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Armênia: insurreição de massas derruba primeiro ministro Sargsyan

Na tarde da última segunda-feira, o recém-eleito Sersch Sargsyan renunciou ao cargo de primeiro ministro. Já de manhã centenas de soldados deixaram os quarteis e juntaram-se à manifestação dos estudantes. A renúncia é resultado de dias de protestos em massa e inaugura um período no Oriente Médio.

segunda-feira 30 de abril| Edição do dia

Na tarde da última segunda-feira, o recém-eleito Sersch Sargsyan renunciou ao cargo de primeiro ministro. Já de manhã centenas de soldados deixaram os quarteis e juntaram-se à manifestação dos estudantes. A renúncia é resultado de dias de protestos em massa e inaugura um período no Oriente Médio.

“Por fim estamos livre desse tirano”

Estas foram as palavras de um estudante, convidado a dar sua opinião no final de uma manifestação com 100.00 pessoas em um dia histórico, que mudará o país e a região para sempre. O que aconteceu? Os armênios vêm se manifestando contra o primeiro-ministro Sersch Sargsyan, do conservador Partido Armênio-Republicano, há quase duas semanas. Ele governou o país por dez anos como presidente e arruinou a economia. Agora, como primeiro-ministro, ele queria iniciar seu terceiro mandato em uma constituição especialmente modificada com novos poderes.

Por outro lado, formou-se um protesto, liderado pelo líder da oposição Nikol Paschinyan e em pouco tempo tornou-se uma insurreição de massas dirigida pela juventude. Há dias aconteciam manifestaões e bloqueios de rua por toda parte, sendo algumas dispersadas violentamente pela polícia e forças especiais. Na capital Jerewan muitas vezes o trânsito era paralisado, como resultado dos atos de desobediência civil da juventude que bloqueavam as ruas. Uma tática que é parte integrante da pacífica “revolução de veludo” de Nikol Paschinyan. Em muitos lugares tem surgido, porque as massas tem tomado iniciativas próprias, até bloqueando o trânsito com seus próprios carros.

Essa tática também tem se enfrentado com uma brutal repressão. Cerca de 200 pessoas foram presas diariamente, inclusive o próprio Paschinyan, junto a outros dois deputados de sua coalizão liberal Yelk. E isso, apesar de gozarem de imunidade como deputados. E não é só isso: as forças repressivas usaram gás lacrimogêneo e até mesmo granadas de efeito moral durante os confrontos mais intensos.

A prisão de Pashinyan durou apenas 24 horas quando ele foi libertado na manhã de segunda-feira. Esta segunda-feira, 23 de abril de 2018, ficará na história.

O povo toma o poder

Sargsyan, em uma breve entrevista com Paschinyan, indiretamente ameaçou os manifestantes com um novo 1 de março, que na Armênia é sinônimo da sangrenta repressão dos protestos em massa de 2008. Ele parecia intransigente e disposto a manter seu poder com mais assassinatos, se necessário. A prisão de Pashinyan cerca de duas horas depois parecia ser o começo de outro massacre. Mas o que se seguiu não foi a desintegração do movimento sem seus principais líderes, mas uma maior mobilização das massas. Apesar de todas os atos e manifestações terem sido proibidas e a polícia ter sido orientada a dissolvê-las imediatamente, uma enorme manifestação das pessoas ocorreu. Unidos pelo ódio contra Sargsyan e pelo domínio corrupto da oligarquia que ele representava, dezenas de milhares tomaram as ruas sem o líder da oposição, formando várias manifestações militantes que levariam à praça central da República. Embora a polícia quisesse antes bloquear a praça com um cordão de isolamento, encontrou na manifestação central cerca de 120.000 pessoas juntas. A partir de então, ficou claro que o governo não poderia reprimir o protesto facilmente. De manhã cedo, os estudantes anunciaram que não iriam aos seus seminários, mas iriam à greve e organizariam uma manifestação. O que se seguiu então mostrou definitivamente que o sistema

Sargsyan estava se desintegrando completamente: soldados deixaram centenas de quartéis e se juntaram às manifestações! Quando a manifestação passou inicialmente a ser liderada pelos estudantes de medicina, os soldados tomaram a linha de frente da espetacular manifestação. Em cânticos, eles convidaram todos os outros a se juntarem ao movimento:

A notícia provocou júbilo nas ruas de Erevan, em todos os lugares prevalecia a euforia e o clima de vitória. Ficou claro que isso era uma vitória do movimento - uma vitória fantástica das massas, sendo que os estudantes contribuiram para isso acima de tudo. Em todo lugar agora as pessoas se reuniam e lançavam-se aos abraços. Cerca de 500.000 pessoas estavam nas ruas aquela altura, a polícia havia se retirado completamente. Tornou-se inevitável que Sragsyan renunciasse, porque em 24 de abril, aniversário do genocídio dos armênios, ainda mais pessoas estariam nas ruas, tornando a situação incontrolável para o governo. Eles comemoraram o fim da era de Serzh Sargsyan, que explorou o país descaradamente e enriqueceu imensamente o círculo em torno de sua família, em um momento em que mais e mais pessoas estão deixando o país porque não vêem mais nenhuma perspectiva lá.

"Todos esses anos eles nos exploraram e agora devem devolver tudo", disse assim um jovem manifestante na manifestação central de encerramento. Paschinyan encontrou uma menção patética quando recordou o movimento de 2008: "Dedicamos esta revolução aos mártires de 1º de março". Ele visava a implementação das quatro exigências, incluindo um novo primeiro-ministro e novas eleições.

Antes porém, Karen Karapetyan do mesmo partido se tornará primeiro-ministro interino, na quartafeira haverá conversações com a oposição. Paschinyan anunciou que um novo capítulo está começando agora para a Armênia, que a "atmosfera de medo e vingança" deve ser encerrada.

A vitória de hoje das massas armênias significa concomitante uma vitória para todos os povos oprimidos da região, porque pela primeira vez desde a Primavera Árabe, com a derrubada do governo na Tunísia e no Egito, as massas exploradas e oprimidas podem novamente celebrar uma vitória. A situação continua tensa, ainda é 24 de abril até amanhã e a miséria na região e a raiva à classe dominante cresce. É uma vitória que ressoará muito além das fronteiras da Armênia, especialmente entre aqueles que sofrem sob o jugo do capitalismo e do imperialismo - pode ser uma vitória que esteja em permanente continuidade na Armênia e que encontrará sua continuição em outros países

Legenda do vídeo: Paschinyan e os outros deputados foram libertados e dezenas de milhares de pessoas se mobilizaram nas ruas quando Sersch Sargysan declarou sua demissão pouco antes das 3 da tarde.

Disponível na seção alemã da rede internacional de diários Esquerda Diário:
Klasse Gegen Klasse. Publicado originalmente em 24 de Abril de 2018

Tradução: Vânia Ornelas




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