Internacional

GUERRA COMERCIAL DURANTE CORONAVÍRUS

As acusações de Macron e Trump à China sobre o gerenciamento da pandemia

As acusações mútuas feitas pelos "grandes" deste mundo prenunciam um aumento nas rivalidades entre os poderes. Após a batalha de narrativas pela resolução da crise, a questão da rivalidade surge em um mundo atolado em uma crise econômica.

segunda-feira 27 de abril| Edição do dia

Os Ministérios das Relações Exteriores da Europa e da China estão exercitando ofensas verbais repetidamente. Com a revisão do número de mortos na cidade de Wuhan - o regime concordou em aumentar para 1.290, elevando o número de mortos para 4.632 em todo o país - , ocasionou no aumento das suspeitas sobre o número real, que certamente foi subestimado. Abriu, assim, uma lacuna que as grandes potências imperialistas não deixaram de aproveitar.

Não sou eu, é ele!

Quando Trump anunciava no Twitter quase diariamente que tudo estava sob controle (até que, de um dia para o outro, não estivesse mais), ele se permitiu "agradecer particularmente ao presidente Xi", mas agora o tom mudou muito. A partir deste momento, Trump questiona a capacidade da China de reagir ao surgimento do vírus e aponta para o regime chinês como o principal responsável pela disseminação da pandemia. De fato, os diferentes líderes do mundo não hesitam em estimular a xenofobia ao invés de se redimirem de seus erros, e isso acontece nos dois lados do Pacífico. Na China, as comunidades africanas são especialmente estigmatizadas por iniciativa do regime, levando os líderes africanos a pedirem explicações ao embaixador chinês na Nigéria. Se o regime tenta defender a ideia de uma origem americana do vírus, Trump joga a carta "vírus chinês", em uma retórica de luta contra o estrangeiro da cidadela sitiada.

É neste contexto que a Casa Branca volta a especular as origens do vírus. Os jornais europeus saltaram nas notícias, de uma maneira mais ou menos sensacionalista, mas são forçados desde as primeiras linhas a admitir que nada sabiam. O Washington Post foi quem chegou aos telegramas diplomáticos americanos, que em 2018 aludiram a possíveis falhas de segurança no National High-Leve Biosafety Laboratory em Wuhan, um edifício construído por uma cooperação franco-chinesa, que fornece serviços trabalhando em doenças infecciosas. Outro laboratório geograficamente mais próximo do mercado de animais, do que se acredita, por enquanto, ser o ponto de partida da epidemia após a mutação do vírus, também está trabalhando em morcegos portadores de coronavírus. As insinuações de Mike Pompeo (secretário de Estado, transformado em detetive "exaustivo" nesta história), ou de Peter Navarro (que fez uma declaração falsa na televisão: que desde o final de fevereiro a China bloqueou a exportação de máscaras para os Estados Unidos), assistente econômico do Gabinete Executivo da Casa Branca e famoso por sua hostilidade particular à China na guerra comercial em curso entre os dois Estados nos últimos anos, não deu a menor prova da hipótese de uma fuga do vírus, acidental ou não, de um laboratório. Mark Esper (Secretário de Defesa) ou o general Mark Miley foram forçados a suavizar o discurso, porque a transmissão de animais continua sendo a principal hipótese.

A China censura os Estados Unidos, que se tornaram o epicentro da pandemia, por desviar a atenção e pedir desculpas pelo gerenciamento deplorável da crise pelo governo Trump. Uma das vítimas colaterais dessas tensões é a OMS. Os Estados Unidos decidiram congelar sua contribuição financeira, julgando-a sinófila demais. Como sempre em tempos de crise, as organizações multilaterais internacionais criadas pelas potências imperialistas são as primeiras a pagar quando as tensões mundiais crescem, especialmente entre as potências que criaram essas instituições para melhor impor seu domínio no mundo, em diferentes aspectos. Nesse sentido, esse "congelamento" do financiamento da OMS é um fato importante que marca uma ruptura na ordem mundial.

Nestas coordenadas, é Emmanuel Macron que tenta se posicionar no cenário internacional e tenta reunir o mínimo de atores possível para atrair a simpatia da comunidade internacional e parecer desempenhar um papel determinante. Macron, cujo governo representa o neoliberalismo senil desde a sua eleição, tenta reviver os mortos e se diz, como explicado no relatório do Financial Times, "otimista" pelo renascimento de um novo multilateralismo. O cadáver ainda não está frio e Macron já pensa que pode ser ressuscitado com a ajuda de simples correções. Na operação, no entanto, ele consegue conquistar a simpatia da OMS e participa da organização de futuras reuniões dos "grandes", acima de tudo, de um possível Conselho de Segurança da ONU. Ghebreyesus agradeceu a Macron por sua "liderança mundial". Ele também atacou o regime chinês por sua falta de transparência, em resposta ao Financial Times que o questionou pela eficácia das democracias ocidentais contra o autoritarismo da China ou da Rússia: "Evidentemente, coisas aconteceram que não são conhecidas". Essa crítica, que poderia ser direcionada ao seu governo, também ocorre após um incidente entre o embaixador chinês e Jean-Yves le Drian, este último citou o embaixador após a publicação de artigos no site da embaixada que atacaram o gestão de crises pelo governo francês.

Dominic Raab, secretário de Estado britânico das Relações Exteriores, também comentou esses episódios, afirmando que "perguntas difíceis devem ser feitas" a Pequim. No entanto, a "diplomacia de máscara" posta em prática pela China impõe restrições aos líderes ocidentais que, para defender o caso francês, certamente dependem de máscaras, mas também da cooperação da China na África para alcançar o objetivo de uma moratória sobre as dívidas de vários países (o que é uma grande fraude, já que nada mais adia a dívida e evita a falência e uma catástrofe humanitária nos países dominados pelo imperialismo).

Por trás das acusações, os planos para o "depois"

Na realidade, além de uma certa "diplomacia de máscara", é uma diplomacia de "fake news". Para ser preciso, é uma diplomacia simples e as "fake news" são apenas um capricho recente de Trump ou Macron, que expressam ao mesmo tempo uma recuperação real das rivalidades interestatais, mas também de sua surpreendente capacidade de ter pouca inteligência. Lenin, em sua época, evocou a Liga das Nações como um "covil de bandidos". Omissão discreta, mentira e manipulação são atributos da diplomacia capitalista e o mais astuto seria aquele que poderia, em toda essa história, designar o mais mentiroso.

Porque, embora a China evidentemente subestime o número de mortos e tenha tentado silenciar o vírus através da mídia, as principais potências imperialistas fizeram o mesmo, por isso ou pelas máscaras, pelos testes, pela capacidade sanitária etc.

De fato, por trás desta ou daquela frase, ou desta ou daquela informação que alimenta todos os delírios de conspiração que são nutridos por um mal-entendido da situação como um todo, ou por limitações em um nível parcial dos conflitos que podem enfrentar a situação nas principais potências, devemos tentar nos aproximar um pouco dos problemas e conflitos reais que possam existir. Essa guerra verbal esconde, acima de tudo, uma profunda preocupação com as transformações que a crise econômica e sanitária causará no capitalismo e na divisão mundial trabalho.

O equilíbrio que as principais potências imperialistas parecem começar a fazer é ter cometido o erro de colocar todos os ovos na mesma cesta: na China. A ruptura da cadeia de suprimentos por qualquer motivo, aqui é a de uma crise de saúde, pode acarretar grandes tensões, o exemplo mais atual é a competição pela compra de máscaras. Consequentemente, há algumas semanas, a burguesia internacional, líderes políticos, economistas e empregadores aludem à realocação de certas produções. Cada um tem sua apreciação: estratégia, soberania nacional regional, protecionismo, etc. Longe de ser uma certa concessão às classes populares, essa política não passa de uma reorganização tática da burguesia. Mais precisamente, a burguesia internacional, que não conseguiu afastar sua atração por mão de obra barata e qualificada, como a proposta pela China.

Mais do que realocação ou repatriamento, é mais justo falar em reorganização de certas produções. Assim, as potências imperialistas poderiam optar por sacrificar vantagens comparativas aos riscos geopolíticos. Reduzir a dependência econômica de um poder específico pode se tornar sua palavra de ordem. Nesse sentido, eles poderiam reorganizar algumas produções em outros países asiáticos (como o Vietnã, país que há vários anos é visto como o futuro "workshop do mundo"), mas também nos países da América Latina ou do Magrebe.

"Realocações", conflitos e diversificação geográfica da produção?

Há um século, o capitalismo mostrou até que ponto era capaz de ir na barbárie para conquistar mercados fora de suas fronteiras nacionais, estreitos demais para serem implantados à vontade. Desde então, e com outros ataques de terror, ele se espalhou por todo o mundo. Acreditar que um retorno ao capitalismo das fronteiras nacionais é possível, e até desejável, é um sonho perigoso, uma ilusão cheia de consequências para as classes populares e a classe trabalhadora. Vendo apenas a realocação de algumas indústrias e a "soberania" sobre essa ou aquela produção (os capitalistas são soberanos de seus meios de produção, não importa em que país estejam, e os trabalhadores não são soberanos na França, na China, Brasil ou Estados Unidos), é fechar os olhos para todo o resto do processo.

Uma medida protecionista envolve perdas de mercado para alguns, que não se deixam ficar sem dizer nada e respondem com medidas protecionistas, numa relação de forças firmemente sustentada pelas potências imperialistas. O protecionismo de uma nação como a França ou os Estados Unidos, implica a submissão dos países que domina (e antes de tudo, a classe trabalhadora desses países) e o aumento da competição e da rivalidade com os outros poderes. Sem recorrer a realocações no solo nacional dessas potências, podemos imaginar tirar proveito de seu quintal, a América Latina, para o gigante americano, por exemplo. Contudo, os capitalistas não desprezarão as vantagens da exploração da classe trabalhadora chinesa e tentarão recriar essas condições em outros países. Disso poderia derivar uma política que visa acentuar o ajuste, austeridade brutal em vários países, incluindo golpes abertos contra governos "progressistas", como ocorreu na Bolívia. Situações que viriam a incendiar a combatividade que está surgindo nos trabalhadores. A inconstância militarista já está começando a se expressar se pensarmos no exército enviado por Trump às costas da Venezuela, ou mesmo nas declarações do Ministro das Forças Armadas da França, que disse que o renascimento da economia aconteceria através da produção militar.

Este é o "mundo de amanhã" que a burguesia imperialista prepara. Tem medo das revoltas que a crise econômica possa provocar enquanto a situação mundial já é caracterizada por um despertar da luta de classes. As pressões políticas internas e econômicas devido a uma crise que só pode ser comparada à de 1929 (se não for mais grave) estão forçando os capitalistas a refletir mais sobre os riscos políticos de interrupção da produção do que em saídas econômicas de curto prazo. Todas essas escaramuças verbais entre chefes de Estado já anunciam as reconfigurações econômicas do capitalismo. Na guerra comercial que já estava enfrentando os Estados Unidos e a China, e diante de uma situação de dependência e aumento da influência chinesa, esses avisos visam ser um meio de disciplinar a China e também de se preparar para uma diversificação de centros de produção.




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