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Argentina: fazer 3.500 por dia custaria menos de 1% do que é pago em dívida externa

Até 100.000 testes de detecção de coronavírus podem ser realizados por mês. Isso custaria $400 milhões, apenas 0,2% do que o governo argentino pagou em dívida por mês. Até o momento, são realizados entre 180 e 330 testes por dia em Malbrán, perdendo na corrida de velocidade para controlar a propagação do vírus.

quarta-feira 25 de março| Edição do dia

As informações públicas sobre a capacidade do sistema nacional de saúde argentino (público e privado) para lidar com a pandemia de COVID-19 (coronavírus) são escassas ou nulas. Entre elas, informações sobre a capacidade de realização de testes no país, a disponibilidade de laboratórios, de equipamentos e o número de respiradores e leitos nos hospitais.

Ainda menores são os detalhes de qualquer plano abrangente de saúde emergencial, que vão além do isolamento obrigatório con el despliegue de forças repressivas.

Apesar desse bloqueio informativo, em consulta com técnicos e especialistas, fizemos um cálculo aproximado dos recursos necessários para aplicar a primeira ação urgente recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS): testes massivos de rápida detecção do COVID-19.

Com 35 centros de saúde atualmente em condições realizar os testes na Argentina, para realizar 100.000 exames mensais, ou 3.500 exames diários, seria necessário um investimento de $400 milhões de pesos argentinos (ARS), muito abaixo dos já escassos$1.700 milhões de pesos anunciados na semana passada como verba adicional para a saúde.

Para o cálculo realizado aqui, foi levado em consideração o custo unitário do teste. Este é o dado menos conhecido e divulgado. Alguns meios de comunicação, como o jornal La Voz, consideram que custaria $1.500 ARS por teste. Em outros, eles se referem a um custo individual no laboratório Lace de até $6.000 ARS (Infobae).

Em resumo, foi levado para a estimativa final um custo aproximado de U$57 por teste, tomando como referência o valor do mesmo no Chile, que é semelhante à média entre os dados coletados ($3.500 ARS por teste). No país em questão, o jornal La Tercera estima que para se realizar o teste de maneira particular custaria entre U$42 e U$70, enquanto fazê-lo de maneira pública diminuísse esse valor.

Comparado aos gastos do Estado, é um valor muito pequeno. Por exemplo, os $400 milhões ARS representam 7,4% do que foi gasto por dia em 2020 para pagar juros e capital da dívida, alto em torno de U$S 2.544 milhões em média, (dados do Ministério da Hacienda, ie. Ministério da Economia argentino), o que o mesmo, os 0,2 % que se pagou por mês. Inclusive se o custo de cada teste fosse superior ao estimado, seria possível enfrentar.

Da mesma forma, os $400 milhões ARS significam menos de 0,1% dos recursos que os ministros Martín Kulfas (Desenvolvimento Produtivo) e Martín Guzmán (Economia) anunciaram que destinarão ao resgate de empresas afetadas pela diminuição da atividade ($ 350.000 milhões ARS).

Já existe uma rede nacional de laboratórios para diagnóstico

O cálculo surge considerando-se à capacidade existente do sistema de saúde para realizar testes massivos, que também podem ser aumentados, se necessário. A Red Nacional de Influenza y Virus Respiratorio (Rede Nacional de Influenza e Vírus Respiratórios) possui 35 centros de saúde em todo o país, em condições de processar as informações dos testes COVID-19 (método RT-PCR para detecção dos vírus influenza A e B).

Esses centros foram reequipados em 2009 por causa da gripe H1N1 e, de acordo com um relatório da Administração Nacional de Laboratórios e Institutos de Saúde (ANLIS), “existe um painel de controle de qualidade enviado semestralmente pela OMS para avaliar o desempenho da Técnica de RT-PCR usada em tempo real para o diagnóstico e subtipagem de vírus influenza pelos Centros Nacionais de Influenza”.

O Ministério da Saúde é responsável é encarregado da compra anual de reagentes e suprimentos necessários para realizar o diagnóstico da gripe usando técnicas moleculares e o diagnóstico de vírus respiratórios. Os reagentes para o teste do COVID-19 chegam à Argentina através de poucas importadoras, incluindo a Roche, que em 2009 triplicou seus lucros globais por ser fabricante do medicamento Tamiflú, que foi usado para combater a influenza A.

Cada centro tem capacidade para realizar entre 60 e 100 testes diários e conta com equipe qualificada, segundo biólogos especializados informaram ao La Izquierda Diario. Em outras palavras, entre 2.000 e 3.500 testes diários podem ser realizados diariamente em todo o país, que é o número de testes realizados por dia na Coréia do Sul com o número de infectados que a Argentina possui hoje. Isso resultaria em isolamento seletivo, que demonstrou reduzir a propagação do vírus.

Quarentena sem testes massivos: estamos lutando às cegas contra a propagação do vírus

Fica evidente que não existe um problema de recursos econômicos para a realização dos testes massivos. Esse custo representa um valor irrisório em termos do orçamento do estado.

A detecção precoce e massiva se torna fundamental para impedir a propagação do vírus e é inexplicável que não seja sendo contemplada. Isso é urgente, pois é de conhecimento público que, em muitos casos, o vírus é assintomático e haveria muito mais infecções do que as relatadas ou suspeitas.

Até agora, os testes de coronavírus foram realizados exclusivamente no Instituto Carlos G. Malbrán, a uma taxa recente de 180 a 330 testes por dia. Inclusive, recentemente os laboratórios do LACE informaram que precisavam suspender o processamento de amostras para detectar o COVID-19 porque a comercialização dos reagentes foi interrompida de acordo com uma provisão do Ministério da Saúde para "centralizar" o diagnóstico.

Neste fim de semana, o Ministro da Saúde, Ginés García, anunciou que os estudos estavam começando a ser descentralizados em 6 províncias: Buenos Aires, Chaco, Santa Fé, Córdoba, Terra do Fogo e a Cidade Autônoma de Buenos Aires, mas seu progresso é lento em relação ao emergência de saúde.

Sendo uma característica distintiva da propagação rápida do vírus, até o momento foram realizados por volta de 1.500 testes, isso implica que possam existir muitos casos “positivos” que ainda não foram testados.

Segundo afirmam já mencionados pesquisadores de Malbrán, os testes são realizados em amostras de três dias, e existe um atraso entre os resultados conhecidos e a data atual devido à um gargalo. A partir desta semana, espera-se a chegada de 50.000 reagentes da China, além dos 15.000 existentes.

Então, por que a relutância do governo em realizar esses testes? Todos os especialistas concordam que, na fase de contenção, como é o caso da Argentina, cada dia que passa é crucial.

A quarentena em andamento e os testes massivos são ferramentas para reduzir a propagação, mas também para responder à pandemia será necessário um plano integral de saúde:

• Os recursos de laboratórios privados podem ser disponibilizados para esta emergência. Os laboratórios tiveram lucros de até 400% durante o Macrismo, por que não usar parte desses lucros extraordinários para financiar o que for preciso?
• Centralizar os recursos da saúde privada com a da pública, para uma utilização efetiva das camas e recursos da saúde, aumentando exponencialmente a força para dar respostas a esta crise.
• O fornecimento de itens básicos de higiene, como barbeadores, álcool em gel, sabão líquido. Podem ser acionadas empresas públicas e cooperativas, que já estão mostrando sua solidariedade.

Temos como exemplo os trabalhadores e trabalhadoras do Astillero Rio Santiago, que, juntamente com os alunos da UNLP (Universidad Nacional de La Plata) produziram álcool em gel, que poderá ser distribuído entre os vizinhos trabalhadores dos bairros de Ensenada (município da província de Buenos Aires).

Também como os trabalhadores da cooperativa MadyGraf, que juntamente com os estudantes da Universidade Nacional de San Martín, que se colocaram à disposição para produzir suprimentos diante dessa crise.

Mesmo se faltarem elementos mais complexos de larga escala, como os respiradores artificiais, por que não reconfigurar a produção de algumas fábricas para que, sob a gestão dos próprios trabalhadores, eles possam produzir e distribuir onde é necessário? Isso poderia ser feito, por exemplo, em grandes montadoras e outras grandes fábricas, como está sendo discutido na Europa.

Os trabalhadores estão se colocando à frente nesta crise de saúde. Mas estar em melhores condições requer disposição política para organizar todos os recursos de acordo com a vida de milhões ao invés dos lucros de alguns.




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