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Argentina: grande mobilização contra o ajuste e coluna independente do sindicalismo combativo

O dirigente do Sindicato Caminhoneiros, Hugo Moyano, denunciou o ajuste do governo de Mauricio Macri mas não anunciou medidas para enfrentá-lo. Os sindicatos combativos e a esquerda participaram com uma importante coluna independente

quinta-feira 22 de fevereiro| Edição do dia

Milhares de trabalhadoras e trabalhadores se mobilizaram nesta quarta-feira (22) na Argentina contra as políticas de ajuste do governo de Mauricio Macri. A manifestação havia sido convocada pelo dirigente do Sindicato de Caminhoneiros, Hugo Moyano, e era apoiada por setores da Confederação Geral de Trabalhadores (CGT) e pelas diferentes alas da Central de Trabalhadores Argentinos (CTA), que representa os trabalhadores públicos.

O sindicalismo combativo, junto aos sectores que hoje estão em luta contra as demissões e junto aos partidos de esquerda, participaram da marcha com uma coluna independente exigindo um plano de luta sério e uma paralisação nacional para derrotar os planos de ajuste.

Em seu discurso, o principal do ato, Moyano denunciou o ajuste mas não anunciou medidas de luta para enfrentá-lo. Ante uma mobilização massiva, o dirigente caminhoneiro também rebateu as denúncias de corrupção feitas pelo governo. Os dirigentes sindicais kirchneristas como Yasky (trabalhadores estatais) ou Palazzo (bancários) reivindicaram Moyano e não colocaram em seus discursos a necessidade de uma paralisação nacional nem de um plano de luta, que foi a exigência que a esquerda e o sindicalismo combativo levaram em sua coluna independente.

Os oradores do ato foram Juan Carlos Schmid do Sindicato de Portuários e membro do triunvirato da direção em crise da CGT (enquanto Daer e Acuña – os outros dois membros – estiveram ausentes, assim como boa parte da CGT), Hugo Yasky e Pablo Micheli por ambas CTA, Sergio Palazzo, dirigente dos bancários, Esteban Castro da CTEP (Trabalhadores da Economia Popular), e fechou Hugo Moyano.

A esquerda e o sindicalismo combativo participaram de forma independente das cúpulas burocráticas dos sindicatos, como tinha sido votado no sábado passado no Encontro Nacional de Trabalhadores em Luta, convocado pela assembleia do Hospital Posadas.

Deste encontro, e nesta quarta-feira na coluna, participaram diversas expressões de luta em defesa dos postos de trabalho e contra o ajuste: mineiros de Río Turbio, açucareiros do Engenho La Esperanza, de diferentes categorias estatais, da alimentícia Cresta Roja, do jornal Hoy e da Pepsico, junto a demitidas e demitidos do próprio Hospital Posadas, assim como expressões do sindicalismo combativo, como as seções opositoras do Suteba (professores), a União Ferroviária - Seccional Haedo, o CICOP e o STS (saúde) e Ceramistas de Neuquén. O SUTNA (indústria de pneus), que não foi parte do encontro, nesta quarta-feira se mobilizou na coluna independente.

Também foram parte da coluna independente dirigentes políticos como Nicolás del Caño, Myriam Bregman, Nathalia González Seligra, Romina del Plá, Vilma Ripoll, Christian Castillo e organizações como o PTS, o PO, MST e outras.


Este setor foi encabeçado por uma bandeira que dizia "Reincorporação dos demitidos. Basta de ajuste. Paralisação geral e plano de luta".

Os discursos do ato

No entanto, os discursos do ato foram em um sentido contrário à exigência levada pela esquerda e o sindicalismo combativo. A tônica geral do ato foi muita denúncia e nenhum anúncio de medidas de luta para enfrentar o ajuste. Nisto coincidiram desde Moyano e Schmid até os kirchneristas Yasky e Palazzo.

O primeiro orador, o atual membro do triunvirato da CGT, centrou sua fala em denunciar a perda do poder aquisitivo dos trabalhadores e aposentados, em rechaçar a Reforma da Previdência aprovada e o mega decreto de Macri, assim como em defender Moyano.

Por sua vez, Sergio Palazzo afirmou que "violência" é roubar os aposentados, votar uma nova lei trabalhista, eliminar impostos aos ricos. Também expressou sua solidariedade com Moyano e disparou contra os dirigentes sindicais que decidiram não comparecer à marcha.

Por sua vez, Pablo Micheli afirmou que a marcha era para que se parem as demissões como as do Hospital Posadas, do Inti ou do Senasa, para que pare a entrega do país e os tarifaços. Foi o único em mencionar a necessidade de uma paralisação nacional, ainda que tenha feito com a postura de quem não tem força para convocá-la. Ainda assim, silenciou toda crítica a Moyano e sobre o fato de que as mesmas lutas que havia mencionado não puderam fazer uso da palavra.

Esteban Castro da CTEP falou pelos chamados movimentos sociais e centrou seu discurso em elogiar o Papa Francisco. Também reivindicou ter conseguido a lei de Emergência Social (sem fazer menção a que para isso assinaram a paz social com Macri).

Hugo Yasky tomou a palavra em seguida, e além de defender Moyano como perseguido, colocou Roberto Baradel do SUTEBA na mesma categoria. Celebrou a participação de pequenos e médios empresários, com um discurso de conciliação de classes, apesar de que nestas empresas os trabalhadores sofrem os mais altos índices de precarização do trabalho e superexploração. Fez também um enorme elogio ao moyanismo (depois de anos de opor-se a suas paralisações sob os governos de Cristina Kirchner) ao dizer que Pablo Moyano e Hugo Moyano "abriram um caminho impensado". Neste caminho, ao que parece, não está incluída uma paralisação nacional e um plano de luta para enfrentar o ajuste.

O discurso principal e de fechamento do ato foi, claro, de Hugo Moyano, que começou dizendo que a mobilização tinha sido decidida organicamente na CGT, e rebatendo as denúncias de corrupção "por agora".

Tentando criar uma mística, lembrou ter estado três vezes preso. Sobre os objetivos da mobilização, disse que era para dizer para o governo que "não siga levando adiante políticas que deixam famintas as partes mais sensíveis de nossa sociedade", como os aposentados e os trabalhadores.

Também dedicou trechos especiais de sua fala para dizer que "não viemos ameaçá-los, não somos desestabilizadores", ressaltando também que era "uma marcha pacífica onde viemos expressar sentimentos".

No entanto, revelando sua principal preocupação assinalou que "não tenho medo de ir preso, estou disposto a ir preso se assim diz a Justiça. Não tenho medo que me matem, estou disposto a dar a vida pelos trabalhadores, digo isso de coração por mais que outras pessoas falem e digam".

Deste modo, a demonstração de forças tentou ser uma mensagem para negociar desde uma posição de força seus próprios interesses pessoais, mas se negou uma vez mais a convocar uma paralisação nacional e um plano de luta para que as lutas vençam e para derrotar o teto das paritárias onde se negocia os salários. Nada estranho para quem durante dois anos ofereceu paz social a Macri apesar de um forte ajuste, e que antes tinha apoiado a candidatura do atual presidente.

Tradução: Francisco Marques




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