressante de uma vida curtíssima, sufocante e insalubre, constitui um problema de saúde pública para a humanidade.

São fábricas e reservatórios de mutações de vírus, os quais, tenham eles vindo de animais de áreas devastadas ou não, mas simplesmente são mutantes de alto risco, cada vez mais frequentes e que pululam ali, nos animais imunossuprimidos em seus ambiente fétidos.

“Imagens feitas com câmeras escondidas foram capturadas na Yabuta, um dos principais fornecedores de ovos do Brasil, e revelam: fileiras e fileiras de gaiolas imundas, cobertas de fezes e superlotadas com animais em pânico; galinhas abarrotadas em gaiolas tão pequenas que não podem nem mesmo estender suas asas; aves com patas inchadas, rachadas e deformadas por pisarem unicamente no chão de arame das gaiolas; aves que acabam com suas asas presas nos arames da gaiolas ao competirem por espaço; galinhas mortas deixadas para se decompor ao lado de aves vivas que continuam a pôr ovos para o consumo dos brasileiros”.

Por razões que não são ainda bem compreendidas, o fato é que os vírus do tipo coronavírus podem cruzar a barreira de espécies e produzir doenças graves em humanos. Uma vez nos humanos, sobretudo em contingentes de mais baixa imunidade, também podem sofrer novas mutações e gerar novos surtos, eventualmente mais graves [é o que parece ter ocorrido com a chamada gripe espanhola depois dos primeiros surtos].

Rapidamente abatidos, empacotados e enviados para várias partes do globo [frangos produzidos com esses métodos, no Brasil, vão regularmente, por exemplo, para o O. Médio], constituem um risco permanente para a saúde humana.

Sob estresse crônico e com imunidade debilitada, esses animais, da indústria de aves e porcos, são fonte comprovada de novos vírus que, de mutação em mutação, conseguem em dado momento, cruzar espécies e engendrar surtos como aqueles materializados em várias das gripes suínas e aviárias.

Patógenos mortais emergem intermitentemente desse ambiente agroindustrial especializado e também cruel para os trabalhadores do setor, superexplorados, e também para os próprios animais que vivem sob regime de tortura, sem sol, com ar viciado, mau cheiro, sem chance de pastar livremente, imprensados uns contra os outros, em permanente estresse. Não é difícil rastrear até tais ambientes insalubres, uma grande variedade e vírus da influenza, também vírus Nipah, Campylobacter, febre Q, hepatite E e outros.

Essa “monocultura” de aves vai selecionando e mutando – e fazendo evoluir – vírus, em uma indústria de criação de animais para o rápido abate, movida essencialmente pelo objetivo do lucro. Esses animais são mercadorias, nada mais que mercadorias.

O livro de Wallace é constituído de um conjunto de ensaios, os quais, de diferentes ângulos, mostram que tais granjas, tal indústria de animais confinados pode, perfeitamente, em alguns momentos, ser o gatilho para deflagrar a morte de milhões de pessoas, em pandemias.

E, como ele argumenta a certa altura, se essa indústria capitalista ao invés de externalizar seus custos sobre a humanidade, se os assumisse e internalizasse, essa indústria desapareceria do ponto de vista empresarial. Só sobrevivem e só acumulam capital porque socializam tais custos, em uma atividade empresarial que, lá na ponta, pode significar política de extermínio para nós. E, invariavelmente, de privatização dos lucros para eles.

Sua essência é a de uma ruptura da economia política, da produção de valor com relação ao meio ambiente. Uma fratura e um crescente abismo entre produção capitalista e natureza e, dessa forma, o caminho mais curto para a barbárie ambiental.

Agroindústria de patógenos e agentes de influenza, agronegócio letal: esse é o único formato de agroindústria possível quando os agentes econômicos são as grandes corporações, e aqui temos um dos argumentos centrais em R Wallace.

Na sanha do lucro se superam constantemente em suas biotecnologias da morte e, para além dos transgênicos [OGMs: organismos geneticamente modificados], procuram criar “maravilhas” como o frango sem penas e o camarão de cativeiro [neste caso, um camarão biônico que deixa de ser o que deveria ser, fonte natural de selênio, zinco e cobre na nossa dieta] dentre outras proezas da ciência capitalista. [Já é passada a hora de se superar a ilusão – comum na esquerda – de que a ciência é neutra, despojada de interesses, quando ela é, no real, inseparável da matrix capitalista e sua sede de grandes lucros].

O livro de Wallace tem o grande mérito – pouco comum na literatura – de procurar integrar agronegócio, economia política da doença e uso intensivo da má tecnologia científica, com uma nova compreensão sobre a emergência e evolução de infecções. A mais moderna agricultura e a indústria de confinamento de animais para abate, aparece, então, como uma indústria de alimentos de valor duvidoso e seus patógenos.

Nesse sentido, China, Brasil, México e Estados Unidos estão no mesmo barco com sua indústria de aves e porcos confinados. Exportar e acumular capital a todo custo é o que motiva esse negócio de animais confinados. É um problema estrutural do capitalismo e, por essa razão, esse sistema pode chegar à distopia de criar – o que já fazem, longe da opinião pública, na sua indústria estatal bioterrorista, de bioweapons – patógenos relativamente invencíveis.

O livro põe em perspectiva esse modo de produção – um sistema reiteradamente disfuncional e perigoso – que engendra essas fábricas de vírus e patógenos de todo tipo e, ao mesmo tempo, de massacre da vida e do meio ambiente.

Interiorizando geograficamente essas fazendas artificiais de animais confinados para todo lado, avançando destrutivamente sobre as últimas fronteiras e habitats de animais selvagens, promovendo o criatório artificial e os mercados de animais selvagens, esse sistema termina rompendo fronteiras entre animais, entre animais e humanos e, pela via de animais imunodeprimidos [nas granjas], forçando a mutação de patógenos. E daí para o “monstro batendo à nossa porta” é um passo.

Criar aves assim, em multidões compactas e confinadas, como foi argumentado, deprime brutalmente a sua imunidade, o que inclui uma ração industrial artificial, drogas, falta de sol e de movimento, muita tortura e estresse.

Esses animais viram incubadoras para a evolução da virulência de patógenos que depois se lançam sobre contingentes humanos, gerando sacrifícios e custos que jamais recairão sobre as corporações [serão “custos externalizados”].

Os trabalhadores desses recintos de animais confinados e de frigoríficos são, ao mesmo tempo, a face oculta de todos esses empreendimentos: operando em condições totalmente insalubres, estressados pela carga horária e de trabalho, mal pagos, sem qualquer proteção social e sob a intensa pressão emocional inclusive pelo risco permanente de lidar com aquele inferno, constituem a massa trabalhadora anônima e explorada que padece daquele mar de dejetos, de tóxicos, odores e insalubridade generalizada.

Para além daqueles cativeiros insalubres de animais para abate, é também preciso considerar os animais selvagens consumidos em mercados.

Carne selvagem, na China [e não só por lá], já se tornou, formalmente, um setor da economia [iguarias de consumo para castas ricas da burocracia chinesa]. E termina havendo uma perigosíssima interface entre esse setor e a indústria de animais.
Patógenos que surjam dessa interação podem percorrer o mundo em semanas. Batendo à porta do povo pobre [de imunidade precária] e dos sistemas de saúde que já eram historicamente insuficientes e que foram sucateados e privatizados pelo Estado burguês neoliberal.

Sem que o modelo de produção de alimentos mude radicalmente, surtos de patógenos perigosos se repetirão, colocarão grandes contingentes populacionais de pobres e idosos em risco. Nada deterá essas formas de barbárie viral e ambiental se a produção agroindustrial não for tomada pelas mãos dos assalariados agrícolas, os sem-terra e pequenos camponeses e planificada em uma perspectiva agroecológica e da produção racional e ambientalmente sustentável, de aves, ovos, carnes e leite sem venenos, sem rações duvidosas, sem OGMs, sem o confinamento.

E, vale repetir, sob gestão coletiva.

Esse é um projeto que somente será possível através da estatização dos grandes bancos e planificação do crédito para que também atenda ao pequeno agricultor e suas cooperativas, inclusive as agroecológicas etc. E fim da dívida pública, sem o quê não há orçamento público para o social.

Para que esse futuro socialista aconteça, o grande debate com trabalhadores, ecologistas, cientistas deve começar desde já. A agroindústria dos venenos e dos patógenos é parte da barbárie que o capitalismo impõe contra nós e não há qualquer saúde ou futuro humano nisso.

Defensores desse modo de produção costumam alegar que essa é a única forma de produzir alimentos para grandes massas. Deveriam dizer que essa é a única forma de produzir aves no capitalismo.

O conhecimento agroecológico acumulado, as tecnologias doces de consorciamento de aves, gado e agricultura, também da produção de adubação orgânica, da livre pastagem de aves e outros animais em simbiose virtuosa com a natureza e outras tecnologias de agroindústria de escala – limpas e, vale repetir, agrossustentáveis – são e serão uma opção. Desde que, reiteremos, com a expropriação do grande capital, a gestão coletiva da economia agrícola esteja nas mãos dos trabalhadores e de biólogos, agrônomos e cientistas não colonizados pelo produtivismo capitalista.

Esse é um debate e uma perspectiva para os quais já existe massa crítica e que se não for interditado como vem sendo pelo capitalismo das grandes corporações, é o único que pode dar passagem à agroindústria do futuro, socialista. E nos conduzir ao fim da separação entre a economia e o meio ambiente.

Esse método e essa perspectiva - comunista - são pauta da esquerda, legado de K. Marx, isto é, da ideia de harmonia entre a humanidade e a natureza. E que, ao contrário de certo pensamento verde reformista, só pode ser alcançada através da expropriação do grande capital, do fim das grandes corporações e do capital financeiro.

Aliás, esse é um ponto que nos diferencia, programaticamente, do movimento vegan/pacifista/místico típico da pequena burguesia. Sendo, como nós, contra o confinamento e o maltrato/tortura de animais e a degradação ecológica, pretendem que haja solução para este problema – e para a produção livre de venenos – simplesmente cruzando os braços em sua bolha de classe média e, sem qualquer luta revolucionária, apelando à “mãe natureza”, às “energias cósmicas”, deixando de consumir carnes e, sobretudo, preservando, intocável, ao capitalismo das grandes corporações e o capital financeiro.

Acontece que estes são os donos da economia, os megadevastadores e exterminadores, e ignorá-los não os fará desaparecer. E nem fará cessar a grande devastação urbana e rural em marcha, em escala planetária. Esse é o grande problema de utopias conservadoras, qualquer que seja sua coloração.

Epidemias e pandemias de vírus, mutação e evolução de novos patógenos não são, portanto, processos que se dão naturalmente e nem separados da degradação econômico/ambiental.

Mostrar a unidade entre política, mercado, grandes corporações de fast food e de animais confinados e surtos de pandemias, tudo isso cientificamente abordado em uma mesma perspectiva é o objetivo a que se dá, no seu livro, o pHD em biologia com pós-doutorado na Universidade da California, R Wallace.

Em entrevista recente [12/3/2020] o nosso epidemiologista profissional [e também expert em grande agricultura] falou sobre o COVID-19. E chamou a atenção para um ponto: jamais se deve considerar tais surtos como fenômenos isolados. São parte de um processo em curso, ininterrupto e estrutural da agroindústria capitalista. Onde não cabem reformas.

“A crescente ocorrência de vírus está intimamente vinculada à produção de alimentos e à lucratividade das corporações multinacionais. Qualquer um que queira entender porque esses vírus estão se tornando mais perigosos, deve investigar o modelo industrial da agricultura e, mais especificamente, a produção de animais. No momento, poucos governos e raros cientistas estão preocupados com isso”. [Entrevista de 12-3-2929, à revista socialista alemã Marx21].

Ele argumenta que se trata de um problema estrutural, capitalista e que, portanto, nenhum surto de patógenos pode ser tomado separadamente. E muito menos desarticulado do processo em que o grande capital incessantemente destrói grandes florestas e pequenos camponeses pelo mundo afora. E degrada a criação de animais e a biodiversidade.

Com isso, os capitalistas destroem uma diversidade que é funcional para nossa sobrevivência, expulsam patógenos das florestas e que passam a estabelecer interação com a criação de animais e com comunidades humanas. Ao ponto de que grandes centros como Londres, N York e Hong Kong devem ser considerados, incontornavelmente, centros primários [hotspots] do desenvolvimento de doenças. E nenhuma grande metrópole está livre dessas pragas.

Florestas de longa e complexa evolução são dizimadas, sua ecologia evapora, animais são expulsos dos seus habitats, patógenos que estavam em cheque [no seu quadrado, por assim dizer] são liberados, tornam-se uma ameaça global. Isso sem jamais se deixar de levar em conta os já mencionados laboratórios de guerra dos países imperialistas e da China, produtores de vacinas e de armas biológicas [bioweapons]. Vazamentos de vírus nesses estabelecimentos não são impossíveis.

O autor conclui: o agronegócio está tão focado nos lucros que o risco – por ele engendrado – de produzir e liberar um vírus capaz de matar um bilhão de pessoas é tratado como aceitável, como parte do risco empresarial.

[1] Big farms make big flu: dispatches on influenza, agribusiness and the nature of science, Rob Wallace, prefácio de Mike Davis, 2016, Monthly Review Press, 400 pp

[Trecho de 1 minuto de vídeo disponível no site youtube do Animal Equality Brasil, intitulado “A crueldade do Pão de Açúcar”]:

Apêndice

Quadro: A produção de aves e ovos no Brasil pela voz dos seus produtores

“O Brasil é o maior exportador de frango do mundo, e continua inovando. No Paraná, surgiu um novo modelo criação, um condomínio de granjas. É um negócio enorme e já pode ser chamado de “frango 4.0”. O condomínio fica no Norte do estado, na confluência dos municípios de Mandaguari, Jandaia do Sul e Apucarana, região alcançada pela mais recente onda de tecnologia de ponta em avicultura. A modernização da produção da criação de frango se deu pela produção em escala. Hoje, já tem barracão capaz de abrigar até 50 mil aves. [Pretendem garantir ] a produção de 170 mil frangos por dia – e o condomínio veio para turbinar essa oferta. [...] A fase pintinho exige muito, porque eles podem morrer de frio. É preciso manter viva a fornalha da caldeira para conseguir a temperatura ideal na pinteira, entre 33 e 34 graus.

É espantoso como o frango de hoje cresce rápido. A evolução das linhagens permitiu que hoje o frango atinja o peso de abate de 2,8 quilos em apenas seis semanas. Um potente computador analisa as informações do criatório em tempo real. É um aparato inteligente para liberar, por exemplo, água e comida, ou mexer na temperatura. [...] “Você só consegue colocar esse número de aves por metro quadrado porque você tem uma boa ambiência. Porque senão essas aves vão sofrer por estresse calórico e vão acabar morrendo, ou tendo um baixíssimo desempenho.”

O setor do frango suscita aplausos ao transformar soja e milho em uma importante proteína animal mais barata. O frango é a principal proteína consumida pelo brasileiro. São 45 quilos por pessoa por ano. “Quanto maior a densidade dentro de um aviário e quanto maior o número de aviários, o risco com certeza vai ser maior”, explica o veterinário Jacquiel Banpi. O índice de mortalidade do condomínio está bem abaixo da média nacional: entre 2% e 2,5%. [...] Só desse condomínio, saem 7 milhões de frango por ano. [...] Em fevereiro deste ano, faltou energia no condomínio. Morreram 65 milfrangos”.

Quadro 2
“A Granja Mantiqueira É A MAIOR DO BRASIL E A 12ª DO MUNDO. A Mantiqueira é responsável pela maior produção de ovos da América do Sul, com 11,5 milhões de galinhas em suas quatro unidades: duas em Minas Gerais, uma no Mato Grosso e uma no Rio de Janeiro.

Em 2019 cada brasileiro consumiu em média 230 ovos, alcançando pela primeira vez na história a média mundial do consumo dessa proteína. No ano passado, a produção de ovos no Brasil teve um crescimento de 10%, totalizando mais de 49 bilhões de unidades. Isso quer dizer que o país produz nada menos que 1,5 mil ovos por segundo”.

[Crédito de imagens: ciclovivo.com.br / moneytimes.com.br foto rodolfo buhrer
/ wccoradio.radio.com]




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