SAMBA ENREDO INCOMODA O AGRONEGÓCIO

Apresentadora da Record diz que índios devem morrer de doenças

Este ano, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense, ou simplesmente Imperatriz Leopoldinense, tem como samba enredo: Xingu – O clamor que vem da floresta. A letra do samba e as fantasias que serão utilizadas para o desfile causaram revoltas e repúdio de diversos setores associados ao agronegócio. Uma das entidades que encabeça uma iniciativa contra a escola de samba é a Sociedade Rural Brasileira (SRB), que em sua página do Facebook lançou a campanha. Apresentadora da Record atacou a escola e os povos indígenas na televisão.enta

Rafaella Lafraia

São Paulo

quinta-feira 12 de janeiro de 2017| Edição do dia

E se aproxima mais um carnaval.... Época festiva, que atrai inúmeros turistas ao Brasil – principalmente ao Rio de Janeiro, que tem um dos carnavais mais famosos do mundo!

Ano a pós ano, algumas escolas destacam questões políticas e sociais em pauta nesta data festiva. Este ano, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense, ou simplesmente Imperatriz Leopoldinense, tem como samba enredo: Xingu – O clamor que vem da floresta.

A letra do samba e as fantasias que serão utilizadas para o desfile causaram revoltas e repúdio de diversos setores associados ao agronegócio. Uma das entidades que encabeça uma iniciativa contra a escola de samba é a Sociedade Rural Brasileira (SRB), que em sua página do Facebook lançou a campanha Agroé tudo que tem como objetivo contrapor a mensagem da escola de samba durante o Carnaval, algemado que o samba enredo exalta os índios e os apresenta como vítimas do agronegócio, sendo que o agricultor brasileiro quer respeito e valor, pois também respeita e valoriza os indígenas e o meio ambiente. Também em declaração na [página oficial da Frente Parlamentar da Agropecuária, o futuro presidente desta e então deputado, Nilson Leitão (PSDB – MT), colocou que o samba enredo da Imperatriz é preconceituoso que leva a cegueira, já que a agropecuária brasileira é respeitada e invejada pelo mundo pela produtividade que temos.

Também se destaca a indignação com o tema, expressado no último domingo (08) pela apresentadora Fabélia Oliveira no programa “Sucesso no Campo”, da Record de Goiás. Na abertura do programa, Fabélia, declara que: o malandro carioca nada sabe sobre os índios, a florestas e o homem do campo, já que não abrem mão da tecnologia. Ela ainda continua com a sua polêmica alegando que é a favor do “índio original” e que se este quer mesmo preservar a cultura não pode ter acesso à tecnologia, não podendo comer de geladeira, tomar banho de chuveiro e tomar remédios químicos, pois há um controle populacional natural, tendo estes que morrer de malária, de tétano, do parto. E termina sua defendendo os latifundiários, pecuaristas e produtores rurais em geral, a quem ela se refere como “homem do campo” e “heróis”.

Devido a grande repercussão do samba enredo, o carnavalesco responsável, Cahê Rodrigues, justificou a escolha do tema, em publicação em sua página de Facebook, segundo a Revista Encontro, afirmando que não se trata de uma agressão aos empresários ruralistas do país. Que a escola assumiu o desafio de apresentar muito mais que um desfile voltado à cultura e às tradições das etnias indígenas que ocupam o coração do Brasil, a escola quer fazer um alerta sobre os riscos que ameaçam as etnias que vivem na reserva e que a intenção nunca foi de agredir o agronegócio, setor produtivo de nossa economia a quem respeitamos e valorizamos, mas sim de combater o uso indevido do agrotóxico.

Portanto, por mais que outras mídias coloquem que o samba enredo da escola de samba seja voltado para um tema importante e bem conhecido, que é a luta dos povos indígenas contra o desmatamento e a perda de terras, o próprio responsável se isenta desta discussão. Entretanto, a arte abre margem para tal viés e este rebuliço permite com que se vejam discursos caricatos, pois devemos lembrar que a produtividade relatada pelo futuro presidente da FPA é relacionada com a monocultura brasileira feita para exportação e alimentação de gado. Ou seja, vai de encontro com a polêmica levantada pela apresentadora da Record, pois a produção agropecuária brasileira não é voltada para consumo interno.

Assim, o pensamento tendencioso evidenciado pela apresentadora tenta reforçar a separação entre campo e cidade, sendo que tal não é cabido mesmo dentro do sistema capitalista. O que este faz, além de tentar causar esta segregação, é explorar ainda mais os trabalhadores rurais e da cidade, sendo que ambos não têm o controle da produção total e passam por precarizações de seu trabalho.

Outro ponto de pensamento tendencioso evidenciado na fala da apresentadora é a exigência da manutenção antiquada das condições das populações originárias, sem levar em consideração que a preservação da cultura destas populações só pode ser assegurada graças aos modos produtivos atuais e que sem estes estas populações realmente serão exterminadas, pois não poderão nem ao mesmo colocar para o resto do mundo as atrocidades feitas pelos latifundiários as suas etnias.

Por isso é preciso sim ir além das criticas aos agrotóxicos, deve-se ressaltar as ações violentas e assassinas dos grandes latifundiários a estas populações, que já sofriam no governo de Dilma Rousseff e que tendem a piorar no governo golpista de Michel Temer – como é possível prever pela nomeação de um grileiro para a diretoria do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).




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