Gênero e sexualidade

HOLLYWOOD

As denúncias contra o assédio sexual, a personalidade do ano

A revista estadunidense Time elegeu como personalidades do ano as protagonistas do movimento #MeToo, que seguiram com as denúncias de assédio sexual em Hollywood. Terceira onda?

Celeste Murillo

Argentina | @rompe_teclas

segunda-feira 11 de dezembro de 2017| Edição do dia

Todos os anos a revista estadunidense Time escolhe personalidades que se destacaram. Para sua capa de 2017, escolheu as protagonistas do movimento #MeToo (Eu também), que seguiram com as denúncias de assédio sexual em Hollywood.

Em outubro, seis atrizes apresentaram uma denúncia coletiva de assédio sexual contra o produtor cinematográfico Harvey Weinstein. A denúncia deu origem a uma onda que atingiu personalidades do cinema e da televisão (como Kevin Spacey e Louis CK), mas transcendeu a outros ambientes. Durante os últimos meses se vieram à tona denúncias de assédio e abuso contra parlamentares republicanos e democratas, entre os quais se encontram o senador do Alabama Roy Moore (Republicano) e Al Franken (Democrata) do estado de Minnesota (EUA).

Acontece em Hollywood, acontece na vida real (ainda que a revista Time não diga)

Um dos aspectos progressistas da hashtag e do movimento #MeToo é que mostrou a estrutura da impunidade sobre a qual se sustenta a poderosa indústria de Hollywood. E ainda que a revista Time não fale, as relações de poder que estabelecem produtores e diretores não seria possível se não se desenvolvessem em uma sociedade profundamente desigual, onde as mulheres recebem salários menores que os homens, são discriminadas e humilhadas de diversas formas por causa do seu gênero. Aliás, não é um detalhe assinalar que entre as “Personalidades do ano” da Time, as mulheres são exceções.

A realidade transborda qualquer capa de revista. Não é demais recordar que o ano de 2017 começou com a maciça Marcha das Mulheres em Washington (EUA), a primeira marcha contra o presidente Donald Trump. E no 8 de março, como parte da Paralisação Internacional de Mulheres, voltou a se expressar um amplo movimento social e político que reconheceu na violência contra as mulheres um dos gestos mais escancarados da sociedade capitalista, cada vez mais desigual

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Os grandes meios de comunicação (incluindo a Time), a indústria cultural e as corporações (que tomaram pra si parte da agenda do feminismo liberal) aparecem surpresas com os assédios e abusos em Hollywood. Nos últimos meses têm dedicado atenção e espaço porque se sentem mais “confortáveis” falando das denúncias de uma porcentagem ínfima e, ao mesmo tempo, podem silenciar sobre os abusos que sofrem 95% das mulheres.

Longe de Hollywood e do teto de “cristal” das estrelas do cinema e profissionais, a maioria das mulheres luta nos porões de uma realidade marcada pela desigualdade e violência. A precarização e o trabalho não remunerado só agravam o abismo salarial (que as principais estrelas do cinema também denunciam). O assédio no trabalho de chefes e supervisores é tão cotidiano que se naturalizou como “ossos do ofício”. E se as denúncias de Hollywood permitem discussões entre trabalhadoras, estudantes e jovens desses “porões” não é graças aos meios de comunicação, que silenciam as suas vozes.

Se as mulheres poderosas, que recebem milhares de dólares para aparecer em um filme ou na televisão, são humilhadas e assediadas, imaginem o que acontece com milhões de mulheres que todos os dias trabalham em empregos mal remunerados, que são a maioria entre os mais pobres e a maioria entre as pessoas que mais sofrem com a violência sexista, mas também com a xenofobia e o racismo? O que acontece com aquelas pessoas cuja opressão está legitimada por uma ordem social onde uma minoria dona de tudo vive do trabalho de quem não tem nada? Em última instância, para essa ordem social é funcional e conveniente falar de algumas denúncias e “jogar fora” as maçãs podres, isso permite que sua estrutura continue mais ou menos intacta.

Nem tudo que reluz é ouro

Outro debate que a revista Time se esquiva é que tanto no caso de Weinstein como no caso de Spacey, as empresas que os empregavam decidiram demiti-los e ambos ingressaram em uma clínica de reabilitação. Como se existisse uma patologia a que correspondesse seus comportamentos, que não é outro senão abusar de pessoas que se encontram em hierarquia inferior, no contexto de uma sociedade que reproduz esse comportamento constantemente em múltiplos âmbitos.

Ao redor deste problema, Clara Serra na revista Contexto assinala que a forma como Hollywood administrou o escândalo, “não deixa de parecer uma estratégia higienizante por parte de uma indústria que antes de tudo quer cauterizar uma ferida por onde milhões de dólares poderiam ser sangrados”. Isso põe o foco também sobre como são “digeridos” ou integrados os reconhecimentos dos meios de comunicação e da indústria cultural ao movimento de mulheres e o feminismo.

Da mesma forma que Hollywood incorporou e “dirigiu” nos últimos anos vários aspectos da luta das mulheres e das pessoas LGBTs, está em seu DNA transformar um problema que atinge de perto a sua estrutura de poder (e seus negócios) em algo que revalorize seu rol de produção e reprodução de valores. De fato, ao desprender-se de Weinstein e Spacey, a ação afirma que Spacey é um problema (algo que ninguém negará), mas ao mesmo tempo, deixa uma conclusão lógica (por omissão neste caso): Hollywood não é. Hipocrisia sem limites.

Uma pergunta similar poderíamos fazer sobre a revista Time que, ao mesmo tempo, da conta de um fenômeno social e político, e aproveita para “exorcizar” um pouco os meios de comunicação que não são neutros quando falam da violência machista, da misoginia ou da descriminação. De fato, são parte de uma máquina de revitimização e silenciamento que tem funcionado durante anos a serviço da invisibilização da violência. E basta recordar os últimos casos de feminicídio nos quais, quase sem se importar em que país estamos, a culpa recai direta ou indiretamente sobre as mulheres. E quando não é assim, nos reduz a meras vítimas, incapacitadas de sermos sujeitos de questionamento ou de qualquer transformação.

O debate aberto que envolver esse tipo de “terceira onda” centrada na violência, começam a ouvir vozes que alertam sobre a eficiência de um método que reorienta a luta contra a violência machista no plano individual. Ileana Arduino faz uma pergunta incômoda em um artigo recente na Cosecha Roja a propósito do caso de Gustavo Cordera, “o que grande parte do feminismo faz de melhor é evidenciar o caráter estrutural das violências e exigir transformações radicais, então por que se conformaria – ante o desastre iminente – com seguir aprofundando o caminho punitivista? Como de costume, as perguntas incômodas são as mais interessantes.

Com certeza a Time não busca essas nem outras discussões, quiçá só querem vender revistas. Mas não são poucos os setores do feminismo e do movimento de mulheres que já abriram o debate sobre as estratégias para lutar contra o patriarcado e seu sócio mais beneficiado, o capitalismo, ainda que nada disso saia em capas de revistas.

Publicado em 10 de dezembro no La Izquierda Diário




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