Teoria

99 anos da Revolução Russa

As brancas noites de Petrogrado e a Revolução Russa

Em que medida a Revolução Russa foi um fenômeno de massas?

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 21 de outubro| Edição do dia

Enquanto o capitalismo existir, sempre haverá quem fale da Revolução Russa como alguma coisa feita de cima para baixo, na base do putsch, sempre haverá quem olhe para aquela heroica vitória dos trabalhadores e pobres urbanos e rurais através da lente deformada do que foi o stalinismo e pelo olhar dos “liberais” do capital.

No entanto, todos os jovens de hoje que resolverem pensar com a própria cabeça, vão descobrir outra realidade, oposta pela raiz à narrativa oficial, se se ocuparem de ler depoimentos vivos, de época, a começar pelos de John Reed [Os 10 dias que abalaram o mundo], N. Krupskaya, Victor Serge [Ano I da Revolução Russa] e de historiadores qualificados como E. H. Carr [A revolução bolchevique]e tanta gente que acredita no poder dos trabalhadores quando estes se levantam.

A Rússia revolucionária, antes de ser banhada por rios de sangue e tempos de privações extremas, provocados brutalmente pela invasão militar das grandes potências “democráticas” do imperialismo, vivia uma realidade, de efervescência de massa, de iniciativas dos trabalhadores e camponeses pobres sem qualquer paralelo. Era como se aquelas massas rebeladas estivessem se assumindo, pela primeira vez, como sujeitos do próprio destino. Esses elementos e tantos outros, as universidades do nosso tempo, os livros escolares e a grande mídia, em coro, procuram, sistematicamente, fervorosamente, esconder do público jovem. Não podem aceitar que um outro mundo é possível e, muito menos, através de que métodos e de que sujeito político tal mundo é possível.

O mais surpreendente, o mais inesperado e o mais comovente da Revolução Russa, para além das marchas e atos públicos, era a intensa vida democrática em cada bairro, em cada um dos comitês de base que se formavam todos os dias, mal o proletariado percebeu que estavam se dando as condições, para assaltar os céus e impor um governo seu.

As noites de Petrogrado, de Moscou, de tantas cidades espalhadas na Rússia eram outras, se transfiguravam, tantas e tão multicoloridas e ardentes eram as vozes que saiam das sombras e das masmorras do trabalho escravo e que clamavam: acabo de me dar conta do meu poder, abram caminho para que nós, os eternos explorados, possamos ser livres ... pelas próprias mãos!

John Reed estava lá.

E vem dele o relato vivo:

“Os soldados lutavam com os seus oficiais e aprendiam se auto-governar através dos seu comitês. Nas fábricas, os comitês de empresas e outras organizações adquiriam experiência e força e compreensão em sua missão histórica na luta contra a velha ordem. Toda a Rússia aprendia a ler e efetivamente lia livros de política, economia e história. Lia porque as pessoas queriam saber ... Em cada cidade, na maioria das cidades próximas os núcleos de cada partido político tiravam seus periódicos e às vezes vá¬rios periódicos. Milhares de organizações imprimiam milhares de folhetos políticos, inundando com eles as trincheiras e as al¬deias, as fábricas e as ruas da cidade. A sede de instrução tanto tempo freada deu passagem ao mesmo tempo que a revolução a forças espontâneas. Os primeiros seis meses da revolução apenas a partir do Instituto Smolny eram enviados a todos os confins do país toneladas, caminhões e trens de publicações. A Rússia devorava material impresso com a mesma insaciabilidade com que a areia seca absorve a água. Nada daquilo era fábulas, não era história falsificada, diluída pela religião, não era propaganda barata e corruptora, mas sim teorias sociais e econômicas, filosofia, obras de Tolstoi, Gorki”. (...)

Falar em Revolução Russa é, portanto, falar do papel fundamental das massas. E procurar entende-lo e ter consciência que ao longo do século, em sucessivas ondas, massas inteiras se levantaram na mesma perspectiva. Não era um fenômeno “russo”. Por isso a lição e a experiência russa são atuais.

O depoimento da companheira de Lenin, Krupskaya, quando ia para as ruas madrugada afora, pode ser reencontrado em outros povos revolucionados, que apenas não puderam construir sua direção política proletária a tempo:

(...)“naqueles dias as ruas apresentavam aspecto interessante, em todas as partes reuniam-se grupos e discutiam calorosamente a situação política e os acontecimentos. Eu acostumava mergulhar na multidão e escutar. Uma vez estive caminhando mais de três horas desde a rua Shirokaya até a mansão de Kshesinsky, de tão interessante que eram as conversas. Havia um quintal na casa, e com a janela aberta de noite, escutávamos intensas discussões; eram velhos soldados que se sentavam ali e falavam com a cozinheira, com as empregadas das casas vizinhas. A uma da madrugada ainda se ouviam palavras mais altas: bolcheviques, mencheviques ... As três da madrugada: Miliukov, bolchevique ... Às cinco da madrugada, a mesma coisa: política e assembleias. As brancas noites de Petrogrado agora estão misturadas com essas reuniões noturnas”.

Que os mal-informados ou os privilegiados continuem, a partir de sua zona de conforto, propagando mentiras, calúnias e desinformação, é fácil de entender e de prever.

O que é preciso, no entanto, do nosso lado, de parte dos jovens que despertam suas inquietações para a política de mudança, contra a falta de oportunidades e a desigualdade reinantes, que haja uma atenta procura pelo resgate daquela experiência imperdível para nossa formação acadêmica.

A única saída para a juventude que desponta inquieta, Brasil afora, desde as jornadas de junho de 2013 até as escolas ocupadas às centenas, é apropriar-se do verdadeiro relato, da história revolucionária dos oprimidos quando resolvem ser sujeito coletivo. E a partir daí, procurar conformar uma consciência que, para além de rebelde e inquieta, seja de classe, revolucionária, assumindo como seu o programa e o projeto de lutar por um governo, finalmente, dos trabalhadores.

As citações acima constam do livro a ser reeditado, A Revolução Russa: 1917, o ano da tomada do poder, com prefácio de Christian Castillo, Iskra/Centelha, no prelo.

Crédito de imagem: http://www.quarterly-review.org/20th-century-tumbrils-the-first-victims-of-the-bolsheviks/




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