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Argentina: Carta da Izquierda Socialista em resposta à proposta do PTS

Reproduzimos aqui a carta dos companheiros da Izquierda Socialista do último dia 12 (organização irmã da CST-PSOL na Argentina) em resposta à proposta do PTS (organização irmã do MRT na Argentina) para a construção de um partido unificado na Argentina

domingo 23 de dezembro de 2018| Edição do dia

"Para um partido unificado: vamos dar o passo para constituir a FIT em uma frente única revolucionária"

Carta da Izquierda Socialista em resposta à proposta do PTS

Caros companheiros da direção do PTS (com uma cópia para a direção do PO)

A proposta de abrir o debate sobre a possibilidade de constituir um "partido unificado da esquerda revolucionária e socialista" nos foi enviada por carta e em reuniões da Mesa Nacional da FIT.

A primeira coisa a notar, desde a Izquierda Socialista, é que tomamos sua proposta e estamos abertos para discutir e coordenar todos os passos que podemos dar para conseguir um partido unificado revolucionário entre o PTS, o PO e a Izquierda Socialista. De nossa parte, sempre encontrarão essa predisposição. Nossa corrente atual tem uma longa história, constantemente chamando para a unidade da esquerda em todos os níveis políticos, político-eleitoral, em chapas sindicais anti-burocráticas ou estudantis, e internacionalmente em nosso chamada para "unir os revolucionários."

Foi isso que apontamos em um chamado da organização internacional da qual fazemos parte: "Nós que conformamos a UIT-CI estamos convencidos de que a solução para a crise de direção não virá de uma única organização. Nós rejeitamos toda auto-proclamação. Por esta razão, procuramos pontos mínimos revolucionários que nos aproximem e nos unifiquem com correntes, grupos e setores revolucionários que provenham de outras tradições e experiências. [...] Nesse sentido estamos abertos a explorar todos os tipos de intercâmbio político e de ação comum no sentido de um reagrupamento de forças socialistas revolucionárias sobre a base de um programa mínimo revolucionário" (Março de 2018, revista Correspondência Internacional No. 41, veja o texto completo em www.uit-ci.org).

Mais uma vez estamos predispostos a enfrentar este desafio. E para isso, nesta carta, oferecemos algumas propostas para contribuir com o objetivo de explorar a possibilidade de um partido revolucionário comum.

Sem dúvida, há diferentes visões políticas entre nós sobre como nos construirmos revolucionariamente nos movimentos operário e de massa. Apontar algumas das nossas diferenças com as práticas do PTS não significa fecharmos ou colocarmos obstáculos para aceitar sua proposta. Espero que essa troca ajude a superar essas diferenças ou reduza-as ao mínimo.

Constituir a FIT como uma frente única revolucionária

Na Argentina, demos um grande passo ao estabelecer a FIT em 2011 entre o PTS, o PO e a Izquierda Socialista. Não é um fato menor e devemos saber como defendê-la como uma ferramenta não só eleitoral, mas de luta concreta na perspectiva de um governo dos trabalhadores.

Ao propomos a direção do PTS explorar a possibilidade de alcançar um partido revolucionário comum entre as três partes FIT, partimos de um acordo importante que é reconhecer uns aos outros como partidos revolucionários e que há uma base para o programa revolucionário que é a própria FIT.

Nós também partimos do acordo que estamos falando sobre o objetivo de alcançar um partido revolucionário unificado com centralismo democrático. Não é um partido "amplo" da esquerda ou de "trabalhadores". Este é um avanço do PTS, porque anos atrás (em 2008) haviam feito uma proposta para nos unificar como um "partido dos trabalhadores". É importante ter um acordo para promover um partido revolucionário, e não o modelo estratégico de partidos "amplos", "anticapitalistas", vivendo com tendências permanentes, rejeitando o centralismo democrático e até mesmo a consigna de lutar por um governo dos trabalhadores (ditadura do proletariado), como vem impulsionando oportunistamente as correntes continuadoras do dirigente trotskista Ernest Mandel.

Concordamos que sem a existência de um partido revolucionário forte "nenhuma luta decisiva pode alcançar a vitória". É por isso que somos a favor de propor as medidas necessárias para explorar a possibilidade de um partido revolucionário unificado baseado nos três partidos da FIT.

O primeiro objetivo concreto que propomos é constituir a FIT em uma frente única revolucionária, com um comitê de coordenação ou de ligação e ter um boletim de discussão sobre temas a serem compartilhados em comum para um esclarecimento político. Que juntos definamos um período de operação como uma frente única revolucionária e no final desse período avaliamos, entre os três componentes, se as condições foram criadas para se tornar um partido unificado sob o centralismo democrático. Alcançar este passo não será fácil. Vocês mesmos apontam em sua carta: "Isso não muda que estamos conscientes de que este é um objetivo ainda a se alcançar". Nesse sentido, tomamos o que apontam da necessidade de "concordar com as formas transitórias em relação ao objetivo que propomos".

A forma transitória que propomos é constituir a FIT em uma frente única revolucionária. Uma frente única revolucionária é superior a uma frente única operária ou sindical, a uma frente política eleitoral ou a qualquer unidade de ação para demandas parciais. Isso significaria que a FIT deixa de ser uma frente puramente eleitoral e de acordos esporádicos para uma declaração ou uma marcha de tempos em tempos. Em vez disso, a FIT começa a funcionar diariamente para responder politicamente em comum a todos os fatos da luta de classes, sejam eles políticos, sindicais, estudantis, de mulheres ou populares. Preparar o terreno para responder com uma política revolucionária comum de mobilização de massas frente da intensificação da crise do sistema, do regime e dos governos. Ou seja, não pode haver greve geral, por setor, lista sindicais ou estudantis e eleitorais, onde os três partidos não se sentem para discutir e executar políticas e táticas comuns. Desta forma, propomos testar e explorar se estamos nos movendo em direção a um partido unificado. Esperamos que isso sirva imediatamente para fortalecer a FIT e sua intervenção com uma política cotidiana comum. Começaria a deixar para trás os períodos frequentes e mais ou menos prolongados de paralisia e ausência, sem declarações comuns ou atos unitários do FIT. Que não se repita que vocês propõem de resolver as candidaturas da FIT por meio da armadilha das PASO [eleições primárias obrigatórias da Argentina], com os mecanismos da democracia burguesa que todos nós condenamos como prescritivos para a esquerda. E talvez mais importante, deixar para trás eventos lamentáveis, como as eleições da ATEN e da ferrovia Sarmiento, onde dividiram diretamente e atacaram direções combativas lideradas pelos dirigentes da FIT. Ou que não possamos contar com vocês na importante unidade anti-burocrática do Plenário Sindical Combativo de Lanús. Recusando-se a integrar essa coordenação de trabalhadores que é um embrião, um passo em direção a formas de coordenação e órgãos superiores de luta para situações mais críticas de mobilização de massa. No caso das eleições da ATEN Capital de Neuquén sua ruptura com a Multicolor, com a lista Bermellon, que deu lugar à burocracia para recuperar a seção sindical. No caso de Sarmiento, a tentativa equivocada de questionar Pollo Sobrero e a lista Bordó como "burocratas" falhou miseravelmente. Esses fatos divisionistas não podem ser ignorados, eles são muito recentes, quase simultâneos à proposta de partido único que foi inicialmente feita no evento PTS no mini-estádio do Argentinos Juniors em 8/10. Nós os criticamos duramente porque eles refletem duas posições opostas pelo vértice para o movimento dos trabalhadores. É por isso que não nos enganamos, será uma experiência difícil conseguir um partido unificado, embora nós o apontemos novamente, vale a pena tentar.

Dar um passo de transição, como a constituição da FIT em uma frente única revolucionária, pode ser uma grande contribuição para o objetivo do partido unificado.

Os debates necessários para esclarecer

Já temos a base programática, pois concordamos em reivindicar o programa da FIT. Mas sabemos por experiência que não basta apenas com um programa revolucionário. Sem dúvida, existem diferenças políticas e concepções na prática, que devemos intercambiar, aprofundar o debate para clarificar com o objetivo de chegar a pontos comum de fundo. Sabemos que não é uma tarefa simples avançar rapidamente para um partido unificado. Nesse sentido, é importante não criar expectativas exageradas ou fora da realidade. O trabalho diário e unitário, sem sectarismo e com lealdade entre nós, ajudaria a ganhar confiança mútua, que hoje é prejudicada por suas políticas divisionistas. Isso também é básico para o objetivo de um partido unificado.

Propomos publicar entre os três partidos um boletim de discussão ou debate comum, pautando suas formas e temas.

Os três partido já acumularam longas trajetórias e experiências de lutas nacionais e internacionais. Vocês mencionam isso em sua carta citando as experiências realizadas pelo seu partido. A elas, devemos acrescentar aquelas realizados pelo PO como, por exemplo, o SUTNA no movimento dos trabalhadores industriais. Ou a que levamos em comum com a chapa Multicolor em professores de todo o país. Ou a Izquierda Socialista nas ferrovias, especialmente na seccional Haedo e no corpo de delegados de Sarmiento, no sindicato Ademys dos professores da CABA, ou a greve de 43 dias liderada pela ATEN Capital. Ou as experiências internacionalistas de cada corrente. No nosso caso, podemos contribuir com a experiência de luta internacionalista da Unidade Internacional de Trabalhadores - Quarta Internacional (ITU-CI).

Não só noprograma, mas nossa prática na luta de classes na Venezuela contra o governo capitalista de duplos e falso discurso do "socialismo do século XXI" de Hugo Chávez e agora Nicolas Maduro, com a nossa experiência no movimento dos petroleiros encabeçada pelos dirigentes Orlando Chirino e José Bodas. No Oriente Médio e Norte da África com a nossa intervenção, juntamente com a nossa seção da Turquia no processo revolucionário iniciado na Tunísia em 2011. Bem como a intervenção em diferentes processos nos países da América Latina e Europa.

Mas, a partir de agora, há diferenças e debates para esclarecer como agir revolucionariamente nos movimentos de trabalhadores e de massa. Sem dúvida, uma das questões a serem esclarecidas é o modelo sindical pelo qual lutamos para mobilizar a classe trabalhadora e como derrotar a burocracia traidora. E como essa política é combinada com a luta estratégica pela independência de classe e uma militância revolucionária, anticapitalista e socialista.

Vocês dizem em sua carta que "temos que nos propor revolucionar" a atuação dos revolucionários nas "organizações de massa". Ou seja, nos sindicatos, nas comissões internas, nos centros estudantis ou nas organizações das mulheres em luta. Nós concordamos muito com isso. E para seguir em frente, esclarecemos o que entendemos por isso.

Para a Izquierda Socialista ter uma política revolucionária para mobilizar o movimento operário é combater tanto o oportunismo sindical quanto o sectarismo e o divisionismo diante de nossos inimigos comuns. Política revolucionária não é apenas anti-capitalista e propaganda socialista, mas, essencialmente, ter uma política para promover a mobilização, a auto-determinação democrática dos trabalhadores para que as lutas triunfem na perspectiva de uma greve geral e para varrer a burocracia sindical peronista dos sindicatos. Para este fim, promovemos a democracia dos trabalhadores, as assembleias de base e os órgãos ou plenárias dos delegados com um mandato de base; não dividir nas lutas e nas lutas sindicais eleitorais contra a burocracia; ir em listas [chapas] de oposição anti-burocráticas únicas, unindo em primeiro lugar as forças dos três componentes da FIT nas listas e nos organismos conquistados. Promover, sem qualquer sectarismo, o sindicalismo anti-burocrático e combativo. É um tema a ser discutido a fundo.

Há também várias questões políticas e programáticas estratégicas para discutir muito importantes. Para o uso da consigna da assembleia constituinte livre soberana que você insistem em sua carta que seria a consigna mobilizadora "para dar uma saída democrática e de emergência para a crise atual e impor medidas” de fundo. Enquanto o PO também a propõe, "com poder". Do nosso ponto de vista, consideramos um grande erro propor que a convocação de eleições de deputados constituintes, que incluiria a maioria dos parlamentares patronais, vá impor nossas medidas de fundo. A saída operária da crise envolve levantar consignas mobilizadores que incluam a necessidade de se obter um governo dos trabalhadores. Nós consideramos importante agendar este debate, razão central na luta por um partido revolucionário unificado.

Proposta de funcionamento e debates

Se houver acordo com os três componentes da FIT para dar estes passos para um plano de exploração rumo a um partido unificado, propomos a criação de um comitê de coordenação ou de ligação com representantes das três forças do FIT. Que pode ou não ser combinado com a mesa nacional já constituída para que se torne uma mesa de coordenação diária e do plano da frente única revolucionária.

Estabelecer um boletim de discussão que alcance a militância das três forças e ativismo (via papel e/ou digital), com uma definição de funcionamento precisa (espaços das notas, número de páginas, periodicidade).

Em caso de concordar com esta forma de debates, nós da Izquierda Socialista colocamos algumas propostas de temas:

• Partido Revolucionário, centralismo democrático
• Assembleia constituinte livre e soberana/governo dos trabalhadores
• Frente operária e outras táticas unitárias; com quem marcharemos juntos, quando e como
• O uso revolucionário do parlamento e a Terceira Internacional
• O papel da imprensa revolucionária
• Situação revolucionária, etapa e época
• Proposta internacionalista para a reconstrução da Quarta Internacional
• As revoluções dos séculos XX e XXI e a teoria da revolução permanente

• Balanço e conclusões sobre os governos de conciliação de classes de Chávez (Venezuela), Ortega (Nicarágua) e Lula-Dilma (Brasil)

Com saudações socialistas revolucionárias
Direção Nacional da Izquierda Socialista, 12 de dezembro de 2018




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