Internacional

Eleições na Argentina

Argentina vai às urnas entre a crise econômica e uma América Latina convulsionada

As eleições deste domingo acontecem em um contexto de fortes tensões que cruzam a economia. Além disso, atrás das fronteiras acontecem rebeliões no Equador e no Chile.

domingo 27 de outubro| Edição do dia

Neste domingo, a partir das 8h, mais de 33 milhões de pessoas estariam aptas a votar na Argentina. A eleição não será apenas mais uma. Está atravessada pelas fortes tensões que atravessam a economia nacional. Além disso, acontece em um contexto marcado pelas rebeliões populares no Equador e no Chile.

Estão em jogo a presidência da nação e os governos dos estados mais importante do país: Província e Cidade de Buenos Aires. Além disso, serão eleitos deputados e senadores nacionais, legisladores estaduais, prefeitos e vereadores em diferentes distritos.

Seis competidores aspiram ao cargo presidencial: Mauricio Macri (Juntos por el Cambio), Alberto Fernández (Frente de Todos), Nicolás del Caño (Frente de Izquierda Unidad), Roberto Lavagna (Consenso Federal), José Luis Espert (Despertar) e Juan José Gómez Centurión (NOS).

Nas Eleições Primárias que aconteceram no último 11 de Agosto, Fernández obteve 47% dos votos, contra 31% de Mauricio Macri. Ainda que não se possa confiar plenamente, as estimativas de intenção de voto conhecidas indicam que este resultado é impossível de ser revertido.

Uma forte crise econômica e múltiplas tensões rumo ao futuro

A Argentina chega nesta eleições atravessada por uma forte crise econômica e social, resultado das políticas de ajuste aplicadas nestes últimos anos. No último um ano e meio, as mesmas foram levadas adiante sob as ordens do FMI. O organismo de crédito internacional, em troca de um empréstimo de US$ 57,5 bilhões, estabeleceu uma nova tutela sob o país que, com exceção da Frente de Izquierda Unidad, nenhuma força política questiona.

Os números da crise são expressivos e brutais. Uma pobreza que alcança mais de 16 milhões de pessoas, com uma porcentagem que supera os 35%. Um desemprego que, após mais de uma década, voltou aos dois dígitos, afetando mais duramente amplas camadas da juventude e de mulheres. Uma queda explícita nos níveis de consumo em múltiplos itens, inclusive os básicos como na alimentação e na vestimenta.

Macri pôde llevar adiante este duro ajuste graças à cumplicidade dos governadores peronistas e da direção sindical da CGT. Estes setores hoje estão envolvidos na Frente de Todos, apoiando a candidatura de Alberto Fernández.

Na “herança” macrista é necessário contabilizar o enorme endividamento externo. A Argentina enfrenta, nos próximos anos, pagamento de capital e juros que superam em muito os ingressos do Estado.

Essas tensões econômicas são evidentes cotidianamente. Nesta sexta-feira se deu uma nova subida do dólar, que levou a distância norteamericana ao seu marco histórico, a 65 pesos argentinos. Na mesma jornada, o Banco Central perdeu US$ 1.755 bilhões em reservas. Ao contabilizar desde as Eleições Primárias, esta cifra escala ao montante exorbitante de US$ 22.805 bilhões.

As quedas das reservas é um dos temas que mais preocupa a futura gestão de governo. No marco da decisão política de continuar os pagamento da dívida externa, implica menores margens na hora de negociar com os grandes especuladores internacional e o próprio FMI.

Presos aos interesses do grande empresariado

Com Nicolás Del Caño como única exceção, o conjunto dos candidatos presidenciais construíram campanhas destinadas a dar garantias aos grandes empresários. Durante os dois debates presidenciais ficaram evidentes semelhanças entre os diferentes programas na hora de avaliar saídas diante da crise. Ali, algumas promessas demagógicas se misturaram com declarações gerais.

A Frente de Izquierda Unidad denunciou a continuação do ajuste e do endividamento. “Macri se vai, mas o FMI e o ajuste ficam”, foi uma das consignas desenvolvidas em spots, panfletos e agitações. Neste marco defendeu a perspectiva de um programa para que a crise seja paga pelos grandes ganhadores do macrismo. Entre estes setores precisam ser contadas as petroleiras, as empresas de serviços públicos privatizadas e os grandes bancos.

Ao longo da campanha a esquerda também defendeu a continuidade da luta pelo aborto legal, seguro e gratuito, demanda elementar exigida por milhões de mulheres em todo o país. Esta foi uma das bandeiras defendidas por Myriam Bregman na Cidade de Buenos Aires, onde é candidata a deputada nacional. Se ela não entrar na Câmara Baixa, em seu lugar poderiam entrar três inimigos do direito ao aborto: Marco Lavagna (Consenso Federal), Pablo Tonelli (PRO) ou Eduardo Valdés (Frente de Todos).

Logo após as Eleições Primárias, Alberto Fernández implementou uma agenda destinada a aproximar as posições com o grande empresariado, buscando garantir futuros lucros. As reuniões com a UIA e a Fundação Mediterrânea se somaram pedidos para que cessassem as mobilizações das organizações sociais e dos movimentos de desempregados. Além disso, frente a cada microfone que teve em sua frente, o candidato peronista se responsabilizou de garantir o pagamento completo da dívida aos grandes especuladores e ao FMI.

Mauricio Macri, por sua vez, tentou instalar uma campanha épica, combinando promessas demagógicas, um discurso de direita sobre a “insegurança” e um chamado de mobilização aos seus partidários. Nada indica, no entanto, que isso seja capaz de alterar o resultado geral.

Ao longo da campanha, Roberto Lavagna apostou em um perfil técnico, relembrando seu papel como Ministro da Economia do governo de Néstor Kirchner. Este foi o esquema que tentou apresentar, com pouco êxito, nos debates presidenciais. José Luis Espert e Juan José Gómez Centurión apostaram em um discurso direitista e reacionário. Em um dos spots da campanha, o primeiro apostou em se localizar como a futura “oposição” a um eventual governo peronista. O segundo continuou trabalhando para chegar aos setores anti-direitos, difundindo uma mensagem de aprovação ao aborto clandestino.

Rebeliões populares

O novo governo chegará ao poder em um contexto marcado pelas rebeliões populares no Chile e no Equador. Para além dos limites que as diferentes direções impõe a essas enormes mobilizações que acontecem nestes dois países, os levantamentos significam uma grande contradição para as políticas de ajuste.

Por não mediar uma ruptura com o FMI e os grandes especuladores internacionais, o futuro governo argentino será obrigado a ajustar sob as maiorias populares. No contexto econômico internacional aparecem como muito limitadas as possibilidades de beneficiar, ao mesmo tempo, os grandes capitalistas e os setores do povo trabalhador.




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