Economia

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Argentina: Quatro chaves para entender a crise e a “superdesvalorização” do Peso

Em dias de caos econômico, para muitos trabalhadores é difícil compreender o que dizem (e ocultam) os meios de comunicação, os economistas e os formadores de opinião. Temos aqui uma síntese dos principais aspectos.

segunda-feira 3 de setembro| Edição do dia

Texto original do La Izquierda Diário

1) Déficit fiscal:

As contas do Estado, para simplificar, são determinadas pela diferença entre o que se arrecada e o que se gasta. Elas estão no vermelho há anos. Isto porque se arrecada menos do que o que se gasta. O governo de “Cambiemos” põe a culpa em uma suposta gastança descontrolada para pagar aposentadorias, professores, financiar a educação universitária ou pagar os trabalhadores da saúde.

Mas o certo é que uma parcela central do orçamento público é o gasto com os juros da dívida pública que vai para as mãos dos especuladores: mais de 15% de todo o orçamento público. Por exemplo, essa porcentagem equivale ao dobro de tudo que se gasta com a educação. E essa porcentagem ainda vai crescer graças ao novo endividamento com o FMI. Não pagar a dívida liberaria enormes recursos para finalidades sociais.

Os acordos com o FMI (já está sendo preparado um segundo, em menos de três meses, graças ao fracasso do primeiro acordo) buscam abastecer o país de dólares para garantir os pagamentos da dívida. Não será investido um Peso na educação, saúde, previdência e outros programas sociais.

Além disso, o orçamento público beneficia muitos setores empresariais com deduções fiscais. O Governo apenas faz menção aos gastos, mas a verdade é que também pode aumentar a arrecadação. Porém não quer fazer (ou apenas o faz de forma muito limitada) para não afetar os lucros patronais.

Ao contrário, no início de seu mandato Maurício Macri retirou deduções fiscais dos exportadores (e as reduziu para os produtores de soja). Em dezembro passado foi votado no Congresso, com o apoio do peronismo, uma reforma tributária que baixa progressivamente os impostos para as empresas: impostos sobre lucro e contribuições patronais, principalmente. Com essas medidas se agravou o déficit fiscal.

A recessão a qual a economia está sendo conduzida reduzirá mais ainda arrecadação e agravará o déficit fiscal. Por isso periódicos e bancos internacionais pedem, como prometeu Domingo Cavallo em 2001, que o país tenha déficit zero no próximo ano: isso significaria um corte muito mais brutal nos gastos sociais. Querem atacar mais os aposentados, reduzir subsídios familiares afetando crianças e adolescentes, encolher ministérios, reduzir o poder de compra dos funcionários públicos.

2) Déficit externo.

As contas externas sintetizam as relações do país com o exterior. As transações comerciais são feitas em dólar. Há uma grande escassez de dólares porque o fluxo de recursos para o exterior é muito maior que as entradas em contrapartida. Essa é a principal causa que empurra o preço do dólar para cima.

Os dólares entram no país por diversas vias:

- a) Exportações, na maior parte de produtos agrícolas e que agora estão afetadas pela seca;

- b) Turistas que visitam a Argentina;

- c) Investimentos: poucos pois o prognóstico da famosa “chuva de investimentos” fracassou;

- d) Especuladores: que vêm para se aproveitar das altas taxas de juros pagas pelo Banco Central (que recentemente decidiu elevar para 60% a taxa de juros de referência do país na esperança de combater a alta do dólar e a inflação), além de outros mecanismos especulativos. Esses especuladores estão saindo do país com uma velocidade maior que do atacante francês Kylian Mbappé, a despeito do Banco Central seguir subindo a taxa de juros vendo que seu patrimônio/reservas se deteriora.

- e) Dívida externa: através da emissão de títulos comprados por fundos de investimento, muitos deles fundos abutres, e bancos internacionais como o J. P. Morgan. Está via foi cortada com a corrida cambial (especulativa) iniciada no final de abril motivada pela falta de confiança do capital internacional com o macrismo.

- f) Empréstimos do FMI: é a principal janela aberta nestes momentos. É mais uma forma de aumentar a dívida externa.

Por outro lado, os dólares que saem do país estão relacionados aos seguintes movimentos:

- a) Pagamento de importações. O Governo está reduzindo isso com a recessão.

- b) Turistas argentinos que viajam ao exterior. Os especialistas indicam que o Governo estuda aplicar um imposto ao turismo.

- c) Pagamentos da dívida externa. Historicamente a Argentina paga mais do que lhe emprestam: esse é o negócio do capital financeiro.

- d) Remessa de lucros das empresas imperialistas: A economia está dominada pelo capital estrangeiro. Entre as 500 grandes empresas, mais de 70% de sua faturação corresponde a empresas imperialistas. A todo momento filiais remetam seus lucros para seus países-sede;

- e) Saída de especuladores do país. É precisamente o que está acontecendo com aqueles que aproveitaram da “bicicleta financeira” com as altas taxas do Banco Central;

- f) Fuga de capitais, principalmente das grandes empresas. Na crise de 2001, na lista das grandes empresas que evadiram divisas estão Pérez Companc, telefónica de Argentina, Repsol, Telecom, Nidera, Shell e a lista continua. Atualmente não fornecem os nomes daqueles que compram dólares, mas 80% das compras de dólares corresponde aquelas em que se adquirem mais de US$ 2 milhões. Os bancos são a via pela qual os capitais fogem.

Cambiemos não tem nenhuma solução para o déficit externo porque honrar os pagamentos da dívida e a total liberdade para que os capitais saiam do país é parte do manual neoliberal que seguem escrupulosamente. Isso implica numa incessante sangria de dólares que esvazia as reservas do Banco Central (riquezas que são geradas por mãos trabalhadoras) e demanda cada vez mais endividamento para pagar a divida anterior e garantir a saída de capitais. Um círculo vicioso.

3) Ganhadores

É evidente que o Governo privilegia os negócios especulativos. Entre os principais ganhadores estão os bancos, fundos de investimento, as grandes empresas que evadem dólares.

Com a desvalorização permanente do peso também se beneficiam os exportadores. Por cada dólar exportado em dezembro de 2017 se obtiveram $ 17. Agora para cada dólar exportado se obtém $ 40 (ou a cotação que o dólar alcance nestes dias); Quer dizer, que melhoraram suas receitas em mais de 100%. Os grandes exportadores são um punhado de empresas agropecuárias e industriais: Bunge, Cargill, Aceitera General Deheza (AGD), Nidera, Techint, Aluar y las automotrices.

O grande empresariado se beneficia com a desvalorização do salário dos trabalhadores: é o que Cristiano Rattazzi, titular de Fiat Argentina, festejou esses dias.

4) Perdedores

Os principais perdedores são os que vivem de seu salário. Toda desvalorização é antes de tudo uma desvalorização do salário: isso aconteceu com a desvalorização de Eduardo Duhalde em 2002, com a de Axel Kicillof em 2014, com a que o macrismo fez assim que acabou de assumir e a com a que está em curso atualmente.

Os cálculos de inflação estão chegando a um novo nível perto de 40%. Muitos analistas dizem que pode seguir aumentando acima deste valor por retroalimentação entre desvalorização e inflação.

Os ajustes salariais negociados nas paritarias (comissões de caráter especial para acordos trabalhistas envolvendo reajustes salariais, por exemplo) foram originalmente de 15%. Logo algumas tiveram ajustes de 5% a mais. Houve inclusive setores, como os caminhoneiros, que obtiveram reajustes ao redor de 25%. Mas em geral, a diferença entre o aumento de preços e o aumento de salários é cada vez maior.

A recessão está aumentando as demissões nos setores estatal e público. Esta sexta (31/08) o Ministério da Agroindústria anunciou 500 demissões. As estatísticas do Ministério do Trabalho de junho mostram uma importante deterioração do trabalho no setor privado. Estas são apenas a primeiras consequências da recessão.

Como foi mencionado, o ajuste que vem sendo pactuado entre o governo de Cambiemos e o FMI trará novos cortes na educação, saúde, aposentadoria, a crianças e adolescentes beneficiários de subsídios familiares.

Muito longe da pobreza zero, os próximos dados que o Indec (Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina) publicará mostrarão um aumento na pobreza e na indigência.




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