Aniversário das relações diplomáticas China-Brasil e do Dia da Imigração Chinesa no país: em meio à guerra comercial Estados Unidos-Brasil-China, o que temos a comemorar?

quinta-feira 16 de agosto| Edição do dia

“Quando um Sábio chega ao momento de triunfar, ele triunfa. Até que lhe surja a ocasião, permanece sem influência. Da mesma maneira que a melhor semente, quando ainda não germinou, fica escondida debaixo da terra que parece nua” (Segundo Chen Sien Tchoan).

O trecho acima refere-se a um momento do lendário encontro de Confúcio e Laozi, dois grandes personagens da história clássica chinesa, que teriam vivido no período dos Estados Combatentes, na China, por volta do século III a.C. Nesse período floresceram as chamadas Cem Escolas de Pensamento, que, à despeito da precisão numérica, seus representantes preocuparam-se em elaborar uma visão própria do mundo e da sociedade em meio à um período de tamanhos conflitos internos.

Pois bem. Sobre triunfo e influência. Parece que milênios depois, a China decide irromper de um histórico descanso no que tange à sua participação econômica mundial despontando como o país que vem para desafiar a atual superpotência mundial do capitalismo, os Estados Unidos, hoje, de Donald Trump.

Já temos publicado matérias que tratam da guerra comercial Estados Unidos-China, inclusive em artigo publicado na Revista Ideias de Esquerda, número 4, deste ano, destacando aspectos socioeconômicos referentes a esse levante do gigante adormecido, como muitos têm gostado de nomear. Mas embora a guerra comercial provocada pela crise capitalista mundial que reflete a atualidade destaque ambos os países, o Brasil não está longe de participar dessa épica batalha.

Hoje (15) a Cônsul-Geral da China Chen Peijie publicou um artigo no jornal Folha de São Paulo em comemoração ao 44° aniversário das relações diplomáticas China-Brasil e do Dia da Imigração Chinesa no país. O texto é intitulado "Uma amizade que vence a distância geográfica" e alude ao momento histórico, 44 anos atrás de estabelecimento oficial de suas relações diplomáticas. Além disso, o artigo estende-se para a celebração, também nesta data, do Dia Nacional da Imigração Chinesa.

Nas palavras da Cônsul-Geral, que vê com bons olhos o que chama de relacionamento bilateral entre China e Brasil, afirma que esta união trata de “um novo marco na história da nossa amizade. Não posso deixar de registrar minha gratidão a todos os amigos que contribuem de forma incansável para levar adiante este relacionamento amistoso!” Por sua vez, o embaixador da China no Brasil, Sr. Li Jinzhang declara que “vamos trabalhar juntos para construir uma comunidade de destino compartilhado, de interesse recíproco e de mescla cultural”.

O estreitamento dos intercâmbios comerciais Brasil-China se dá em várias províncias chinesas nas áreas de infraestrutura, energia, finanças, agricultura e ciência e tecnologia. Em nosso dia-a-dia, temos assistido como resultado desse acordo a presença chinesa cada vez maior em nossas experiências culturais. Em São Paulo houve este ano comemoração do Dia da China, celebrações do Festival das Lanternas e o Festival do Meio Outono, nos fazendo conhecer cada vez mais esse país que historicamente, tem sido considerado isolado dos demais. Mas um pouco de história nos mostra que, há séculos, a China já mantinha relações com o estrangeiro.

De acordo com Wladimir Pomar, no livro A Revolução Chinesa, foi na dinastia Ming que a produção agrícola e artesanal, a urbanização e a produção manufatureira avançaram no rumo das relações capitalistas, com considerável desenvolvimento do comércio terrestre e marítimo internacional, sendo que o declínio dessa dinastia deu-se com a expansão mercantil europeia quando funcionários e generais da etnia Han imperial passaram a desertar para as tropas manchus, que destroçaram a nobreza Ming em 1644. Ainda, durante a segunda metade do século XIX as potências industriais introduziram o ópio na China em troca de seda, porcelana e chá, lucrando com o tráfico de trabalhadores chineses (os chamados coolies) para as plantações de cana nas Antilhas, de abacaxi no Havaí e para a construção de estradas de ferro nos Estados Unidos. Por sua vez, na China, construíram estradas de ferro, modernizaram os portos, implantaram oficinas de manutenção e reparos e instalaram fábricas, tornando o país uma sociedade semicolonial com elementos capitalistas. De acordo com o historiador, a penetração estrangeira na China deu surgimento à classe operária empregada nas ferrovias e sistemas de comércio e transporte e nas poucas unidades fabris implantadas no país, ampliando consideravelmente as classes médias urbanas, que eram constituídas pelos empregados graduados das empresas capitalistas estrangeiras e nacionais, pelos funcionários governamentais de escalão inferior e intermediário, pelos setores profissionais liberais e pelos professores.

Na história recente da China, podemos dizer que ela se dividia, até agora, em duas eras: a de Mao Tsé-Tung (Mao Ze Dong), iniciada com a Revolução de 1949 e a de Deng Xiaoping, em 1978, com o processo de restauração capitalista, especialmente a partir da utilização de mão de obra barata e da gigantesca classe trabalhadora operária e camponesa. Embora possa parecer uma contradição, desde o comando de Mao as relações com os Estados Unidos já se promoviam, mas atingiu seu auge com a criação das Zonas Econômicas Especiais (ZEE’s) já na era de Deng Xiaoping, em 1992, reintroduzindo o capitalismo na China, muito embora muitos sinólogos apreciem a denominação “socialismo com características chinesas” para definir o sistema em que a burocracia estatal ainda controla enormes empresas, as Bolsas de Valores e os mercados de crédito, relativamente blindados à influência estrangeira.

E como se deu o crescimento econômico da China desde então? Em 2008, a Renda Nacional Bruta da China superou as rendas da França, Reino Unido e Alemanha juntas; em 2009, o país ultrapassou a Alemanha como maior exportador mundial; no início de 2010, tornou-se a segunda maior economia do mundo, atrás, justamente, dos Estados Unidos. Ainda, é conhecida a entrada chinesa na África no setor da mineração e na América Latina disputa o terreno na área da energia elétrica. Retomando alguns aspectos históricos, no final do século III a.C (221 a 207 a.C) ocorreu a unificação da China em um Estado Centralizado sob o comando de Qin Shi Huagdi, também conhecido como Imperador Amarelo, que, conta a história, queria ser o primeiro imperador da história da China e, por isso, mandou queimar todos os registros históricos antes de sua ascensão. Assim, bem ates do surgimento das monarquias feudais e absolutistas na Europa, este imperador unificou a escrita, as unidades de medida e a moeda, estabeleceu o sistema administrativo de prefeituras e distritos, à frente dos quais colocou a burocracia de letrados. Instituiu o ensino técnico, estimulou a construção de palácios, tumbas e muralhas, como a Grade Muralha da China, desenvolveu a manufatura de ferro, bronze, tecidos e cerâmicas e incentivou a produção agrícola com a criação do calendário lunar.

Alguns sinólogos afirmam que Mao Tsé-Tung cultivava uma profunda admiração pelo Imperador Amarelo e, à sua semelhança, também nutria intenções megalomaníacas para a China. No bordão “a história se repete”, estaria o presidente do Partido Comunista Chinês Xi Jinping também inspirado em seus líderes antecessores, porém, agora, moldado às exigências da modernidade? Retomando os 36 estratagemas chineses, conhecidos como o manual secreto da arte da guerra, uma lista de táticas políticas diplomáticas e militares, ameaça a soberania estadounidense. O presidente Xi apresenta um plano de situar a China no patamar de superpotência mundial e até 2025 visa transformá-la em líder industrial na produção de itens de alta tecnologia; busca ligar 64 países da África, Europa e Ásia com a Nova Rota da Seda e tornar-se uma superpotência até 2050, sendo que nesse quesito o poderio militar é fundamental. A China está agressiva. Com a imposição de tarifas milionárias a diversos produtos chineses, especialmente automóveis, discos rígidos e partes de aviões, presenciamos atualmente uma guerra comercial entre Brasil e Estados Unidos que tem afetado a economia mundial. E, assim, chegamos ao final de 2017 com uma China tornando-se obsessão da Casa Branca.

E as relações Brasil-China? Essa parceria consolidou-se quando os dois países elevaram suas relações à categoria de Parceria Estratégica Global. Nas palavras da Cônsul-Geral chinesa “desde o início dos laços diplomáticos, o relacionamento bilateral vem-se desenvolvendo estavelmente sobre a base de respeito e igualdade. [...], além de ampliar a cooperação em inovação e estreitar intercâmbios humanos, injetando, com isso, novo vigor ao relacionamento sino-brasileiro”.

Mas o ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, Marcos Jorge de Lima parece apresentar outra interpretação para a guerra comercial que está em curso entre China e Estados Unidos e suas possíveis consequências para o comércio global, inclusive significando perda de emprego e renda para o Brasil.
A política protecionista de Donald Trump e a imediata reação chinesa significa uma disputa comercial entre os dois países. De acordo com a Agência Brasil, isso pode representar em um primeiro momento o favorecimento de alguns setores da economia brasileira, como o aumento da procura pela soja, por exemplo, um dos produtos taxados pela China, mas à longo prazo, o cenário global não se apresenta promissor. Em entrevista à Agência Brasil, Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil China, afirma que “todo mundo vai ser perdedor”, afirmando que, à longo prazo esse cenário pode “danificar a economia mundial”. Dados divulgados no jornal Folha de São Paulo de hoje (15) apontam que a taxa oficial de desemprego ficou em 12,4% no segundo trimestre, representando queda em relação ao primeiro e o número de desempregados chegou a 65,6 milhões, representando alta de 1,2%, o mais alto da série histórica do IBGE.

Finalizamos esse artigo abrindo alguns questionamentos sobre o papel do Brasil em meio à crise capitalista e à disputa entre ambas as potências. Será o Brasil um aliado-amigo em pé de igualdade de disputa econômica como a China tem apresentado em seus discursos oficiais? Ou restará ao Brasil mais uma vez o lugar de quintal do estrangeiro, onde as forças de trabalho são superexploradas pelos grandes imperialistas mundiais? Fato é que em meio à crise econômica provocada pelos próprios capitalistas, países como o Brasil, que cresceram e se desenvolveram a partir da exploração histórica da classe trabalhadora não pode se deixar levar pela promessa asiática de parceria econômica. A própria China é um oceano de lutas operárias. Por milênios, foram os camponeses que tiveram o poder de legitimar ou destituir um imperador. Salvo às devidas proporções históricas, pois não queremos cair em um erro anacrônico, durante as primeiras dez semanas de 2018 houve mais de 400 greves notificadas pelo governo chinês contra a falta de direitos trabalhistas, especialmente nas usinas de carvão e aço. Assim, nas palavras de André Augusto, um dos editores da Revista Ideias de Esquerda e Mestrando em ciência política pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, talvez o maior papel que o Brasil devesse tirar desse cenário atual é o impulso à luta de classes mundial vindo de uma superpotência ascendente.




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