Mundo Operário

OLIMPÍADAS DA CRISE

As Olimpíadas da precarização do trabalho

Desde antes da abertura das Olimpíadas, diversas denúncias sobre trabalho precários nas obras e dentro dos Parques Olímpicos vêm aparecendo, mostrando os verdadeiros bastidores das Olimpíadas da crise.

Iaci Maria

Belo Horizonte

quinta-feira 11 de agosto| Edição do dia

Essas Olimpíadas têm lançado várias novas modalidades esportivas, bastante competitivas, onde o Brasil mostra ser ouro desde antes da grande abertura. Já mostramos aqui a ótima modalidade “apagamento de tocha”, que expressava muito bem a revolta da população com o governo, que investiu bilhões no megaevento enquanto a educação e a saúde no Rio de Janeiro e no país todo eram abandonadas às traças. Agora está lançada a modalidade “precarização do trabalho”.

Antes mesmo das Olímpiadas começarem, em meio a finalização das obras, o Comitê Rio 2016 foi multado pelo Ministério do Trabalho por irregularidades, com trabalhadores que estariam sem seus direitos garantidos, sem carteira assinada ou contratos temporários e com carga horária acima da permitida. Conforme as delegações foram chegando, funcionários das obras na Vila Olímpica, contratados pela empreiteira Oderbrecht, que estavam com os salários atrasados começaram a boicotar as obras em forma de protesto.

Já publicamos também aqui e aqui duas denúncias sobre os trabalhadores terceirizados que chegavam a trabalhar até 15 horas por dia, embaixo de sol, sem receber nem comida decente nem água, comendo biscoitos, pão com salsicha, mas tendo o valor da alimentação descontado dos salários.

E dia após dia, a grande mídia mostra timidamente alguma nova denúncia da ultra exploração do trabalho dos terceirizados e dos voluntários em todos os parques olímpicos. Trabalhadores que são obrigados a comer o mesmo fast food todos os dias, trabalhando mais de 10 horas diárias sem hora extra, além da falta de transporte dentro do parque olímpico, pois os ônibus disponibilizados pelo Rio-2016 são apenas para imprensa e voluntários, os terceirizados devem fazer longas caminhadas no sol para chegar em seus postos de trabalho e ainda encarar a péssima infraestrutura, que não possui áreas de descanso. Outro absurdo ocorrido foi a carta enviada pela Coca-Cola, pedindo que se limitasse a quantidade de refrigerante distribuído gratuitamente aos voluntários (que, diga-se de passagem, já trabalham de graça), pois estes estavam pegando muitas garrafas – lembrando que eles trabalham mais de 10 horas embaixo do sol do Rio de Janeiro, sem áreas cobertas de descanso.

Segundo o Ministério do Trabalho, o número de trabalhadores nessa situação irregular nos Jogos Olímpicos chega a 6,5 mil. Além dessa questão das jornadas, alimentação, estrutura inadequada, a fiscalização também constatou que os funcionários temporários foram contratados pela lei número 6.019, de 1974, que dispõe sobre trabalhos temporários em empresas urbanas, o que não segue a CLT, que tem previsão de trabalho temporário e, portanto, retira a garantia de benefícios como pagamento de PIS e indenizações.

Tudo isso mostra que a calamidade no Rio não está apenas do lado de fora dos portões dos Parques e Vila Olímpica, nas filas de hospitais e educação sucateada, mas mesmo do lado de dentro, o ouro fica com o trabalho precário, superexplorado e humilhante dos voluntários e terceirizados.

Apenas uma “desorganização” de quem nunca sediou as Olimpíadas?

Sempre que procurada por reportagens, a organização do Rio-2016 vai tentando sair pela tangente, diz que isso é parte das dificuldades de organizar um megaevento que nunca aconteceu no país, que vai fiscalizar as empresas, que estão buscando “compensar” os trabalhadores pelo trabalho escravo – esse é o real nome que se da às horas extras que não serão pagas.

A verdade é que é tudo uma grande máfia. As famílias da empresa responsável pela alimentação dos trabalhadores, a empresa responsável pelas obras e o Comitê Rio-2016 estão todos interligados entre si. Emílio Odebrecht Peltier de Queiroz é dono da Team Foods, empresa responsável pela alimentação é neto de Norberto Odebrecht, fundador da Odebrecht – empresa responsável por parte das obras e protagonista de escândalos de corrupção ligados à Lava Jato – e filho do ex-marido de Marcia Peltier, que hoje é casada com Carlos Arthur Nuzman, que por sua vez é o presidente do Comitê Rio-2016, o responsável pela contratação das empresas de alimentação e de construção que, não por acaso, são a Team Food e a Odebrecht, respectivamente. Difícil acompanhar? Tudo bem, eu desenhei pra ficar mais fácil.

Entretanto, pelas regras do Comitê Olímpico Internacional e do Rio-2016, é proibida a contratação de funcionários, consultores ou empresas relacionadas com diretores da organização. Porém, com uma autorização especial de um dos membros da cúpula – e, por que não, do próprio presidente da cúpula – os contratos podem ser assinados em situações extraordinárias. Vemos aqui que essas “situações extraordinária” expandiram-se para todas as principais contratações. E segundo declara o Comitê Rio-2016, não há nenhum conflito de interesse nessas contratações.

A máquina olímpica de lucro

As Olimpíadas, desde o início das obras, tem sido uma grande máquina de lucro. Aos empresários, aos patrocinadores, à Coca-Cola, à COI, à Team Food, à Odebrecht, à Globo... Mas aos trabalhadores é oferecido trabalho em condições próximas à escravidão. Sempre se fala sobre o legado dos megaeventos, tentando convencer a população de que todos saem ganhando quando o país é sede. Mas o que a cada dia mais o que se mostra é que o verdadeiro legado é a miséria na saúde, na educação, o desemprego, o trabalho precário.

Como disse Carolina Cacau, que é professora da rede estadual do Rio de Janeiro, estudante da UERJ e também pré-candidata a vereadora do Rio pelo MRT, "Neste momento de crise econômica, e com o grande aumento de desemprego no país, é natural que a população veja como uma oportunidade os postos de trabalho criados para garantir os Jogos Olímpicos. Mas o que pouco se fala é que esses trabalhos são o espelho do aumento de emprego criados nos 13 anos do PT no poder pela via da terceirização, flexibilização do trabalho e principalmente das leis trabalhistas. Ou seja, o que está por trás disso são as péssimas condições de trabalho, carga horária superior á determinada por lei, baixos salários e nenhum tipo de proteção aos trabalhadores. Isso ainda piora por grande parte desses trabalhadores não terem perspectiva de manterem seus empregos após o término das olimpíadas. A prefeitura e o Governo do Estado não tem nenhum plano para realocação desses trabalhadores, que em setores como Construção civil tem previsões de demissões em massa colocando dezenas de milhares de trabalhadores novamente no desemprego".

O Esquerda Diário quer continuar dando voz à essas trabalhadoras e trabalhadores e denunciar todos esses absurdos acontecidos nos bastidores dos Jogos Olímpicos e as convenientes alianças entre empresas envolvidas em escândalos de corrupção e que superexploram o trabalho com o Comitê Rio-2016. Envie sua denúncia para o email esquerdadiario@gmail.com que seguiremos publicando as denúncias.




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