Política

ELEIÇÕES 2018

Análise: tutela judicial e debate pulverizado pela busca de diferentes eleitorados

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

sábado 18 de agosto| Edição do dia

Foto: Diego Padgurschi

O debate da RedeTV transcorreu pasmacento noite adentro e sob renovada estocada do judiciário, que ignorou resolução da

ONU exigindo a participação de Lula nos debates

Bolsonaro, em seu tradicional reacionarismo e machismo, e que já defendeu a diferença salarial entre homens e mulheres, ficou irritado com Marina e tentou partir para cima. Isso favoreceu Marina, que se colocou como vítima de sua agressividade, afirmando “que ele não sabe o que é ser mulher”. Evidentemente, a retórica de Marina não resolve o problema. A candidata é contrária ao direito ao aborto, o qual ceifa 4 vidas de mulheres por dia, e sua agenda neoliberal significará mais desemprego e mais perdas de direitos sociais justamente para elas – reforçando o trabalho doméstico não remunerado, que recai em dobro ou triplo sobre mulheres e meninas.

Fora isso Marina procurou se firmar como ética, defensora da Lava Jato e da intervenção do judiciário na política. E em dobradinha com Ciro buscou mostrar que ambos foram parte do governo Lula. Estão buscando aí um flanco eleitoral do “lulismo ético”.

Já Ciro está ainda mais exprimido, não desiste do “voto do mercado”, e tenta ao mesmo tempo aparecer como de centro-esquerda. Insistiu no seu “hit” do SPC, tentou disputar a paternidade do Plano Real com os tucanos, enquanto lhes criticava por defender a PEC 55, em uma bipolaridade que não lhe rende votos suficientes à esquerda nem do “mercado”. Ciro está encurralado entre PT, Alckmin e Marina, sem conseguir criar um espaço próprio.

Notável como no debate o tema da dívida pública ronda sem encontrar uma crítica radical, uma vez que Ciro defende, tal como o PT, a continuidade desse pagamento criminoso.

Meirelles comprova mais uma vez que sua candidatura serve somente para diminuir a identificação de Alckmin com Temer. Mas, mesmo assim, sem grande sucesso, já que Alckmin repisou sua tática de “primeiro o mercado”, insistindo na PEC 55, nas reformas de Temer e em privatizar tudo, vestindo a carapuça dos “cinquenta tons de Temer” lançada por Boulos no debate anterior.

Bolsonaro e Dias disputavam quem se oferece mais estridentemente como candidato do golpe e anti-PT. Daciolo, que à primeira vista parecia uma vingança do partido Patriota a Bolsonaro por este ter desistido de se lançar pela legenda, pode servir não somente para tirar do ex-capitão alguns votos, como pode, ao contrário, resultar no oposto. Diante de um candidato que repete o tempo todo “para honra e glória de Deus”, Bolsonaro, apesar de tudo, pode parecer mais ao centro, o que pode lhe firmar os votos que tanto interessam a Alckmin.

A quantidade de menções a Deus, a recorrência do debate sobre o direito ao aborto, para negá-lo, a insistência na necessidade das reformas de Temer e a intervenção do judiciário na política sendo reivindicada mostram a ausência de um flanco marcante no debate: uma voz anticapitalista para combater o golpe e sua continuidade.

Boulos conseguiu não mencionar a prisão arbitrária de Lula em todo o debate, mesmo com a resolução da ONU daquele mesmo dia. Além disso, insistiu em sua proposta tributária em repetidas ocasiões do debate.

Essa exposição de flancos principais buscados pelos candidatos mostra como, até o momento, estão todos buscando firmar um eleitorado específico. A baixa audiência do debate também favorece essa dispersão e ausência dos “embates decisivos”.

O segundo debate televisivo – de menor audiência que aquele da Band – alcançou um pico de 4,4 pontos em SP e 5,3 no RJ, diferente dos 8 pontos que havia alcançando o primeiro debate. A transmissão paralela do PT havia alcançado 1 milhão de visualizações somente na página de Lula durante o debate da semana passada; ontem, nem transmissão fizeram.

As pesquisas eleitorais ainda não cravam tendências claras. Uma mostra Haddad subindo, outras não. Todas, contudo, coincidem em uma coisa: há grande parcela de votos nulos e eleitores indecisos, particularmente entre as mulheres. Qual a força de Alckmin? Ele tem quase metade do tempo de TV, mas tem também vasta defecção de seus aliados, particularmente no Nordeste. E qual a “resiliência” do voto em Bolsonaro? Estas constituem algumas das grandes variáveis dessa eleição até agora.

Antes do início do tempo de televisão e dos debates de grande audiência (SBT, Record e Globo), tudo fica ainda mais incerto. Some-se a isso a renovada tutela do judiciário sobre as eleições, para garantir melhores condições em favor da continuidade do golpe e de sua agenda de ataques à classe trabalhadora em intensidade e rapidez superiores àqueles que o PT já fazia.




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