Política

EDITORIAL INTERNACIONAL

Aprovação do impeachment estampa com incertezas os editoriais internacionais

Ridicularizando a sessão e preenchidos por incertezas, alguns dos principais veículos de imprensa do mundo dão destaque à autorização para abertura do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, aprovado na noite (17) pela Câmara dos Deputados.

André Acier

São Paulo | @AcierAndy

segunda-feira 18 de abril de 2016| Edição do dia

Em suas páginas na internet, jornais como o The New York Times, The Washington Post, The Guardian, Le Monde, Le Figaro, El País e Clarín têm a decisão dos deputados brasileiros entre as manchetes.

A cadeia CNN lembrou que os legisladores brasileiros gritaram, brigaram e até cantaram. “O deputado Paulinho da Força cantou: ‘Dilma, vá embora, porque o Brasil não quer você’, mas essa não foi a única canção da noite.” Diz que a eventual saída de Dilma se daria a menos de três meses dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Na página do El País, a manchete principal é a decisão da Câmara dos Deputados brasileira, que o jornal chama de “início da destituição de Dilma Rousseff”. Com a percepção de um jornal afeito a discutir as urdiduras silenciosas nos bastidores de uma ampla camarilha de políticos ligados ao regime saído da ditadura franquista, destaca que a popularidade de Temer é mínima graças a sua “discrição, sempre na segunda fileira”, e que ser visto como um traidor não tornará a transição simples. Tudo isso “forma parte de um convulsivo e imprevisível futuro imediato de um país putrefato”.

A publicação, ridicularizando a sessão assim como fez a CNN, chamou a votação de “circo” e, ainda, disse que para “um espectador acostumado às sessões francesas ou espanholas, por exemplo, é uma algazarra incompreensível”. Destacou que os parlamentares esqueceram as “razões reais que estavam sob discussão” e votaram “pela minha esposa Paula”, “pela minha filha que vai nascer e pela minha sobrinha Helena”, “pelos militares (golpe) de 64”, “pelos evangélicos” e, até mesmo, “pelos vendedores de seguros no Brasil”. O título da reportagem menciona essa postura, e diz: “Deus enterra a presidente do Brasil”.

O Clarín, da Argentina, classifica de “expressiva” a votação que garantiu a abertura do processo contra Dilma e cita falas de deputados contra o governo ao longo da sessão. O também argentino La Nación diz que o resultado desta noite na Câmara representa “um duro golpe” para o governo e que Dilma, primeira mulher a presidir o Brasil, também poderá ser a primeira a ser destituída do poder na América Latina neste século. No país de Mauricio Macri, os jornais reverberam a vontade de enxergar a “nova” velha direita no Planalto.

Mais taxativo no questionamento é o The New York Times. De acordo com a linha editorial anterior à aprovação da admissibilidade do impeachment, declara logo depois da sessão na Câmara que “as bases para o impeachment são preocupantemente frágeis”. As “pedaladas fiscais”, artifício para melhorar artificialmente as contas federais utilizadas para embasar a acusação de crime de responsabilidade, foram usadas por outros governos, mas sem a mesma reação. O jornal refere-se à porcentagem de favoráveis ao impeachment como “apenas 61% da população apoia a saída, quando antes eram 68%”. Lembra que Temer está envolvido em esquemas de corrupção de compra de etanol, e que o próximo na linha sucessória, Eduardo Cunha, é acusado de receber 40 milhões de reais nos esquemas da Petrobrás.

O Financial Times também desconfia da saída porque pode implicar “um crescente risco político ao Brasil”. Sem esconder a sede do capital financeiro em aproveitar os benefícios de um possível governo “com princípios econômicos mais ortodoxos”, contrapõe a possibilidade de obter com Temer um equilíbrio orçamentário e reformas estruturais mais duras do que vinha aplicando o governo do PT com a possível emergência de “greves e protestos dos sindicatos e movimentos sociais ligados ao PT”, além do envolvimento do PMDB nos escândalos de corrupção da Petrobrás e fatura que terá de pagar aos políticos investigados que apoiaram Cunha e Temer na votação.

O The Guardian foi além e comentou o teor das intervenções sumamente obscurantistas dos parlamentares. Destacando a “derrota fragorosa” do governo Dilma, com 367 votos favoráveis, afirmou que “uma vasta maioria dos 150 deputados implicados em crimes votou pelo sim”.

Numa noite sombria, possivelmente o momento mais baixo se deu com Jair Bolsonaro, deputado de extrema direita do RJ, que dedicou seu voto ‘sim’ a Carlos Brilhante Ustra, coronel que dirigia a unidade de tortura do DOI-CODI durante a ditadura [...] Seu filho Eduardo Bolsonaro, por sua vez, usou seu tempo no microfone para honrar os responsáveis pelo golpe militar de 1964. [...] Votou pelo sim Paulo Maluf, investigado pela Interpol. Também Nilton Capixaba, acusado de lavagem de dinheiro, e Silas Camara, investigado por desvio de verbas. A sessão expôs o caráter farsesco da democracia no Brasil, como o PMB (Partido da Mulher Brasileira) que possui apenas homens, ou o Partido Progressista Socialista (PPS) que é um dos mais de direita do Congresso”.

O francês Le Monde destaca a ligação entre Dilma e o ex-presidente Lula e diz que a derrota de hoje na Câmara define que a presidenta "tem poucas chances de terminar o mandato". O jornal publicou que, diante do cenário, a perspectiva é que a votação no Senado “seja apenas uma formalidade” para confirmar o veredicto dos deputados.

Com a votação deste domingo, a oposição de direita e seu “partido teocrático”, junto à mídia oficial, avançam um golpe institucional apoiado pela FIESP que por ora é recebido com frieza internacionalmente. A imprensa mundial frisa a imprevisibilidade dos cenários no Brasil, fruto de um processo de impeachment cuja base jurídica é questionável, conduzida por políticos “mais sujos que os julgados” e que poderia lançar o país no caos.

Sintomático deste sentimento de incerteza que preenche as páginas internacionais seja o The Economist, que escreveu que “o discurso de um governo de unidade nacional parece cada vez mais à tentativa de um conjunto de trapaceiros tentando substituir outro. [...] Rousseff parece a caminho de deixar o cargo. Tragicamente para o Brasil, está longe de ser claro o que seguirá a ela”.

A votação selou o fracasso da estratégia de Lula baseada na compra de parlamentares corruptos e pactos com a direita mais reacionária, que se virou contra o governo depois de ter sido fortalecida por ele. Entretanto, nenhum governo estrangeiro se animou a opinar sobre o show de obscurantismo de um Congresso que jurava “por Deus e a família” como se estivesse numa sessão da Santa Inquisição.

As principais preocupações giram ao redor do cenário absolutamente instável e imprevisível que surgiria da deposição de um governo, que conseguiu atacar os trabalhadores e contê-los através da influência do PT nos sindicatos, e um eventual novo governo – que não goza de apoio popular e que conteria inúmeros políticos comprovadamente envolvidos em corrupção – privado da legitimidade das urnas e com o estigma do impeachment, dificultando a aplicação “normal” dos ajustes exigidos.

O PT abriu o caminho para o fortalecimento dessa direita obscurantista que chocou pelo reacionarismo. É precisar repudiar fortemente o impeachment e colocar de pé um plano de resistência na luta de classes contra os ataques do PT e da direita.




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