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Argentina: Uma resposta auspiciosa da Izquierda Socialista à proposta do PTS de um partido unificado

Nos primeiros dias de outubro, o PTS (organização irmã do MRT na Argentina) propôs debater a necessidade de um partido unificado da esquerda socialista e revolucionária. Aqui, um comentário sobre a carta enviada pela Izquierda Socialista.

domingo 23 de dezembro de 2018| Edição do dia

Desde que Nicolás Del Caño fez a proposta no dia 6 de outubro passado no ato que fizemos do PTS no Estádio Coberto do Argentinos Juniors, nosso grupo apresentou duas cartas desenvolvendo a proposta. Enquanto uma delegação da nossa direção composta por Laura Liff e Christian Castillo realizou duas reuniões com delegações das direções do Partido Obrero e Izquierda Socialista (organização irmã da CST-PSOL na Argentina), com quem formamos a FIT, bem como, com uma delegação do grupo Auto-Determinação e Liberdade de Luis Zamora. Há alguns dias, recebemos uma resposta da Izquierda Socialista que consideramos muito auspiciosa. Publicamos abaixo a resposta que endereçamos aos companheiros da IS.

Aos companheiros da Izquierda Socialista (com cópia para o Partido Obrero):

Recebemos sua carta "Para um partido unificado: damos um passo para constituir a FIT em uma frente única revolucionária" em 12 de dezembro em resposta à nossa proposta para abrir a discussão para avançar para a criação de um partido unificado da esquerda revolucionária e socialista em nosso país.

Saudados como muito auspicioso que, como expressam em sua carta, levar a nossa proposta e se manifestem "abertos a discutir e coordenar todos os passos que podemos tomar para alcançar um partido revolucionário unificado entre o PTS, o PO e a Izquierda Socialista". De nossa parte, estamos de acordo com as propostas centrais sobre como continuar a discussão, através da formação de um Comitê de Coordenação entre as nossas organizações que se reúna regularmente e publicação juntos um boletim de discussão que publiquemos nos órgãos de difusão dos três partidos, se os companheiros do PO concordarem. Acreditamos que a resposta que nos enviam é um fato muito positivo, que elimina falsos argumentos, entre eles se a discussão sobre "partido unificado" ia em detrimento do fortalecimento da FIT. Pelo contrário, temos intervindo em conjunto em distintas instâncias, como as ações contra o Orçamento de 2019 ou a marcha e ato prévio contra o G20, em que deixamos clara a nossa demarcação não só o governo macrista mas das diferentes variantes do peronismo (incluindo kirchnerismo) que permitem a Macri avançar sua política de ajuste.

Sobre a FUR

Dito isso, não concordamos que seja uma expressão do que vocês chamam de Frente Única Revolucionária (FUR). Na tradição "morenista" esta abordagem, que temos criticado como oportunista há muitos anos, implicava que a partir de um "programa mínimo revolucionário" tomar medidas em comum com organizações que não têm necessariamente um caráter operário, socialista e revolucionário. Estes foram os casos de "A luchar" na Colômbia em meados da década de 1980 ou a formação do Partido dos Trabalhadores Zapatistas no México um pouco mais tarde com líderes populistas.

Em ambos os casos, essa política resultou em fortes reveses para os partidos que os implementaram, em particular para o PST colombiano que perdeu parte de seus dirigentes nas mãos das organizações que vieram do maoísmo. Nahuel Moreno havia definido em 1985, no primeiro Congresso da LIT, que a FUR foi a "tática privilegiada" para avançar a construção de partidos revolucionários com influência de massas, de caracterizar que produto da ascenso da luta de classes surgirem setores que seriam voltados para posições revolucionárias dentro das correntes maoístas ou guerrilleristas frente a pactos com os governos burgueses e direções imperialistas que estavam sendo implementandos por direções deste tipo na América Latina (especialmente na América Central) e em outras regiões.

Nada disso aconteceu e não é o que estamos propondo, que é abrir a discussão para a unidade entre os partidos que nos reivindicamos operários, socialistas e revolucionários da tradição da Quarta Internacional. Uma discussão em que procuramos envolver também os milhares e milhares de simpatizantes da FIT, em particular trabalhadores e trabalhadoras, mas também os estudantes que foram protagonistas dos processos de luta este ano, bem como as mulheres que se aproximam de um feminismo socialista e revolucionário, para que de todos esses setores surjam novas camadas de militantes que assumam como própria a construção do partido revolucionário de que a classe trabalhadora precisa.

Como vocês interpretam corretamente (ao contrário do que levantaram os companheiros do PO), não é um partido "amplo" com tendências permanentes nem um partido "anti-capitalista", em geral, o que estamos propondo, mas avançar para um partido revolucionário com o centralismo democrático, independentemente de reconhecer que este é um objetivo a alcançar e não algo que podemos impor por uma resolução organizativa, uma questão em que também concordamos.

Nossa proposta, como vocês reconhecem, baseia-se na existência de uma base de acordo programático que é a própria FIT, que, embora limitado, vai muito além dos princípios gerais que Moreno propôs como a base de um "programa mínimo.revolucionário". Estes eram: independência dos sindicatos do Estado em todos os países do mundo; democracia operária em todos os países do mundo; total e absoluta desconfiança da burguesia em todos os países do mundo; nenhum apoio para qualquer governo burguês em todos os países do mundo; contra a diplomacia secreta em todos os países do mundo; contra a entrega à polícia burguesa - ou qualquer policia - e contra a tortura em qualquer país do mundo. Como dizíamos na primeira carta que enviamos em 13 de Outubro desde a FIT "vínhamos levantando uma alternativa de independência de classe, lutando contra todas as variantes patronais, com base em um programa que culmina na luta por um governos dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo, que é a única solução básica que pode terminar com o atraso e a decadência nacional".

Mas, além do esclarecimento teórico-estratégico sobre nossa posição sobre a FUR, insistimos em que saudamos e coincidimos com a proposta de formar um Comitê de Coordenação dos partidos que integram a FIT que se reúna regularmente e com a implementação de um Boletim de discussão pública para discutir nossas diferenças e como seguir avançando. Esperamos que os camaradas do PO pronunciem-se favoravelmente para podermos implementar essas medidas.

Sobre como revolucionar as organizações de massa

Com base nessa concordância, queremos nos referir às diferenças que vocês mencionam na sua carta. Nela, dizem concordar com nossa proposta de "revolucionar sindicatos e organizações de massa". Apontam que para vocês "ter uma política revolucionária para mobilizar o movimento operário é combater tanto o oportunismo sindical quanto o sectarismo e o divisionismo diante de nossos inimigos comuns". Uma política revolucionária não é apenas fazer propaganda anti-capitalista e socialista, mas, essencialmente, ter uma política para promover a mobilização, a auto-determinação democrática dos trabalhadores para o triunfo das lutas na perspectiva de uma greve geral e para varrer a burocracia sindical peronista dos sindicatos. Para este fim, promovemos a democracia operária, as assembleias de base e os órgãos ou plenárias dos delegados com um mandato básico; não dividir nas lutas sindicais e eleitorais contra a burocracia; ir em listas de oposição anti-burocráticas únicas, unindo em primeiro lugar as forças dos três componentes da FIT nas listas e nos organismos conquistados. Impulsionar sem qualquer sectarismo o sindicalismo anti-burocrático e combativo".

No entanto, não mencionam os pontos notáveis como chave para avançar neste terreno, que são ter desde os sindicatos ou organizações de base que conquistam uma política consequente de unidade de fileiras dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, hegemônica entre outros setores, e que os dirigentes sindicais atuem como verdadeiros "tribunos do povo". Os exemplos em que entramos em listas separadas em sindicatos que vocês mencionam não são como eles são apresentados. Na ATEN, não fomos nós que assumimos a divisão da oposição à chapa Celeste kirchnernista (ver "Eleições na ATEN: um balanço necessário"). E no caso da eleição ao Corpo de Delegados da Seccional Haedo da União Ferroviária, também os companheiros de PO faziam parte da lista de oposição que foi formada com a recusa da lista Bordó a se abrir na eleição de delegados a outros setores que mantemos críticas à condução do "Pollo" Sobrero, sem que isso signifique, de alguma forma, algum tipo de comparação com a burocracia peronista da lista "verde". Nossa crítica a "Pollo", sem dúvida, uma referência muito importante do sindicalismo militante e que sempre defendemos contra os ataques do Estado, da patronal e da burocracia, são claras: não se comprometer na luta dos terceirizados em sua própria seccional e ter declarações públicas com definições conciliadoras do Estado capitalista e da relação trabalho-capital em que discordamos e embelezamento da fração moyanista da burocracia sindical.

Mais em geral, o que acreditamos que deve ser discutido são as consequências de argumentar que a proposta de "novas direções" (que inclui acordos com setores não-classistas) como algo estratégico (como consta na convocatória para o Plenário de Lanus) ou, caso contrário, algo circunstancial. Do nosso ponto de vista, a adoção da primeira posição leva a uma adaptação ao sindicalismo como ele é, com uma visão corporativa. Esta crítica não fazemos apenas para vocês, mas para os camaradas do PO por sua atuação na condução da SUTNA, que se adaptaram a uma prática onde a democracia dos trabalhadores foi cerceando chegando até a negar a palavra e agredir quem, sendo parte do Comissão Diretora como nossos companheiros da Lista Granate e os da Lista Roja tem críticas às posições da Lista Negra, a qual o PO integra com setores que se reivindicam peronistas. Implica também uma reflexão sobre os motivos pelos quais o SUTEBA que conduzimos juntos na lista Multicolor, que defendemos como uma conquista anti-burocrática, não conseguiram superar em militância e capacidade de mobilização às regionais e seções sindicais conduzidas pela burocracia kirchnerista da lista Celeste de Baradel. Não concordamos com a naturalização desse fato, justificando-o apenas como um produto de condições objetivas. Finalmente, um debate semelhante corresponde a como agir em organizações do movimento estudantil, onde os companheiros do PO acabaram de fazer uma frente comum na FUBA com os kirchnernista, uma questão que criticamos tanto o PTS e como a IS, e formamos uma lista alternativa defendendo a independência política da esquerda frente aos seguidores de Cristina e a necessidade de refundar a federação estudantil esvaziada.

Sobre alguns debates internacionais

Finalmente, em alguns pontos para discussão na arena internacional. Entre os temas a serem discutidos estão "Balanços e conclusões sobre os governos de conciliação de Classe de Chávez (Venezuela), Ortega (Nicarágua) e Lula-Dilma (Brasil)". Coincidimos que este é um ponto de debate em que acreditamos que a discrepância não é muito no balanço destes governos, mas em delinear a política imperialista contra eles, e o uso por setores do judiciário ligados ao imperialismo dos casos de corrupção para fortalecer variantes mais diretamente ligadas ao grande capital, como aconteceu com a Lava Jato no Brasil, questão que a incorporação de Sergio Moro ao Gabinete de Bolsonaro expressa claramente. Por isso acreditamos que a posição que vocês sustentam está para trás até mesmo do que era tradicionalmente o "morenismo" que, ao contrário do Partido Comunista, lutou contra a proscrição de Perón (que entre outras coisas, também foi acusado de vários casos da corrupção) e do peronismo durante o "regime de libertador" imposto com o golpe de setembro de 1955.

O outro grande ponto é a posição diante de alguns dos processos que foram abertos com a chamada "Primavera Árabe", particularmente em face da guerra civil na Síria. Aqui uma revolta popular legítima terminou em uma guerra civil sem campos progressivos para a classe trabalhadora, com Al Assad aliado à Rússia e Irã e, por outro lado, a Turquia e os Estados Unidos financiando o Exército Sírio Livre e outras forças insurgentes, incluindo os setores islâmicos muito reacionários. Esta divergência, onde vocês apoiaram as forças contrárias a Al Assad mesmo quando se tornaram aliados do imperialismo estado-unidense, acreditamos que tem a ver com a questão mais geral que nos leva à discussão sobre a "teoria da revolução democrática" que vocês defendem e as críticas que fizemos à mesma partir da teoria da revolução permanente.

Avancemos

Esses pontos que propomos simplesmente adiantam algumas das discussões que temos que desenvolver no Boletim que fizermos em comum. Tanto a situação nacional como a internacional só reforçam a necessidade de levantar a relevância estratégica de construir um partido unificado da esquerda revolucionária e socialista, discussão em que, como assinalamos, queremos envolver milhares de simpatizantes da vanguarda operária, estudantil e do movimento de mulheres que se desenvolveu nesta etapa. Ao mesmo tempo, estamos nos preparando para 2019, onde a intervenção na luta de classes será combinada desde o início do ano com a luta no campo eleitoral, com base no cronograma de desdobramento de numerosas eleições provinciais. Temos o desafio de intervir de forma audaz e decidida nesses cenários, enquanto realizamos os debates que nos permitam dar um novo salto na construção da ferramenta revolucionária que permita que os trabalhadores derrotem seus exploradores. O que chamamos de "o quarto saque" está em andamento. Avancemos nos debates para construir a ferramenta que pode pará-lo.

Com saudações revolucionárias, Direção Nacional do PTS

20 de dezembro de 2018




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