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Anime e luta de classes - One Piece e o espírito revolucionário

Samuel Rosa

Antônio D.

Anime e luta de classes - One Piece e o espírito revolucionário

Samuel Rosa

Antônio D.

Recentemente o Anime One Piece tem sido tema de debate entre espectros do “progressismo”. Buscamos trazer um diálogo colocando alguns elementos centrais para pensar essa história, partindo de uma breve retomada sobre a trajetória do gênero, apresentando os principais personagens e dinâmicas de One Piece, com objetivo refletir se há elementos revolucionários nesta história, e se sim, quais seriam eles, além é claro, de apontar contradições e críticas que desenvolvemos.

As animações conhecidas como “animes” surgem no início do século XX no Japão, inicialmente como curta-metragens, porém após a 2º Guerra Mundial aparecem os grandes estúdios que se dedicam ao gênero e desenvolvendo sua indústria. Os registros apontam que as primeiras animações produzidas no Japão datam 1917. Já no Brasil só chegaram nos anos 60, e realmente popularizaram-se na década de 90 com títulos como “Os Cavaleiros do Zodíaco", tendo um boom no nas primeira década do século XXI com animes como Naruto e Dragon Ball.

Nas últimas décadas, essas animações vêm se consolidando enquanto uma linguagem audiovisual e influenciado na cultura pop, principalmente no oriente, mostrando que há um gigante potencial a ser desenvolvido. Como toda produção no modo capitalista esta indústria não está isenta das brutais contradições que o mercado cria, a começar pelo regime de trabalho de brutal precarização que vivem os animadores e dubladores.(que desenham as cenas).

One Piece

Em 1997, Eiichiro Oda lança o mangá One Piece. Já em 1999 é transformado em Anime pelo estúdio Toei Animation. A animação continua em produção até os dias de hoje, sem perspectiva de encerramento próximo, possuindo mais de 1000 capítulos. Mesmo com esse extravagante tamanho a história nunca fica monótona, isso pelo fato da dinâmica da história se desenvolver justamente em função da exploração do mundo fictício onde Luffy e os Piratas do Chapéu de Palha procuram pelo famoso tesouro “One Piece”.

A história se desenrola ao redor das aventuras do pirata Monkey D. Luffy, protagonista do Anime e capitão da tripulação dos piratas do Chapéu de Palha. Luffy persegue avidamente um tesouro deixado escondido pelo antigo Rei dos Piratas, o “One Piece”. A lenda reza que o pirata que o encontrar será o próximo Rei dos Piratas. Luffy quer o título para si, quase em todos os episódios ele reafirma esse desejo de ser o Rei dos Piratas, pois supostamente o Rei dos Piratas seria a pessoa mais livre do mundo. Sua busca é pela liberdade, não só para ele mas para todos.

Nos capítulos iniciais é formada a tripulação, sendo recrutada de ilha em ilha. O primeiro a ser recrutado é o espadachim Zoro, seguido da cartógrafa Nami, do atirador mentiroso Usopp, do cozinheiro Sanji e do médico Chopper (rena falante). Além desses, a tripulação é composta por mais três membros que são recrutados à medida que a história se desenvolve, são eles Robin, Franky e Brook.

O mundo de One Piece

Esse território é regido por algumas instituições que valem menção. A principal é o Governo Mundial (GM). Esta é composta pelos monarcas dos países que se uniram a séculos atrás para derrotar uma civilização tecnologicamente superior através de uma grande guerra, após vencerem apagaram toda história do mundo antes da criação do GM. Quem comanda esse Governo Mundial são os Dragões Celestiais (nobreza da nobreza), no anime eles são retratados como depravados e repugnantes ao usarem do resto do mundo como objetos, inclusive os monarcas “nacionais”. Além do apagamento da história, a hegemonia do GM é imposta através da força, principalmente militarmente, com a Marinha representando uma mistura de exército permanente e força policial. A principal vantagem dos Dragões é o acesso a história, o restante da população é alienada totalmente sobre sua história. Vale a menção da existência de uma força de repressão “secreta” chamada de Cipher Pol, essa se encarrega de assassinatos, sabotagens, etc. E que é complementada pelos 7 Lordes (piratas recrutados pela Marinha para garantir a “paz”). O Governo Mundial íntegra os 170 países que o compõem, mas deixa relativa autonomia aos monarcas com eles alinhados. A instituição é retratada no Anime de forma semelhante aos Dragões Celestiais, um regime claramente degenerado e corrupto.

Um grupo que vale a menção é o Exército Revolucionário (ER), liderado pelo pai de Luffy, Monkey D. Dragon. O RA é a maior força anti-GM do mundo de One Piece. Dragon é considerado o homem mais perigoso do Anime pelo GM. Em torno do ER há algumas referências a revolucionários socialistas como o Che Guevara, que claramente é inspiração para a a estética do Comandante Gaburo, também é interessante o trocadilho feito com o nome do barco do Dragon chamado de “Granma”, mesmo nome do iate que levou Fidel Castro para a revolução Cuba em 1956. A atuação desse "Exército Revolucionário” até agora não está clara, porém tudo indica que se coloca nos marcos de uma força “democrática”. Um dos exemplos onde isso fica claro é na insurreição que ocorre na Ilha de Dressrosa, quando Luffy e os Chapéus de Palha com apoio de outros piratas e da população da ilha derrotam o tirano Doflamingo que escravizava os seus cidadãos para operarem as indústrias bélicas lá instaladas. A atuação do ER durante esse acontecimento é de aproveitar a confusão e roubar as armas da ilha ao invés de tentar interferir na insurreição. Atuações como essa acontecem em diferentes arcos da história e valem uma reflexão mais estratégica em outro momento, relacionando os elementos estéticos do guevarismo que são colocados no anime com o importante debate que nossa corrente faz sobre a luta armada, e como ela em si não é sinônimo de uma política revolucionária.

Contexto desse mundo fictício

O principal elemento que vale destaque é sobre as relações de econômicas e políticas, pois essas se aproximam de uma estrutura feudal, com alguns indícios do desenvolvimento das forças produtivas e acumulação primitiva do capital. Em geral a política é colocada nessa chave feudal com um líder maquiavélico “bondoso e justo”. As ilhas que são visitadas pelos piratas apresentam todas as contradições de uma sociedade regida por classes, principalmente nos modelos aristocráticos. É retratado na história, frequentemente, situações que vão dá fome ao racismo chegando em temas como a escravidão.

A tripulação do Chapéu de Palha vai explorando esse mundo fictício em busca do tesouro “One Piece”, parando em cada ilha que cruza sua visão e descobrindo mistérios e injustiças. Na maioria das ilhas Luffy encontra um tirano que explora uma população oprimida ou diretamente escravizada para manutenção dos luxos de alguns poucos. Luffy, em geral, derrota esses “vilões”, às vezes lutando só com sua tripulação pirata e já em outros casos apoiando nos oprimidos que se revoltam junto com os piratas.

Espírito revolucionário em torno do Luffy e da tripulação dos Chapéus de Palha enquanto tribunos dos povos oprimidos e escravizados.

Primeiro trazemos uma breve explicação sobre “tribunos do povo”. Essa é uma expressão usada por Lenin no texto O que fazer?, onde ele retoma os agitadores da Rev. Francesa, esses buscavam influir com sua política em outras camadas e setores da população. Ou seja, falar com outros setores de explorados e oprimidos, com as mulheres, os jovens, os trabalhadores precários, os desempregados, e conduzi-los no combate. O discurso de um tribuno do povo encontra eco nas massas e é apoiado pela energia da classe revolucionária.

Vemos uma conexão com esse elemento especialmente no Arco do Wado (país samurai), esse território é dominado por um tirano sob tutela de um dos maiores piratas do mundo (Kaido, que é um dos 4 reis dos mares). Os piratas do Chapéu de Palha tentam uma incursão contra esses tiranos e perdem, eventualmente com Luffy é aprisionado numa cadeia junto aos trabalhadores do país, lá se forma uma aliança dos piratas do Chapéu de Palha junto com os trabalhadores em armas, organizando uma insurreição a fim de derrotar os tiranos. No Arco de Dressrosa, exemplo que usei anteriormente para criticar o Exército Revolucionário, vemos questões interessantes justamente quando através de várias situações no meio de uma insurreição cabe a Luffy derrotar Doflamingo (esse que está disposto a matar todos na ilha a perder), a população e outros piratas presentes literalmente se sacrificam para garantir que os Chapéus de Palha vençam, ao olhar com atenção esse episódios fica claro que a população não só apoia ativamente mas vê eco de suas aspirações de liberdade nas ações do pirata Luffy.

A última situação que trago em destaque é o saga da Ilha dos Homens peixes, um território habitado majoritariamente por homens-peixe (se enxerga nitidamente como uma representação dos não-brancos no anime), essa população é caçada no mundo exterior, vindo a ser escravizada e leiloada para os Dragões Celestiais. Logo, abre-se espaço para um sentimento “nacionalista” entre os homens-peixes, invertendo a lógica do odio racista que sofreram, um dos piratas da ilha instaura uma insurreição contra o governo querendo dominar o restante do mundo, parte da população apoia, principalmente os que habitavam os distritos mais miséraveis da ilha, porém em determinado momento se vê uma virada o jogo, e a população passa a apoiar Luffy que busca derrotar esse piratas para salvar uma amiga,sem uma discussão sobre a estrura organizativa daquela ilha, mas ao mesmo tempo deixandoclaro que esses habitantes da ilha dos homens peixes depositam suas ultimas esperanças nos Chapeús de Palha, não só para acabar com a insurreição mas para acabar com o odio.

Os homens-peixe cultuam um deus, o Sol, que em grande parte da história fica como um elemento perdido, até que se esclarece que o Deus Sol, é uma representação da liberdade, uma figura que no passado lutou pelos povos oprimidos. Agora um spoiler (esse dos é brabo! sorry!), a fruta que dá os poderes de Homem Borracha para Luffy na verdade não é a Gomu Gomu, como mostrado ao longo da história, mas sim a mesma fruta do Deus Sol, uma fruta que concede os poderes de controlar o corpo como quer, uma fruta que representa a liberdade e que foi apagada da história pelo GM. Liberdade em One Piece só pode se dar quando a população toma conhecimento da sua história e da violência que foi e é a sociedade de classe. O Rei dos Piratas cumpriria esse papel. Lembramos que aqui trazemos algumas especulações e que One Piece ainda está em curso.

Não poderíamos deixar de trazer algumas críticas sobre elementos diretamente conservadores na história. Para pensar esse debate exploramos os Arcos da história de One Piece um a um através de uma Wiki criada pelo fã-clube do Anime. Ao olharmos empiricamente para a atuação dos piratas, em especial do Luffy D. Monkey, o papel que ele cumpre na realidade material do mundo ficcional de One Piece é certamente contrarrevolucionário. Quando digo a realidade material do mundo ficcional quero que entendam não do impacto nos espectadores, mas justamente imaginando uma análise do concreto que a atuação dele tem no mundo de One Piece. Esse papel do Luffy é visto em diversos momentos do anime, onde o pirata em geral derrota os tiranos que exploram os oprimidos e devolve o poder político um representante da monarquia que supostamente seria “bondoso e justo” e faria o bem da população. Dito isso, o que vemos de mais interessante em One Piece é justamente o impacto mais subjetivo que pode trazer nos espectadores, um contagiante espírito revolucionário que gira em torno do Luffy e da tripulação dos Chapéus de Palha que se colocam em contracorrente ao senso comum presente no resto dos personagens da história e diretamente enfrentam as amarras que oprimem e escravizam a população, atuam enquanto tribunos dos povos.


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Estudante e Militante MRT no RS
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