Teoria

ARTE E REVOLUÇÃO

Arte Revolucionária Independente no Brasil

O Manifesto Por uma Arte Revolucionária Independente, foi publicado no Brasil em 1946 por iniciativa de Patrícia Galvão (Pagu), Mario Pedrosa e outros de forma independente. Será que essa publicação possui alguma relevância histórica no Brasil?

Afonso Machado

Campinas

sexta-feira 22 de julho de 2016| Edição do dia

O Manifesto Por uma Arte Revolucionária Independente, redigido por André Breton e Leon Trotski na Cidade do México em 25 de julho de 1938, foi publicado no Brasil no dia 22 de fevereiro de 1946 nas páginas do jornal Vanguarda Socialista. Patrícia Galvão, Mário Pedrosa e outros socialistas independentes estavam envolvidos na iniciativa de traduzir e publicar este libelo que reabilita as relações arte e revolução. Será que a publicação deste documento no Brasil possui alguma relevância histórica? O manifesto de Breton e Trotski seria apenas uma curiosidade cultural do final dos anos 30, não apresentando maiores consequências para o debate estético travado pela esquerda brasileira nos anos 40? Não tenhamos dúvidas de que este acontecimento apresenta uma fecundidade histórica que, apesar de sufocada pela memória dominante, ajuda a redefinir o conceito de arte revolucionária no Brasil.

Sem maiores pretensões teóricas, a publicação do Manifesto Por uma Arte Revolucionária Independente no Brasil foi um dos pontos que tentei abordar no meu livrinho Modernidade e a Estética do Credo Vermelho: Sobre o Conceito de Arte Revolucionária no Brasil (1930-1949), publicado pela Editora ISKRA. Cheguei a ouvir da boca de gente que se reivindica marxista, que o texto de Breton e Trotski não trouxe nenhuma contribuição para a vida cultural brasileira, já que o manifesto só apresentaria validade na conjuntura pré Segunda Guerra Mundial, estando inteiramente ultrapassado no pós guerra. Visto que o manifesto da Federação Da Arte Revolucionária Independente não é do tipo que serve para embrulhar banana, é possível comprovar sua força teórica revolucionária no Brasil do pós-guerra: num momento em que a estética policialesca do Realismo Socialista sufocava via PCB (Partido Comunista Brasileiro) a literatura e as artes plásticas, apresentar e defender a arte revolucionária independente exprime um esforço que, apesar de marginalizado, revelou uma visão marxista original.

Evidentemente que o Manifesto Por uma Arte Revolucionária Independente é, em várias de suas passagens, refém de uma conjuntura histórica específica: a ameaça totalitária do fascismo e do stalinismo em 1938, que passavam seu rolo compressor sobre a arte e a literatura, deveria ser respondida por artistas revolucionários que zelavam pela independência intrínseca ao procedimento de criação artística. Sendo a plataforma de uma federação que tinha por objetivo reunir artistas de diversas correntes estéticas revolucionárias, o manifesto de Breton e Trotski inscreve-se num quadro cultural independente: o combate ao fascismo e às ilusões da democracia burguesa não implicava em baixar a cabeça para as diretrizes do jdanovismo. Mas, retirando algumas passagens datadas, o manifesto era de uma atualidade assustadora na segunda metade dos anos 40: perante a esquizofrenia ideológica da guerra fria, traduzida na produção da indústria cultural norte americana e na arte do Realismo Socialista, o texto era portador de uma análise marxista que devolvia/assinalava a dimensão revolucionária da arte.

Podemos inclusive afirmar que a relevância do Manifesto Por uma Arte Revolucionária Independente estende-se aos dias atuais: é recorrente encontrarmos nos raros debates culturais promovidos por organizações políticas que reivindicam o trotskismo, a presença do manifesto de Breton e Trotski. Definitivamente o fôlego teórico deste documento, quando relido e não aplicado mecanicamente, contribui para que possamos situar corretamente as implicações revolucionárias da arte, que não tolera ordens externas. Trata-se de um texto que é pensado à luz de novos contextos históricos. Entretanto, nos anos 40, a significação do manifesto era revestida de uma urgência para redefinir o que realmente poderia ser arte revolucionária. Patrícia Galvão, Geraldo Ferraz e Mário Pedrosa, por exemplo, estavam tomados por uma intensa atividade crítica que opunha-se às determinações ultrajantes do Realismo Socialista.

Foi sobretudo no jornal Vanguarda Socialista, que a crítica marxista independente cerrou fileiras contra o totalitarismo stalinista nas letras e nas artes. Quando eu estive com a cara enfiada no acervo de um verdadeiro oásis chamado Arquivo Edgard Leuenroth, na Unicamp, tive a oportunidade de ler os artigos deste importante periódico da esquerda brasileira. Como referiu-se Edmundo Moniz, que integrou o conselho editorial do jornal, esta publicação revelava que a teoria marxista poderia se desenvolver nos mais variados campos do conhecimento, tais como a economia, a política, a arte e a literatura. Centrando fogo nestas duas últimas, pude observar que os artigos do Vanguarda Socialista envolviam uma plataforma teórica marxista ancorada no manifesto de Breton e Trotski: além da tradução e publicação do manifesto, encontramos em meio a um vasto/fecundo material os explosivos artigos de Patrícia Galvão (alguns deles foram reproduzidos por Augusto de Campos no obrigatório livro PAGU: VIDA-OBRA).

É preciso salientar que Patrícia Galvão, entusiasta do manifesto de Breton e Trotski, exerceu a crítica literária numa perspectiva revolucionária independente: a truculência do PCB na vida cultural e a estética rasteira da literatura orientada pelo jdanovismo, eram os alvos que a escritora acertava em cheio. Enquanto que a artificialidade e o apelo publicitário capenga do Realismo Socialista petrificava boa parte das atividades literárias de esquerda, Patrícia defendia as conquistas expressivas da literatura moderna contra o oportunismo literário do stalinismo. É terrível que pouca gente tenha prestado atenção no fato da escritora ser uma importante combatente na luta contra o Realismo Socialista no Brasil. Além dela caberia destacar seu companheiro Geraldo Ferraz (os artigos do jornalista no Vanguarda Socialista sobre artes plásticas, são verdadeiras preciosidades) e, claro, Mário Pedrosa: enquanto crítico de arte mais porreta do pós-guerra, Pedrosa irá nas suas inúmeras atividades defender uma perspectiva estética que vai totalmente de encontro com as convicções da arte revolucionária independente.

Ainda existe em alguns setores da esquerda um lamacento apelo nacionalista nas artes, que no Brasil se confunde indevidamente com arte revolucionária. A influência subterrânea do manifesto de Breton e Trotski nas atividades intelectuais de gente como Patrícia Galvão, precisa ser investigada, debatida, pois trata-se de um importante elo histórico que ajuda a rescrever as relações entre arte e marxismo no Brasil. Ainda que não existam, aparentemente, registros sobre a adesão de artistas brasileiros ao Manifesto Por uma Arte Revolucionária Independente durante os anos 40, ninguém pode negar sua presença no combate ao stalinismo cultural. Trata-se de um território inexplorado, à espera de marxistas e artistas militantes que não enxergam as ideias artísticas revolucionárias do passado como algo embalsamado, mas como o início de um pavio que precisa ser aceso hoje.




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