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FRANÇA

As bailarinas da Ópera de Paris enfrentam a reforma da previdência de Macron

A orquestra e o balé da Ópera de Paris, que estão em greve contra a reforma previdenciária de Macron, se apresentam gratuitamente na véspera de Natal.

Juan Andrés Gallardo

Buenos Aires | @juanagallardo1

quinta-feira 26 de dezembro de 2019| Edição do dia

Quando as expressões artísticas e a luta de classes convergem, se pode ver belos momentos como o que os parisienses e turistas puderam ver nesta terça-feira (24) na esplanada da Ópera na capital francesa.

Os bailarinos da Ópera de Paris ofereceram um show de rua gratuito na véspera de Natal como uma forma de protesto contra a reforma da previdência que o governo Macron quer aplicar para acabar com os "regimes especiais" que beneficiam sua categoria.

Os pedestres da rua de Paris puderam apreciar, na entrada do prédio, um trecho do balé "Lago dos Cisnes" e A Marselhesa, o hino nacional francês, tocado pela orquestra sinfônica dessa instituição.

Atrás da apresentação duas grandes faixas penduradas nos arcos da Ópera, reivindicavam a greve e colocavam que a cultura "está em perigo".

O regime especial para os membros da Ópera de Paris é um dos mais antigos da França. Foi concedida por Louis XIV, em 1698, e permite que os bailarinos se aposentem aos quarenta e dois anos e os músicos com sessenta anos.

A reforma da previdência do presidente Emmanuel Macron, que quer unificar em um único sistema universal por pontos os 42 diferentes regimes atuais. Os trabalhadores da Ópera Parisiense temem perder seus direitos, bem como centenas de milhares de trabalhadores que possuem o regime especial de aposentadoria, para que sejam obrigados a trabalhar em regimes insalubres como vem sendo proposto também para os ferroviários, bombeiros, professores, entre outros.

Os protestos na França, contra os planos do Executivo, começaram em 5 de dezembro e tem como linha de frente os trabalhadores do setor de transporte ferroviário dentre outros trabalhadores que terão o regime especial de aposentadoria atacada. Apesar das tentativas do governo e da traição de um setor das diretorias sindicais que tentavam romper com a greve antes do feriado, os trabalhadores da base recusaram-se a conceder uma trégua de Natal e continuaram suas ações. A isso se somam os cortes de energia aos setores de alta renda, delegacias e prédios do governo pelos grevistas da empresa de eletricidade e o voto dos trabalhadores da refinaria para interromper completamente a produção em algumas das fábricas da região nos próximos dias.

No caso dos trabalhadores da Ópera, desde o início da greve, pelo menos 45 apresentações foram canceladas, o que afeta as grandes produções, como o príncipe Igor, que arrecada cerca de 360.000 euros em bilheteria todas as noites.

Mas não é apenas a Ópera de Paris, os trabalhadores da Opera de Lyon também podem ser vistos em um vídeo feito durante o cancelamento da ópera Le Roi Carotte devido à greve. Neste vídeo, os funcionários explicam o movimento de greve bem como a pressão da gerência para conter sua luta.

"Senhoras e senhores, desde o dia 5 de dezembro, milhões de pessoas marcharam por toda a França para exigir a retirada da reforma da previdência. O movimento não enfraquece, pelo contrário, encontra um novo fôlego nesta semana. Nos últimos dias, todos os setores de atividade (médicos, culturais, professores, transporte) mobilizaram massivamente, porque a política de austeridade do governo também ataca a cultura e os trabalhadores da cultura também são afetados pela reforma da previdência, muitos teatros e óperas da França tiveram suas apresentações canceladas nos últimos dias. Nossa direção nos pressionam a mudar a representação ocorrida ontem, nos impedindo de continuar visivelmente com essa mobilização. Por isso, relutantemente, os funcionários decidiram não se apresentarem esta noite, em apoio à greve ".

No vídeo, é possível ver que uma parte dos presentes vaiou os grevistas. No entanto, as redes sociais estavam cheias de saudações e apoio aos trabalhadores, incluindo trabalhadores da cultura, um setor muito precário que hoje já possui pensões de miséria.

Também em Bordeaux, muitos técnicos e funcionários da Opera entraram em greve, cancelando as diversas apresentações do espetáculo Cinderela. Neste a gerência também fez todo o possível para evitar a greve, tentando realizar a apresentação sem decoração, sem iluminação e sem parte da equipe da recepção.

Entre todos esses atos de luta, sem dúvida, a apresentação do Lago dos Cisnes em Paris, foi o mais impressionante. É que, apesar dessa precariedade compartilhada entre todos os trabalhadores da cultura, é raro ver movimentos de greve deste setor e que incluem todo o pessoal. Em geral as greves são feitas pelo pessoal técnico e outros funcionários do teatro.

É por isso que o fato dos bailarinos e bailarinas da Ópera de Paris se juntarem ao restante do pessoal da Ópera na greve é algo sem precedentes. É um sinal pequeno, mas poderoso, de que o movimento para combater a reforma de Macron está longe de acabar e enfraquecer.




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