Opinião

RIO DE JANEIRO

As definições de crise foram atualizadas: Rio de Janeiro e novos sinais na crise nacional

O Rio de Janeiro depois de longa agonia parecia destinado a recuperar seu lugar ao sol. Não só nas areias de Copacabana e Ipanema, mas como economia pujante ligada à bonança do petróleo, como centro político do país, com poderosos políticos locais dominando a política nacional, como os agora presos Eduardo Cunha e Sérgio Cabral. O Rio era cartão-postal de um Brasil potência. Tudo isso parece passado remoto.

Leandro Lanfredi

Rio de Janeiro | @leandrolanfrdi

quinta-feira 17 de novembro| Edição do dia

Nem parece que faz poucos meses que a pira olímpica se trasladou a Tóquio. O “Rio Arábia Saudita” parece ter dado lugar à Grécia ou à longa agonia de desemprego, desindustrialização, miséria e violência urbana dos anos 80 e 90. A profunda crise que se desenvolve tem contornos e agentes locais, mas pode também ser vitrine de novos desenvolvimentos da crise nacional.

As prisões de Cabral e Garotinho seriam o anúncio de uma nova Lava Jato que não só pega nomes extra-PT para se blindar de críticas, mas que ameaça ir a uma “Mãos Limpas” e mudar o regime partidário e político para colocar seus ditadores de toga e empresários no poder? A tomada da ALERJ por forças policiais, algumas delas bradando slogans de 1964, se casa como com a situação nacional? E pela esquerda o mais de um milhão de votos contra a direita na capital? A juventude irrequieta das ocupações de escolas e universidades poderia irromper novamente? Se faltassem poucos ingredientes tudo isso se desenvolve em meio a uma das mais agudas crises que enfrentam os estados com suas insolventes dívidas.

Tudo se processa com agudez no que era a vitrine da estabilidade e está se tornando a exposição da instabilidade e o potencial de novos fenômenos à esquerda e à direita.

O fim do gradualismo lulista como pano de fundo

A falência de grandes projetos pode abrir uma situação que o marxista italiano Antônio Gramsci chamava de “crise orgânica”. Trata-se de uma crise do “estado de conjunto”, perpassando elementos sociais, econômicos e políticos. Portanto profunda, mas uma crise que não é diretamente “revolucionária”, ou seja, de enfrentamento aberto entre as classes sociais antagônicas. Uma situação instável, propensa a fenômenos transitórios e aberrantes (Trump, Brexit, para citar expressões internacionais), abrindo a cabeça a novas formas de pensar, à esquerda e à direita, que, conforme uma ou outra ganham força, dão margem a uma estabilização mais repressiva e bonapartista à direita ou a um ascenso de massas e cenários mais “clássicos” da luta de classes.

Esta categoria de “crise orgânica” é muito rica para pensar a situação em diversos países do mundo e os profundos impactos subjetivos e políticos há quase uma década do inicio da crise capitalista. Temos utilizado essa categoria para pensar a crise do Brasil e suas formas mais agudas no Rio servem para pensarmos possíveis desdobramentos nacionais.

O grande projeto burguês nacional que entrou em crise foi o “gradualismo lulista” e sua imagem eufórica “Brasil potência”, primeiro com as jornadas de junho de 2013 escancarando como as aspirações de setores de massa (sobretudo da juventude) já não se continham em suas estreitas margens. Isso deu lugar a um efêmero porém cheio de potencial reverdecer antiburocrático de greves urbanas a sacudir garis, rodoviários e outras categorias de norte a sul do país. Depois, com o golpe institucional, vimos pela direita e por “cima” o mesmo esgotamento do “esperar e ver”, “vamos ganhar todos”, FIESP e trabalhadores, LGBTs e Feliciano, Bolsonaro e “Comissão da Verdade”. Este mundo ficou no passado.

Não poder nem querer “mudar de armas” em meio ao golpe, fez o PT procurar sua salvação em Maluf, Kátia Abreu e outros aliados não muito fiéis ou no mínimo irrelevantes para parar o fato consumado que a FIESP, a mídia, o “centrão” e o agora onipotente “partido judiciário”, já não lhe queriam na condução dos ajustes. Pagaram com imensa derrota eleitoral uma dívida “acrescida de juros” de começar os ataques agora continuados e aumentados por Temer, de ter assumido todos os mais corruptos métodos capitalistas de governar, e depois de “não incendiar o país” como Lula exortou a CUT em meio ao golpe. Ganharam os “gestores”, os “não políticos” e uma profunda apatia em vários antigos bastiões lulistas. Mesmo com contornos distintos, em alguns sentidos mais agudos, as eleições do Rio mostram os mesmos fenômenos.

Os sonhos do grande projeto “Rio, vitrine do Brasil potência” e o pesadelo atual

Este projeto nacional tinha claríssimos contornos cariocas. O pré-sal e os estaleiros gigantes, os mega-eventos, as grandes obras, não só olímpicas, mas do PAC com seus teleféricos, BRTs e VLTs monumentais. Uma promessa de novo lugar na economia nacional e mundial, de novas relações entre as classes sociais e o Estado, alterando a relação morro-asfalto, zona sul/subúrbio, através das UPPs e outros grandes empreendimentos não só em tropas, balas e coturnos, mas do ponto de vista de uma nova hegemonia política e social que combinava ascensão social, consumo, “cidadania” e repressão. Um mundo político local onde podia-se transitar de Bolsonaro a Lula na mesma coalizão, sob hegemonia do PMDB, e fartas propinas e “oxigênios”, como Cabral chamava seu esquema, a azeitar as engrenagens de todos.

Era um Rio reencontrado. Reencontra-se hoje com uma agonia dos 80, promessa de fim de tudo que é programa social com o “pacote de maldades” e ainda atraso e seqüestro de salários e direitos do funcionalismo da ativa bem como dos aposentados. A polícia, fonte de estabilidade nos gloriosos anos “potência”, agora toma a ALERJ de assalto gritando por Bolsonaro e com parcela de seus grupos de choque empunhando faixas “pela intervenção militar já”.

Uma agonia sem sequer ter um Brizola para galvanizar projetos antagônicos para a elite, pois o latifundiário trabalhista é a expressão política típica de um lugar de uma elite débil perante um mundo de funcionários públicos e trabalhadores pobres e precários, propenso para formas mais agudas e constantes de bonapartismo, tomem eles contornos mais agressivos à esquerda se apoiando nas massas contra o imperialismo (como ele só foi nos seus pampas natais com as estatizações) ou à direita (Lacerda, Tenório Cavalcanti). Sem tomar contornos mais agudos, é possível visualizar elementos desse bonapartismo estrutural do Rio em Garotinho, Cabral. Quase nunca na história do Rio ocorreu um Alckmin, um burguês “normal”, de “boa família e tradição”. E com a crise política e econômica menos ainda isso parece possível na terra de Cunha, Roberto Jefferson e da família Marinho.

Vive-se um grande vácuo político que acentua a crise no Rio. Um PT historicamente débil soma-se à crise do PMDB local: encarcerado (Cabral e Cunha), com promessas de encarceramento (Picciani) ou derrotado eleitoralmente (Paes), com figuras populistas como um Garotinho também em cana, e além disso sem contar com um PSDB, PSD, PPS, DEM ou qualquer forte alternativa burguesa “normal”. Crescem nessa situação os Bolsonaros, Crivella.

Pela esquerda, o potencial de uma força social de mais de um milhão, não só de jovens, não só de funcionários públicos, mas com expressivas votações até mesmo nos Complexos da Maré, do Alemão, como se expressou através de Freixo apesar de sua tentativa de reeditar a conciliação petista.

Não é de estranhar a força das manifestações e da impopularidade do “pacote de maldades” de um herdeiro de Cabral e como até mesmo em seu PMDB exista quem cogite aderir a moda do impeachment para salvar seu próprio pescoço. Os editoriais da mídia oscilam entre culpar Cabral e Pezão e naturalizar suas medidas. Como se as quisessem, mas ao mesmo tempo se livrar deles. Só não se vê quem colocar no lugar.

Na cobertura da mídia, não se vê nenhum deslocamento decisivo, vive-se um compasso de espera como nos longos meses antes de Cunha e todo establishment guinar pelo impeachment. Independentemente disso, toda cobertura da Globo e outros meios destoa do ufanismo de quando instalaram as primeiras UPPs e mais ainda quando isso se combinava a promessa de sediar a Copa e as Olimpíadas. O sonho acabou e ainda não há outro a substituí-lo.

Naqueles tempos de vitrine, Cabral dançava em Paris com guardanapos na cabeça junto aos empreiteiros amigos, pegava carona no jatinho de Eike Batista que sonhava em transpassar Bill Gates, Carlos Slim e Warren Buffet no ranking mundial de bilionários, a elite econômica e política, entrelaçada, se jubilava com as cifras legais e ilegais de seus negócios, que agora sabemos que alcançaram quase duzentos milhões de reais só para Sérgio Cabral que entre um champanhe e uma jóia em Paris, uma ida de helicóptero a sua mansão em Mangaratiba e o contar de sua fortuna, sonhava com a presidência da República. Na prefeitura Eduardo Paes, que sequer conseguiu emplacar seu sucessor no segundo turno, também traçava seus próprios sonhos nacionais em meio a toda uma estética da elite se reencontrando com o subúrbio e a gafieira.

Nas massas, as UPPs gozavam de quase absoluta popularidade. Beltrame, o secretário de segurança de Cabral era o general inconteste da construção de uma nova cidade, orgulho do país. Eis que começaram a vir à tona as denúncias de corrupção, irrompe junho, irrompem os gritos de “Cadê o Amarildo” e “Fora Cabral”. Com DG e tantos outros crimes as UPPs começam a perder a batalha de discurso hegemônico. Os garis, rodoviários e várias categorias entram em greve. O reino da estabilidade começa a ruir e as Olimpíadas não deixam um legado de alegria, mas um rombo orçamentário e a generalização de uma percepção que foram todos roubados, que o Souza Aguiar e outros hospitais públicos estão em colapso porque tudo se organizou para enriquecer Pezão, Cabral e tantos outros.

Beltrame pulou fora do governo. Sem este outsider da PF a centralizar todos, as forças policiais tiram o sono de Pezão que teve que recorrer a Temer para garantir a repressão nessas semanas decisivas de votação do “pacote de maldades”.

Na ALERJ sobram aqueles que tal como ele querem fazer com que as massas e o funcionalismo paguem as contas da crise. Mas como políticos de interior (e a cara verdadeira de muitas capitas) os muitos caciques não podem prescindir de seus amigos em algumas corporações públicas, sobretudo nas corporações militares e seus milhares de cabos eleitorais, assim o “Pacote de Maldades” enfrenta questionamentos.

Com outra poderosa corporação Pezão se conflagra. O judiciário, do alto de suas regalias do Olimpo com seus auxílios moradia e tantos outros, intervém na política do executivo de uma maneira que soaria alarmes em qualquer outro estado da nação. Quase todo mês o judiciário arresta os bens do executivo para garantir o pagamento de seus funcionários. O MP local chegou a pedir a Janot do MPF que protocolasse um pedido de destituição de Pezão e “intervenção federal”. Janot não deu ouvidos, mas será que Sérgio Moro com a prisão de Cabral e um secretário do próprio Pezão estaria dando?

Eis os contornos do pesadelo para os “de cima” e para os “de baixo” com crescimento do desemprego, com atrasos de salários do funcionalismo, com a retirada de direitos tão inquestionáveis como o bilhete único e até mesmo o “aluguel social” para aqueles que percam suas casas nas tão recorrentes tragédias. Ninguém mais aceita a situação como está e não se sabe mais até mesmo quem manda no orçamento: o judiciário, o executivo ou o legislativo. Eis o cenário carioca da crise orgânica nacional.

Para onde vai o Rio de Janeiro? Como isso pode influir na crise nacional?

Em meio à tamanha combinação de crise econômica, social e política o inusitado protagonismo do judiciário prendendo dois diferentes ex-governadores em somente dois dias acende luzes de alerta para Temer e governadores de todas colorações políticas. Pimentel do PT de Minas Gerais sob intermináveis denúncias da Operação Acrônimo poderia ser uma próxima vítima, mas não faltam possibilidades ao tucano Anastasia, a Renan Calheiros e intermináveis figuras do regime político. Isso que não se conhece a lista da Odebrecht pois, diferente das gravações de Lula e Dilma, Sérgio Moro optou pela discrição frente aos fatos. Deixando o suspense no ar, e para atuar nos ritmos, intensidades e alcance que desejar politicamente.

Poderia o judiciário que cada vez mais se arrouba porta-voz da nação, sem nunca ter passado por uma mínimazinha eleição, avançar para além da reforma trabalhista e previdenciária como está fazendo o STF, para além de prender um ou outro político como a Lava Jato para posições mais ativas, como intervir diretamente na política de algum estado? Nomear interventores como queria o MPF-RJ? Com certeza se existe essa possibilidade seu balão de ensaio está no Rio de hoje.

E quem Dallagnol, Moro e seus comparsas cariocas nomeariam que não expoentes da escalada arbitrária e repressiva que eles mesmos defendem com suas “dez medidas de combate à corrupção” que entre outras coisas praticamente suprime o direito a habeas corpus? Ou se os magistrados não optarem por um dos seus não gostariam de um Doria, um Gustavo Franco, alguém “técnico” a conduzir os ajustes e erguer uma nova correlação de forças que ataque os direitos dos trabalhadores e de todo o povo em nome de garantir uma nova ordem de margens de lucro “modernas”, chinesas, para a FIESP e seus patos?

Por isso é ainda mais criminosa a posição daquelas correntes e expoentes da esquerda que aplaudem a Lava Jato e o judiciário. Pois não só estão aplaudindo uma instituição do Estado que irá criminalizar mais os trabalhadores, estão aplaudindo uma saída política da elite para um regime político em crise. Uma saída que pode se combinar com tropas de choque de polícias e outros direitistas que urrem por Bolsonaro e Moro ao mesmo tempo como vimos recentemente na “tomada” do Congresso Nacional.

À falta de uma saída “normal” essa é uma opção que parte da elite nacional oferece para o Rio de Janeiro em um possível laboratório de novas crises nacionais. Crivella e Bolsonaro são inaceitáveis para a elite, só ver a enxurrada de denúncias que o Globo produziu nas eleições municipais, porque não, então, recorrer a alguém ungido por Moro? Se isso não termina de acontecer, a mera ameaça de algo pelo estilo já é benéfica para elite, pode ter um efeito disciplinador em Pezão, Picciani e outros, para que honrem seus compromissos e façam valer todo o “pacote de maldades”.

Por outro lado essa não é a única opção que está se oferecendo. Essa é opção “pelo alto”. Há outra se gestando “por baixo” que precisa terminar de irromper. Nas ocupações de escola e universidades, nas greves nas universidades, paralisações de professores, na saúde e outros setores, se vê a expressão em luta daquele milhão que votou contra a direita. Pode essa força em potencial se realizar na prática? Para isso é preciso um salto na coordenação dos setores, e um salto em sua perspectiva política que ultrapasse os marcos restritos de sua greve e sua ocupação, que vejam que o Rio pode ser um impulso à luta nacional contra a direita e contra todos os ajustes sejam eles de Pezão ou Temer ou do STF.

Para isso, é necessário erguer não só uma rigorosa independência política dos falsos aliados no judiciário, nos partidos patronais, e na polícia, mas que tome em suas mãos um programa anticapitalista que ataque os privilégios dos milionários com suas fortunas e isenções fiscais, termine o pagamento da criminosa dívida pública e questione todos os privilégios políticos e pecuniários da “casta política” impondo que todo político, juiz, promotor, seja eleito, revogável e ganhe o mesmo que uma professora. Sem erguer uma grande força anticapitalista, revolucionária, deixaremos espaço para os Bolsonaro, Crivella, Dallagnol e Moro.

A crise orgânica se agudiza no Rio com as ações de setores policiais e as prisões pela Lava Jato. Oferecerá o Rio uma resposta de brutais ajustes contra os trabalhadores pelas mãos da casta política atual, os mesmos ou ainda piores ajustes por interventores sancionados por Moro, ou uma resposta pela esquerda, dos trabalhadores? Os milhares de ativistas nas ocupações de escolas e universidades, os grevistas e aqueles milhares que tomaram em suas mãos a campanha de Freixo não pelo seu programa que incluía honrar a neoliberal Lei de Responsabilidade Fiscal que podem decidir como serão alguns contornos de uma crise que ganhou novos fatos e atores.

O Rio pode ser vitrine não só para a elite, mas para os trabalhadores. Cabe criar a força social, política e o programa para isso.




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