GOVERNO BOLSONARO

Após primeira morte, Bolsonaro ensaia mudar discurso sobre coronavírus depois de passar dias chamando de histeria

Desde o início da crise, Bolsonaro vinha desprezando as potencialidades de contágio e letalidade do novo coronavírus, chegando mesmo a afirmar que o tema em torno da pandemia do coronavírus era “histeria” e em desautorizar medidas de precaução dadas pelo seu próprio governo. No entanto, nada pior do que a notícia de dois óbitos - e também de manifestações de indignação de setores de classe média, e, portanto, de muitos ex-apoiadores de seu governo - para que começasse a mudar de linha para não ficar mais isolado.

quarta-feira 18 de março| Edição do dia

Ontem (17), apesar de ter afirmado que faria uma festinha para comemorar seu aniversário neste final de semana, declarou na porta do Palácio do Planalto à imprensa que convocaria os presidentes do Congresso, do Senado e do STF para preparar com estes poderes um programa coordenado de combate ao novo coronavírus. Dias atrás uma reunião de mesmo teor ocorreu, porém Bolsonaro tinha dado as costas para ela e preferiu mobilizar os atos diminutos da extrema-direita que ocorreram no domingo passado. Inclusive se cogitava na grande mídia que o ministro da Saúde (presente na reunião com os outros poderes desde o início da crise) seria afastado do cargo por Bolsonaro.

Porém, as críticas de apoiadores do governo às atitudes irresponsáveis de Bolsonaro foram aumentando; dois óbitos (pelo menos os que foram notificados oficialmente) ocorreram desde ontem; e para completar, panelaços de setores da classe média aconteceram (e mais estão por acontecer) exigindo o afastamento de Bolsonaro, agravando em alguma medida a crise do governo. Diante de tal cenário, o que pode potencializar seu isolamento, Bolsonaro começa a mudar de rota na sua atuação em relação à crise do coronavírus.

Além das medidas pífias divulgadas por Paulo Guedes, como liberar o 13° de aposentados e pensionistas (que já era volume contingenciado pelo governo e não dinheiro extra para enfrentar a crise), Bolsonaro divulga que o governo estuda liberar os saques do FGTS e adiar a cobrança de impostos sobre os salários “para dar fôlego às empresas”.

Em outra frente, Bolsonaro também divulgou que fechará as fronteiras do país, mas só com a Venezuela… alegando nessa lógica que o governo Maduro é “incapaz” para lidar com a crise em seu próprio país, e assim “garantir a segurança e a saúde do nosso povo, em especial da região Norte e Nordeste do país”. [Bravata para cantar para a sua torcida mais fiel, e inclusive, para a sua base de direita que se encontra dividida.

No entanto, pelas medidas anunciadas, já se esboça que a prioridade de Bolsonaro, assim como dos governadores, é alimentar o isolamento social, o fechamento de fronteiras e concessão de maiores subsídios para as empresas. Se antes o seu desprezo pela vida dos trabalhadores era nitidamente manifesta, é bem provável que a partir de hoje venha a aderir à campanha levada a cabo por setores burgueses para mascarar o problema real de fundo: descarregar essa crise sobre as costas dos trabalhadores e da população pobre através de medidas que protejam ou atenuem os lucros dos capitalistas.

Não será novidade, se Bolsonaro seguir nessa linha, que será coroado pela grande mídia e por setores da oposição da direita tradicional, como Maia e Alcolumbre, como uma atitude sensata, pronta para entrar em coordenação com os demais poderes para “superar” a crise. No entanto, como vem atuando outros setores do regime para conter a crise? No Rio, Witzel manda suspender aulas, proibir o tráfego de transportes intermunicipais para isolar os municípios do estado, diminui a circulação de ônibus, trens e metrôs, restringe o funcionamento de bares, restaurantes e centros turísticos. Em SP, Doria declara estado de emergência e horas atrás mandou fechar shoppings e lojas. Essa é uma clara tendência dos governos em irem aplicando gradualmente as medidas parciais de quarentena já utilizadas por outros países - como nos casos mais graves da Itália e da Espanha - e exigidas exaustivamente pela grande mídia. Também cresce entre setores da burguesia e do poder, em compasso com essas diretrizes de potenciais autoritários, o abrandamento do Teto dos Gastos Públicos, PEC que foi aprovada no governo golpista de Temer para congelar os investimentos públicos em troca do pagamento da dívida pública aos banqueiros, e que agora começa a ser mais questionada tendo em vista a possibilidade de emergência sanitária, que revelaria de forma dramática a incapacidade da saúde pública em lidar com o problema, o que acarreta desgastes políticos preocupantes para setores das classes dominantes. No entanto, esse questionamento não leva em conta o abandono do programa de reformas e privatizações, o mesmo programa que levou o SUS ao sucateamento e que hoje seria incapaz de lidar com uma escala industrial de atendimentos a serem realizados aos doentes. Aí está o motivo real da campanha fajuta impulsionada pela grande mídia, pelos capitalistas e pelos governos de que o isolamento social e os cuidados individuais devam ser prioritários no momento.

Apesar das precauções individuais (como lavar bem as mãos; evitar contato com elas nos olhos, nariz e boca; e passar álcool e gel) e do isolamento social serem medidas importantes para atrasar a transmissão do coronavírus, elas não podem ser o único tipo de recomendação. Isso é escandaloso. Em primeiro lugar, nem todos podem se auto isolar, pois a maioria trabalha e assim não podem se dar o luxo de correr o risco de demissão ou cortes de salário. Em relação a isso, todas as medidas mostram a ineficácia dos governos, inclusive sua real vontade de superar a crise. Ao mesmo tempo que recomendam evitar aglomerações e que as pessoas fiquem em casa, é sabido que a maioria dos trabalhadores não foram liberados e seguem se arriscando no transporte público e em seus locais de trabalho. Um crime em que governos, mídia e empresas cometem contra a saúde pública. Em segundo lugar, também é sabido que os hospitais públicos não possuem os leitos suficientes para cuidar dos infectados, não têm recursos para a realização de testes, e nem mesmo há máscaras e luvas suficientes. Além disso tudo, há também o total descaso com os próprios profissionais da saúde, que terão de enfrentar a sobrecarga de trabalho e o maior risco de exposição ao vírus.

Diante desse cenário, e das rotas que Bolsonaro pretende mudar para lidar de forma menos desgastante para seu governo nessa crise sanitária, nós do Esquerda Diário estamos juntando nossos esforços para que a própria classe trabalhadora e a população pobre tome para si a luta contra o coronavírus, e que não confie nos Comitês de Crise dos governos para lidar com esse problema. Eles foram os mesmos que por anos privatizaram e sabotaram com ajustes fiscais a saúde pública.

Leia editorial sobre nossa campanha para que efetivamente seja posto em ação um verdadeiro plano de emergência para superar a crise do coronavírus para além do isolamento social.




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