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TRAGÉDIA NO HAITI

As consequências do Matthew como fruto da opressão imperialista

sexta-feira 14 de outubro| Edição do dia

Enquanto a Defesa Civil aponta para 475 mortos e 75 desaparecidos, as contas da Anistia Internacional, através da agência de notícias Reuters, chega ao número de 1000 mortos pelo furacão Matthew (furacão é o mais forte a atingir o Caribe desde 2007), que atingiu a costa oeste da ilha de São Domingos, dividida entre o Haiti e a República Dominicana, no último dia 04, onde vigora um luto oficial no lado ocidental, território haitiano, desde o último domingo (09). Enquanto isso mais de 170 mil haitianos permanecem refugiados em abrigos provisórios espalhados pelo país.

Cólera e fome

Além de terem suas casas completamente alagadas pelas chuvas e destruídas pelos efeitos do Furacão, os haitianos ainda sofrem com o retorno da epidemia de cólera. A doença assola o país desde o começo da operação de suposta ajuda internacional da ONU, a MINUSTAH, liderada pelo Brasil, em 2007, trazida pelos soldados que faziam suas necessidades nos rios em que as famílias retiravam água para beber. Este novo surto de cólera, que causa forte diarreia e pode matar em questão de horas se não for tratado, já matou dezenas de pessoas. A doença se espalha a partir de água contaminada e possui um período curto de incubação, o que leva a rápidos surtos. Autoridades locais ainda consideram o número de casos “baixo”.

Além disso, a área sul do Haiti, responsável pela produção de alimentos para todo o país, foi a mais afetada, o que compromete o abastecimento de alimentos. Em Jeremie, que foi a cidade mais afetada pelo Furacão, que antes era uma grande área agrícola e uma das últimas reservas naturais do Haiti, com uma paisagem recheada de ricas florestas e uma vasta vegetação, encontramos hoje uma cena de completo desespero e calamidade. Casas destruídas, ruas alagadas e a sensação de que a morte fez uma longa visita na região. As estradas, recentemente construídas para ligar a cidade aos outros centros urbanos, estão bloqueadas por pedras, detritos e rachadas, árvores arrancadas pelas raízes e casas reduzidas a montes de entulhos arrancados dos telhados. O cheiro de fezes e água podre preenche o ar, dividindo espaço com as lágrimas dos que perderam tudo.

Segundo os dados mais recentes da Anistia Internacional de setembro de 2014, no Haiti permanecem ativos mais de 120 campos para pessoas internamente deslocadas, que perderam suas casas devido o terremoto de 2010. Estes locais acomodam em torno de 86 mil pessoas. As condições em muitos desses campos são terríveis. Um terço das pessoas que vive neles não tem acesso a uma latrina. Cada banheiro é compartilhado por uma média de 82 pessoas.

Revolução negra, ajuda “humanitária” e opressão imperialista

Uma das manifestações mais trágicas do capitalismo nas Américas se dá através da lembrança da revolução haitiana após tragédias, como a do furacão Matthew. Não pela lembrança em si, afinal a revolução liderada por Toussain L’ouverture deve ser sempre rememorada, homenageada e estudada, pois em muito a nos ensinar. A tragédia ganha forma na medida em que o país negro que combateu a escravidão e lutou por sua independência – que era a única maneira de garantir o fim do cativeiro – ganhe atenção mundial, ainda que módica, fruto de índices de pobreza e quando há desastres como o último furacão. É assim pois França e, rapidamente, Estados Unidos, se esforçaram por oprimir o país negro e impedir que seu exemplo se alastrasse ao continente. A pergunta que fica no ar é: o que significaria para o imperialismo se o Haiti fosse uma ilha próspera? Se não sofresse as consequências de séculos de opressão imperialista, que se expressa, entre outras maneiras, nos índices de pobreza?

O outro lado da opressão imperialista se faz sentir na ajuda “humanitária”. “Ajuda” que muitas vezes ganha corpo em ONGs, em sua maioria ligada ao imperialismo norte americano – é sintomático que o Haiti seja o país com maior número de ONGs per capita, que transformam o sofrimento do povo haitiano em um grande negócio. Para além dessas entidades, existe também a iniciativa do governo brasileiro de envio de barracas, como solução para o problema de moradia no Haiti após o furacão, porém esse tipo iniciativa tem sido utilizado desde o terremoto em 2010, onde apesar de terem sido reparadas, reconstruídas ou construídas cerca de 37.000 casas, sendo que o terremoto destruiu mais de 250 mil residências. A principal ajudada dada para suprir esse déficit é de montagem de acampamentos e barracas ou subsídios para aluguel, o que aumentou a especulação imobiliária nessas regiões. Parece que em seis anos desde o último desastre natural que assolou o Haiti pouco ou nada mudou e a ajuda enviada segue sendo provisória e nada efetiva.

Este ano completou-se 12 anos da ocupação militar no Haiti e o saldo é de uma estrutura extremamente fragilizada e despreparada para lidar com incidentes naturais da magnitude do Matthew, o que nos leva a questionar o papel das tropas brasileiras neste contexto, sendo que não foi utilizada para fortalecer e preparar o país para este tipo de situação, tendo focado em instruir as forças de repressão internas, como a polícia e a guarda nacional. Um soldado brasileiro, que esteve em serviço pela ONU no Haiti após o terremoto de 2010, relatou ao ED que não entendia aquela missão como um projeto humanitário, pois ao invés de mecânicos, engenheiros, cientistas construtores, etc, o exército apenas enviava mais e mais soldados para o país. O problema de moradia e saneamento básico, que já eram uma crise antes do terremoto em 2010, se tornou ainda mais uma questão chave para a realidade haitiana, tanto que diversos conflitos da população com o exército brasileiro da ONU e com a polícia local se deram devido aos processos de reintegração de posse. A área chamada de Canaã, uma ampla área considerada de uso público nos arredores de Porto Príncipe, capital do Haiti, cresceu exponencialmente desde o terremoto e acomoda mais de 200 mil pessoas. Lá, as pessoas constroem suas casas o melhor que podem e têm buscado maneiras, frequentemente precárias, de ter acesso à água, gestão de resíduos e segurança. Muitos residentes de Canaã vivem sob a ameaça de remoção forçada. Nesse cenário, ainda segundo a Anistia Internacional, centenas de famílias foram removidas à força do centro de Porto Príncipe em maio de 2014 com a finalidade de desalojar a área para a construção de edifícios da administração pública. O “verniz” falso de ajuda humanitária do Brasil se revela como apenas uma forma do governo brasileiro seguir como líder do projeto de opressão ao povo haitiano em troca de ganhar pontos frente ao governo estadunidense, garantindo que o povo haitiano siga pelo caminho que foi desenhado pelos Estados Unidos: um balde de recursos e mão de obra barata. A ajuda humanitária, nesse modelo, é sentida de verdade através da bala e da violência sexual, e não com escolas, fábricas, moradia digna e um regime político que realmente atenda às necessidades dos haitianos.

Para podermos construir uma campanha efetiva contra o abandono em que se encontra o Haiti, devemos unir as forças das organizações de esquerda, dos movimentos sociais, entidades sindicais e estudantis em uma forte onda de solidariedade que avance para além das demonstrações virtuais no Facebook e na internet em geral, mas nos mobilizar pela arrecadação de alimentos, roupas e acima de tudo de uma política pública de assistência real ao Haiti.




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