Cultura

ARTE & CULTURA

Arte de esquerda e mitologia pop

É inquestionável o fato do desenvolvimento dos meios de comunicação de massa ter, na história contemporânea, derrubado barreiras entre a produção artística e a classe trabalhadora: numa sociedade em que a reprodução de cópias substitui o culto ao único objeto artístico, a arte não se fundamenta na religião mas sim na política(Benjamin). No horizonte das massas que circulam pelas grandes cidades capitalistas, a arte não habita as torres de marfim e passa agora a inserir-se na realidade política da classe trabalhadora.

Afonso Machado

Campinas

segunda-feira 26 de novembro| Edição do dia

No final do filme Doutor Estranho(2016), adaptação cinematográfica do célebre personagem dos quadrinhos, o super herói prende o vilão Dormammu em uma eterna repetição do mesmo instante. Este último se rende e retira da terra seus seguidores malignos. Apropriando-se desta imagem e fazendo uma analogia, encontramos talvez o mundo sonhado pela burguesia: o ato da compra prolonga-se eternamente, o dinheiro dita a eterna repetição do mesmo ato. Caminhando por entre espaços reais ou navegando em lugares digitalizados, estamos imersos nas ruínas fabricadas pelo capitalismo. Sabemos inclusive que os objetos espalhados pela indústria cultural também possuem os seus clássicos: se um afresco que remete à antiguidade clássica foi encontrado em Pompeia na semana passada, uma revista em quadrinhos também pode ser uma outra preciosidade encontrada em outras escavações. Não existindo fronteiras entre a cultura erudita e a cultura pop, qual seria o espaço de atuação da arte política?

É inquestionável o fato do desenvolvimento dos meios de comunicação de massa ter, na história contemporânea, derrubado barreiras entre a produção artística e a classe trabalhadora: numa sociedade em que a reprodução de cópias substitui o culto ao único objeto artístico, a arte não se fundamenta na religião mas sim na política(Benjamin). No horizonte das massas que circulam pelas grandes cidades capitalistas, a arte não habita as torres de marfim e passa agora a inserir-se na realidade política da classe trabalhadora(a experiência estética escancara seu papel político no enfrentamento da ideologia dominante, convertendo-se em veículo para abalar tradições e promover a crítica que contribui com a transformação da sociedade). Porém, a coisa toda não tem sido tão fácil assim. Além do fato da “ arte de esquerda “ só conseguir projeção numa conjuntura em que o movimento operário possui força política, existe uma perturbadora cilada histórica: a dominação do capital sobre a cultura gerou, nas últimas décadas, produtos que tornam-se hoje clássicos; e estes mesmos produtos são cultuados, se fixam na memória, nas emoções da população.

Vivemos num mundo em que Pernalonga é uma autoridade e Mickey Mouse um mito. James Bond caminha diante do alvo de uma arma por várias gerações, que cultuam os filmes do agente secreto inglês. Cultuar, depositar energias que revelam adoração, num filme que logo irá sair de cartaz? Nestas velozes ligações entre museus invisíveis e templos portáteis nas camisetas e nas fantasias dos fãs, o impacto estético não é simplesmente volúvel: ele é duradouro(porque é repetitivo, é martelado em nossas lembranças) e está no centro dos sentimentos coletivos quando Batman ou Superman surgem para salvar pessoas indefesas, para salvar uma cidade e logicamente seus negócios, interesses comerciais, hábitos e costumes que formam a civilização capitalista(ocidental apenas? Não, pois os super heróis japoneses também são cultuados). Não podemos ignorar a eficácia ideológica das fábricas de mitos, até porque vivemos na mesma realidade das massas que os consomem, os idolatram. Pensemos no grande criador de super heróis, o norte americano Stan Lee, recentemente falecido. O autor que bolou clássicos dos quadrinhos(Homem Aranha, Hulk, Thor , Homem de Ferro etc) apresenta um legado capaz de unir gerações de pais e filhos no culto às experiências estéticas dos super heróis que voam de um lado para o outro em revistas, filmes, jogos de vídeo game, canecas de café, camisetas etc. Não precisamos gostar disso e mesmo interpretando/denunciando os valores imperialistas que um super herói norte americano expressa, não podemos deixar de prestar atenção nestes ícones que são mais populares do que nossas próprias referências artísticas e políticas.

A atual geração de militantes de esquerda não pode em hipótese alguma ignorar o peso que personagens de quadrinhos, desenhos animados, filmes comerciais e telenovelas possuem sobre a cultura consumida pelos trabalhadores. Como é sabido, foi-se o tempo dos preconceitos em que gibi era coisa de guri: não estamos mais na época em que uma professora primária recrimina o “ Luizinho “ ou o “ Marquinhos “ por estarem lendo uma revista em quadrinhos do Tio Patinhas. Os quadrinhos são merecidamente entendidos hoje enquanto um gênero artístico que possui complexidade, podendo ser inclusive expressão de crítica social. A própria telenovela, que já foi muito esculhambada como gênero menor, hoje possui seus clássicos com direito a análises de historiadores. O mesmo podemos dizer de fenômenos musicais que foram pichados pelos “ bem pensantes “ . Quem pode negar que uma banda de punk rock, como os Sex Pistols por exemplo, foi perturbadora em sua época? O jazz, num passado recente, foi um gênero marginal, mas hoje não “ pega bem “ um intelectual pequeno burguês ignorar a importância musical de artistas como Charlie Parker. É preciso insistir, como muitos críticos já demonstraram, que existe um movimento dialético na cultura contemporânea em que aquilo que era tido como algo “ duvidoso “ em sua época torna-se posteriormente um “ clássico “.

Mas o que este artigo sugere afinal de contas? Será que a saída está em criar versões de esquerda do Tarzan ou do Pica Pau, para se comunicar com as massas? Nada disso. O importante é seguir o conselho de gente como Maiakóvski, que soube articular poesia e arte gráfica para elaborar formas artísticas voltadas para a difusão. Como já foi dito aqui em outros artigos, fundamental é prestar atenção em Bertolt Brecht que com o seu teatro inseriu, no ambiente das encenações, a realidade cultural do proletariado alemão do início do século passado(cerveja, charuto, boxe, jazz, cabaré etc) para promover a reflexão política. Como falar em arte política sem levar em conta os elementos culturais que compõem a vida dos trabalhadores? Se isso for ignorado, corremos o risco de levar para a torre de marfim o legado de Maiakóvski ou Brecht(e convenhamos: os caras iriam ficar emputecidos).

Olhemos sem medo para a mitologia pop, encaremos a cultura como ela é para podermos transformá-la. A palavra de ordem ainda é POLITIZAR A ARTE. Trata-se de uma evidência histórica. Precisamos colocar nossos próprios meios de produção cultural para funcionarem a todo vapor; e não basta fazermos obras engajadas para que o trabalhador seja apenas espectador/leitor: os trabalhadores precisam apropriar-se dos meios de produção existentes para escreverem, fotografarem, filmarem e mostrarem que não precisam ser salvos pelo Capitão América.




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