Política

MARIELLE FRANCO

Arquivamento da investigação de Bolsonaros no caso Marielle revela o caráter racista da justiça

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes decidiu pelo arquivamento de dois pedidos para que o presidente Jair Bolsonaro e o filho Carlos Bolsonaro, vereador do Rio, respondessem por obstrução de justiça na investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco. A decisão mostra mais uma vez o caráter racista da Justiça.

quinta-feira 19 de dezembro de 2019| Edição do dia

Já se completam dois meses da denúncia do porteiro do condomínio dos Bolsonaros, na qual ele afirma uma possível relação entre os assassinos de Marielle e Carlos, dizendo que estes teriam passado pelo condomínio e ligado por interfone para Carlos no dia em que a vereadora foi assassinada. Tentando se proteger da denúncia, Carlos postou em seu Twitter uma gravação que deveria supostamente afirmar que ele não estava em casa nesse horário, mas a sua prova – ocultada da polícia não se sabe porque – reafirma justamente o oposto: Carlos estava em casa na hora em que foi procurado pelos assassinos de Marielle.

ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e PT (Partido dos Trabalhadores) apresentaram a denúncia de obstrução de justiça, implicando os Bolsonaros, pai e filhos, denúncia essa arquivada pelo STF (Superior Tribunal Federal) nesta terça-feira, 17/12. Seguindo o raciocínio de Gregório Duvivier e sua equipe no último vídeo do ano, são muitas as evidências de que, como mínimo, Bolsonaros não dizem tudo o que sabem, assim como são muitas as implicações já conhecidas da família no caso que seguem sendo ignoradas pela justiça federal e local.

Bolsonaros não são os únicos implicáveis. Witzel foi acusado pela família B de vazar as informações que implicariam o “Zero 2” no caso, mas está longe de ser isento. O próprio governador Witzel esteve no palanque junto a Daniel Silveira e Rodrigo Amorim na fatídica cena em que os posteriormente eleitos deputados federais do PSL quebram a placa com o nome de Marielle.

As investigações mais de uma vez esbarraram no nome do presidente e de seus filhos Carluxo, e talvez só não tenha sido mais por falta de profissionalismo investigativo. Afinal de contas, desde o início das investigações, passagens de câmeras de rua foram perdidas ou mal analisadas por falta de critério ou de ideia da polícia civil carioca, conforme admitiu o próprio delegado da polícia civil em entrevista ao UOL.

Os vídeos que mostravam os assassinos passando pelo portão do condomínio onde moram os Bolsonaros e Lessa – mais provável autor dos disparos contra Marielle e Anderson – poderiam ter sido vistos muitos antes caso esses erros não tivessem sido cometidos.

Dois dias antes de serem ouvidos em depoimento na delegacia de homicídios, já acusados do assassinato de Marielle e Anderson, a esposa de Lessa, Elaine Lessa, teria enviado foto de planilha escrita à mão que dizia que Elcio de Queiroz – o motorista cúmplice de Lessa no assassinato – teria tido acesso ao condomínio por permissão do “Seu Jair”, da casa 58.

Choca, com essas informações tão antecipadamente em mãos da polícia, saber que os áudios da portaria do condomínio, assim como imagens da entrada, não tivessem sido acessadas ou analisadas pela polícia antes de que o fossem por Carlos Bolsonaro, que até o momento da exposição dos materiais em suas redes sociais, era o único requerente desses materiais.

Entre a casa 65, do ex policial, e a 58, de Bolsonaro, ocorreram ligações incontáveis durante semanas a fio. Atribuídas ao suposto namoro de Renan – o zero 4 – e a filha de Ronnie Lessa (relacionamento negado por Bolsonaro), as ligações poderiam ter muito a contar sobre a amizade estabelecida entre as duas famílias, uma conexão naturalmente suspeita num caso como esse.

Para além disso, toda a atitude da família é um tanto duvidosa. Vizinhos de Lessa, afirmaram mais de uma vez que não o conheciam mesmo que a foto de Bolsonaro estampasse seu perfil do Whatsapp e que prováveis membros de sua milícia de Muzema – de onde saiu o carro utilizado no assassinato – tenham recebido honrarias na Assembleia Legislativa por autoria dele mesmo, Flávio Bolsonaro, o zero 1.

Não investigar a família Bolsonaro é uma afronta, e junto a outros casos, configura o que se pode chamar de “choque à direita das relações raciais”

É uma afronta sem tamanho. Com tamanhas conexões, deveria ser um choque às instituições da justiça que possa haver um presidente implicado na morte de uma vereadora, uma clara repressão à política livre. Mas isso pensando em geral, ou seja, em qualquer caso, seria assustador uma atitude como essa da justiça. Mas é mais do que isso.

Marielle e Anderson foram mortos em um momento de intervenção federal no RJ, num aumento exponencial dos casos de assassinatos de negras e negros pelas mãos do Estado, um momento em que muitas coisas que pareciam pesadelos se postularam como realidade. Em tempos de crise econômica e recessão, sofremos ao mesmo tempo um golpe parlamentar e um choque à direita nas relações raciais, afinal de contas, apertar os cintos das contas brasileiras exige mobilizar o ódio racial que é substrato de um país que super explora com base no racismo desde que foi nomeado Brasil. Marielle é uma das tantas feridas abertas desse golpe e é talvez um dos primeiros símbolos desse reapego institucional ao racismo explícito e incurável.

Desde sua morte, a justiça brasileira tem aprofundado lógicas racistas que, até então, se moviam de forma sorrateira contra os setores mais vulneráveis. Cito algumas:

prisão de Rennan da Penha por posar para uma foto com uma arma de papelão;
soltura da advogada Natália Burza Gomes Dupin, mediante pagamento de fiança para crime de racismo, que por lei é inafiançável;
soltura dos militares responsáveis pela morte do sambista Evaldo Rosa por 80 tiros;
investigações precárias e individualizadas sobre as mortes das crianças cariocas Kauan Peixoto, 12, Kauê Ribeiro, 12, Kauã Rosário, 11, Jenifer Gomes, 11 e Ágatha Félix, 8. Os policiais indiciados respondem em soltura e os crimes praticados, apesar de sob circunstâncias globalmente semelhantes, não foram englobados em uma mesma prática a ser criminalizada, de autoria do governo do RJ e da instituição polícia militar do RJ;
ausência de qualquer investigação séria no caso da morte pela polícia do menino Lucas Eduardo Martins, 14, de São Paulo.

Um 2020 de mais choques exige mais que lágrimas, é preciso uma fortaleza de todas as categorias estudantis e de trabalhadores contra o racismo

O racismo é uma ferramenta poderosa na mão do governo Bolsonaro para aplicar ainda mais ataques contra a juventude e a classe trabalhadora. É muito mais fácil convencer um trabalhador a receber salários menores quando a vida de seus irmãos e irmãs de classe vale menos ou nada.

Mas as vidas negras importam, e isso precisa ser dito em alto e bom som, numa única voz, por toda a classe trabalhadora brasileira e pela juventude. Junto da impunidade no caso Marielle e Anderson, estão matando nossas crianças e proibindo nossa cultura. Não podemos, nem nós nem nossos representantes, aprovar medidas como o pacote de Moro – votado por parlamentares do PT e alguns do PSOL – aceitar que governem nosso país militares treinados na matança contra o povo haitiano durante as ações de paz da Minustah – aos quais Lula segue se referindo com grande respeito.

Nenhum respeito a esses assassinos, nenhum acordo com o centrão racista e genocida. Qualquer unidade com essas castas do escravismo moderno brasileiro e continental exclui a unidade mais forte entre as massas brancas e negras por justiça à Marielle, às crianças negras com vidas roubadas. A verdadeira fortaleza de nossa luta é a unidade da nossa classe que se volta contra o racismo institucional, policial e militar com a decisão de que não misturamos bandeiras e não negociamos vidas negras, lutamos juntos contra a precarização do trabalho que ameaça todas as nossas vidas e contra o machismo e o patriarcado utilizados para aprofundar as diferenças que separam a nossa classe.

No entanto também fica comprovado que não podemos ter ilusão de que sem uma investigação independente que trabalhe em paralelo e controle todo o processo, será possível chegar a alguma verdade. A investigação do Estado deve ser acompanhada e fiscalizada rigorosamente por uma investigação que seja independente, composta por defensores notórios dos direitos humanos, sindicatos, familiares, parlamentares do PSOL, movimentos sociais e todos aqueles que, ao contrário da polícia e do judiciário, não tem rabo preso com os capitalistas, com milícias e nem nenhum interesse em deixar impune alguém que matou uma parlamentar negra e de esquerda.É urgente impor, através de uma grande mobilização, essa investigação independente para que assim a punição dos culpados seja efetivada.

As vidas negras importam, mais do que acordos com centrão e militares.




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