Política

EDITORIAL CAMPINAS

As disputas na prefeitura de Campinas em meio ao questionamento do judiciário e da tramitação da previdência

Jonas Donizette, prefeito de Campinas pelo PSB e articulador da reforma da previdência, não caiu e não está afastado, após ter sido condenado em segunda instância por improbidade administrativa, ao contrário do que foi divulgado pela grande mídia.

quarta-feira 19 de junho| Edição do dia

Jonas Donizette é um declarado inimigo dos trabalhadores e da juventude. Empenhou-se em articular os prefeitos dos municípios nacionalmente para apoiarem a reforma da previdência. Mostrou-se como um grande aliado de Bolsonaro e Guedes, contudo, os serviços prestados não foram suficiente para poupá-lo de uma importante investida judicial que determinou a perda de seus direitos políticos após o fim do mandato. O que está em jogo nessa ofensiva do judiciário contra Jonas?

O escândalo em torno dos cargos comissionados, prática comum e leviana na política burguesa, não passou de um golpe de efeito interessado para arranhar a figura de Jonas eleitoralmente, quando o mesmo está envolvido em pelo menos três casos de corrupção, muitas vezes mais grave que este, e que foram empurrados para de baixo do tapete. São eles o desvio de verbas destinadas a merenda escolar das crianças do ensino básico municipal, o desvio de dinheiro público destinado ao Hospital Ouro Verde que se encontra em estado calamitoso e o caso de caixa dois em que foi acusado de receber 100 mil reais da empresa de transporte CCR.

A essa altura, com as atuais revelações da Intercept, não existe mais espaço para dúvidas de que a justiça tem partido e está do lado da reforma da previdência, disposta inclusive a realizar julgamentos e prisões ilegais para manipular o resultado das eleições e atingir seus objetivos políticos. Acontece que Jonas é um importante articulador da Reforma da Previdência no posto de presidente da Frente Nacional de Prefeitos, e está colocando todos os seus esforços para que a reforma se estenda para os municípios. Embora o TRF-4 tenha condenado Jonas, ainda lhe cabe recurso e apelo para outras instâncias, e a pena só seria aplicada ao final de todo o julgamento. O processo que foi iniciado no início de seu mandato, anos atrás, não tem o interesse de lhe tirar da prefeitura nos últimos meses de seu governo.

É evidente que, pelo tamanho do sensacionalismo da grande mídia, a intenção da condenação era atingir Jonas, motivada por interesses próprios da política burguesa, de forças tão asquerosas quanto a do PSB. Com toda a projeção que adquiriu na Frente Nacional de Prefeitos, juntando setores que vão do PSDB ao PCdoB em sua base de candidatura, conduzindo um governo com praticamente nenhuma oposição na câmara, favorecido pelos holofotes apontados para a política nacional, é de se esperar que Jonas pode ter se tornado um competidor forte para seguir carreira política fora de Campinas, e por tanto é de praxe encontrar obstáculos colocados por adversários na arena estadual. Adversários que crescem ao ter seu apoio reduzido com a ruptura do PCdoB, que perdeu seus postos de comissionados em seu governo, e com a filiação de Henrique Magalhães, ex tucano e vice de Jonas, no PSB, fazendo com que o PSDB perdesse sua posição como sucessor direto do governo, partido que é, não por acaso, íntimo dos tribunais de justiça do Estado de São Paulo.

Porém as fissuras nos de cima podem também expressar crises mais profundas no interior do estado. O município de Campinas está declaradamente em uma crise financeira profunda e sem nenhuma perspectiva de melhoria, agravada pela crise econômica. É sabido que a prefeitura tem contas milionárias em atraso, há também um déficit gigantesco na previdência dos servidores públicos contratados até 2004, e o pagamento de salários e benefícios dos funcionários estatais estão sempre ameaçados com atrasos, o calote em empresas prestadoras de serviços também atravessou o governo do PSB, enquanto seu principal trunfo são os enormes canteiros de obras espalhados por todos os cantos da cidade. No final a conta não fecha, e Jonas, paladino da previdência, não tem tido muito sucesso em roubar o superávit do Camprev. Em uma cidade governada nos bastidores por máfias de empresas terceirizadas, monopólio de transporte urbano e empreiteiras, o atraso no salário dos servidores não pode significar a inadimplência com os contratos milionários com o setor privado. Por tanto não existe coincidência quando poucos dias depois que foi divulgado o julgamento de Jonas em segunda instância, a prefeitura de Campinas anuncia também um corte nas secretarias do município que irá atingir inclusive a saúde e a educação, algo que não havia sido feito antes.

Enquanto a burocracia sindical do Sindicato de Rodoviários de Campinas, Força Sindical, está criminalizando a paralisação dos motoristas, assinando corte de bonificação dos trabalhadores em dupla função após demissão dos cobradores, e em plena rixa interna por disputa de participação nos esquemas de corrupção, o projeto de Jonas garantir o pagamentos das empreiteiras que financiaram sua campanha segue a pleno vapor: nos fazer trabalhar até morrer com a reforma da previdência, articulando com Guedes a garantia que os servidores municipais estejam no esquema, liberando assim o superávit do Camprev para pagar o carnê dos empresários. Por esse compromisso Jonas estará sempre ao lado e protegido pela justiça de Moro e da Lava Jato que querem criar uma pacto com Guedes, com o centrão e Bolsonaro para blindar e aprovar a reforma.

Portanto, se enganam aqueles que comemoram os atos da justiça, e acreditaram que seu mandato estava na berlinda, como Wagner Romão do PT e a vereadora Mariana Conti do PSOL, que tentou pela segunda vez inutilmente pedir o afastamento de Jonas na câmera, como se bastasse um empurrão para derrubá-lo, sem se importar com o que viria em seu lugar. Parecem não terem aprendido nada com a Lava Jato e com o golpe institucional, seguem confiando na justiça e incorporaram o impeachment como se fosse um caminho possível para a esquerda e para os trabalhadores, trocando o sujo pelo mal lavado, tentando resolver os problemas dos palacianos com os métodos do palácio.

Por isso o único caminho para derrotar o projeto corrupto e burguês de Jonas, e o pacto que está sendo formado entre os de cima, é ir às ruas com a juventude contra a reforma da previdência, contra os cortes e contra a Lava Jato, defendendo a liberdade imediata de Lula, sem nenhuma confiança e apoio ao PT, para impedir que nos façam pagar a conta da crise capitalista. É necessário exigir que as centrais sindicais parem de negociar nossos futuros em reformas de previdência alternativas e se construa um plano de lutas e mobilização, organizado através de assembleias na base de cada local de trabalho e de estudo.




Tópicos relacionados

Jonas Donizette (PSB)   /    Campinas   /    Campinas   /    Política

Comentários

Comentar