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Argentina: contra um ajuste recarregado, os estudantes multiplicam a luta

O conflito universitário entrou em sua quinta semana, enquanto o governo anuncia novos ataques.

sexta-feira 7 de setembro| Edição do dia

Na segunda-feira pela manhã se fizeram públicos os anúncios do presidente direitista argentino Mauricio Macri e seu ministro de Economia Nicolás Dujovne, confirmando o que já eram os rumores nos dias anteriores. Após a forte subida do dólar, que foi de 32 para 40 pesos entre a segunda e a quinta-feira e que já está causando uma aceleração da inflação que já supera 20% neste ano, o governo da coalizão de direitas Cambiemos anunciou que sua resposta será descarregar um ajuste ainda maior aos trabalhadores e pobres.

Mais recortes ao gasto público, reestruturação no Estado que implicaram milhares de despedidos, e a perspectiva de uma importante recessão econômica para os próximos meses. As patronais exportadoras, concentradas nos agronegócios, mineração e energia, celebram um novo ciclo de transferência da riqueza nacional e dos setores médios e baixos em direção ao capital mais concentrado.

Nos mais de vinte minutos que durou o discurso gravado de Macri, o presidente deixou claro que os ataques serão contra distintos setores. Mas algo não menos importante é que quando ele começou a nomear todas as necessidades que "não pode cobrir", o primeiro setor que ele nomeou foi o de professores universitários, dizendo que "ele adoraria" ser capaz de dar a eles tudo o que pedem.

O centenário partido radical UCR (Unión Cívica Radical), integrantes do Cambiemos, rapidamente deu seu apoio a estas medidas. Sua ala estudantil, Franja Morada, que dirige a Federação Universitária Argentina, muitas faculdades e universidades do país, tentou diferenciar-se por alguns dias nas assembleias e tomando a palavra no grande ato de protesto que se realizou dia 30 de agosto na Praça de Mayo. Mas na realidade, são os que aplicam o ajuste na Universidade Pública argentina.

Entre tanto, os docentes universitários seguem em luta. Embora um de seus sindicatos, Conadu, dirigido pelo kirchnerismo levantou as medidas esta semana, a Conadu História mantém a paralisação.

Na reunião da mesa nacional de negociação realizada nesta segunda, o governo levou a proposta de aumento de 24% para professores assistentes e 22% para os titulares a cobrar em outubro. A oferta foi rechaçada pelos grêmios de docentes, que pediam um aumento de 25,5% através de uma soma remunerativa e uma cláusula de revisão para outubro, e se passou para o quarto recesso até quarta-feira

No entanto, os anúncios do governo incluem continuar a afundar a educação pública, esse montante seria muito inferior à perda de poder aquisitivo que é projetada em mais de 40% para este ano.

Responder ao ajuste

O movimento estudantil segue de pé, vem de semanas de mobilizações enormes que encheram as ruas de todas as cidades do país. Esta semana continua. Desde a rede de agrupações En Clave Roja, presente em todo o país, a aposta é para confluir com os setores de trabalhadores em luta, coordenando de maneira democrática em assembleias e lutando contra o governo, o FMI e os especuladores. O objetivo é que o dinheiro não vá para a dívida externa fraudulenta nem para financiar a fuga de capital, que só na semana passada superou um bilhão de dólares, e excede os 50 bilhões desde que Macri assumiu em dezembro de 2015, e não para as necessidades das pessoas: saúde, trabalho, educação e habitação.


Córdoba: assembleia em Río Cuarto

Na segunda-feira (3), em Rosário houveram assembleias em massa em 9 faculdades da UNR e duas faculdades pré-universitárias. Se votou ocupar as faculdades por tempo indeterminado. A partir do En Clave Roja, se conduziu a proposta de realizar uma coordenação entre as casas de estudo conhecida como interfaculdades, para unir toda a força que se vem organizando e pegar com um só punho.

Em Psicologia, Direito, Medicina, Arquitetura, Engenharia e Humanidade se votou medidas para 5 de setembro nas humanidades as cinco da tarde.As gestões dos centros acadêmicos apoiadores do governo se opuseram, mas centenas de estudantes apoiaram a proposta e definiram a ocupação contra o ajuste de Macri, os governadores e a Franja Morada. Também se decidiu participar na terça dos atos em Fray Luis Beltrán e da paralisação regional contra o ajuste das Fabricantes Militares.

Irene Gamboa, militante do Pão e Rosas chama estudantes a participarem da inédita assembleia inter-universitária em Rosário, na Argentina

A Assembléia da Faculdade de Ciências Humanas do Comahue (Neuquén e Río Negro) votou por unanimidade a participação na Assembléia Aberta em defesa da gestão e apoio dos trabalhadores à Planta Industrial de Água Pesada (PIAP) e ao Estaleiro Río Santiago (Província de Buenos Aires), que contará com a presença de uma delegação do Estaleiro. Eles também decidiram propor um corte da Ponte Carretero ao lado dos trabalhadores em luta nas Interfaculdades de terça-feira. Finalmente, eles definiram a tomada da sede dessa mesma faculdade após a interfaculdades, chamada às três da tarde.

A Universidade de Jujuy debateu em assembleias da faculdade de Humanidades e convocou a realizar um corte nesta terça-feira na ponte de Lavalle junto a professores e estudantes de outras faculdades.

Em Mendoza, o movimento estudantil vem de uma marcha de 20.000 de estudantes e docentes na semana passada, onde exigiram “dinheiro para a educação, não para a dívida” e soou forte a reivindicação pela separação da igreja e do Estado. Na terça-feira, os debates circularam nas redes sociais sobre qual é a melhor maneira de enfrentar esse governo. Setores peronistas como La Soriano, Filosofia e Cartas de Unuyo, e AUN, também gestão de Filosofia e Letras e das Ciências Políticas, argumentaram que o que deve ser feito é levantar bem alto o slogan "hay 2019", para que "volta o peronismo, o de Cristina". A partir da Juventude do PTS, foram contestados de que as grandes mudanças sempre se fizeram nas ruas, e que vão lutar para que o movimento estudantil não só considere enfrentar o Macri, mas também derrotá-lo.

Na Universidade de Buenos Aires, Filosofia e Letras realizou uma assembleia de centenas de estudantes, e foi pronunciado "para derrotar Macri e o plano de ajuste promovido pelo governo e pelo FMI, com a cumplicidade do Partido Justicialista (peronismo) e da burocracia sindical. Não ao pagamento da dívida. Fora FMI e os especuladores. Para derrotar o orçamento de ajuste que Macri negocia com a oposição para 2019." Também se propôs preparar cortes e combates para dia 12 de setembro.

Em psicologia, a assembléia foi muito maior que as anteriores e expressou muita raiva contra o governo. Pela primeira vez em muitos anos, decidiu-se tomar as duas sedes desta faculdade. Isso ocorreu apesar do fato de as autoridades ameaçarem punir os professores que se juntaram às classes públicas. Na Faculdade de Ciências Sociais, eles decidiram ir para a esquina de Entre Ríos e San Juan para cortar a rua.

Esta quinta-feira se realizará a interfaculdades da UBA.

A luta educacional continua em meio à crise econômica e política, expressando uma ampla predisposição para enfrentar o ajuste realizado pelo Governo Nacional junto aos governadores peronistas. Na quarta-feira haverá uma marcha de estudantes do ensino superior que estão se mobilizando novamente contra o fechamento dos terciários para impor o projeto oficial da UniCABA.

Novos setores estão começando a se levantar contra demissões, como os estatais, que com o fechamento de ministérios estão começando a ser afetados. Cada ação onde confluírem o movimento estudantil e os trabalhadores em luta vai fortalecer uma união que pode se propor seriamente a derrotar os ataques.

Não se pode esperar o 25 de Setembro como dizem os dirigentes do sindicato dos trabalhadores da CGT, que convocaram uma paralisação apenas para essa data, muito menos as urnas para o grito de "hay 2019". É necessário debater em cada lugar como unir todas as lutas e lutar contra os ajustes com uma greve nacional e um plano de luta para derrotar os saques em andamento.

As diferentes interfaculdades convocadas para essa semana nas principais universidades do país são uma oportunidade para preparar a jornada de luta do 12 de setembro, onde a convocação do Estaleiro Rio Santiago e da central de trabalhadores CTA a cortes e mobilização seja somada pelos docentes, o movimento estudantil e todos os trabalhadores em luta, e se torne um primeiro passo para impor uma paralisação nacional e a greve geral.




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