Opinião

TRIBUNA ABERTA

Análise sobre a globalização - Por uma outra Globalização

Republicamos abaixo trabalho final de Arthur Witter Meurer para cadeira de Geografia da graduação de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

quarta-feira 25 de janeiro de 2017| Edição do dia

Miudinhos, perdidos no deserto queimado, os fugitivos agarraram-se, somaram as suas desgraças e os seus pavores. O coração de Fabiano bateu junto do coração de Sinhá Vitória, um abraço cansado aproximou os farrapos que os cobriam. Resistiram a fraqueza, afastaram-se envergonhados, sem ânimo de afrontar de novo a luz dura, receosos de perder a esperança que os alentava.” – Vidas Secas, Graciliano Ramos



Quando questionado o porquê da sua opção pela geografia, Milton Santos sem hesitar responde que as populações as quais “mudam de lugar”, migram, o chamavam atenção. O fragmento acima retirado de Vidas Secas expõe um pouco a luta do povo nordestino que se locomove em busca de água (para beber, plantar e criar o gado) e alimentos. Todavia, segundo Josué de Castro em Geografia Da Fome as causas que ocasionavam a fome no Nordeste, além do período de secas, são o latifúndio e a monocultura – “O problema do semiárido não é a seca, é a cerca”. (Revista Cronos, 2009). A partir daqui, será analisado a globalização e suas contradições, seus conflitos de interesses e, junto à crítica, a amostragem de uma nova globalização.



Tendo em vista o exemplo dado anteriormente, pode-se ver que antes da globalização como a qual conhecemos, a globalização do século 20, os conflitos de interesses já afetavam a vida da população nordestina. E agora, com o avanço das tecnologias no campo (Revolução Verde, década 1950), a produção em largas escalas, o incentivo do Estado ao agronegócio, à monocultura para exportação, à continuidade dos latifúndios brasileiros e, em âmbito mundial, o interesse da classe dominante pelos recursos naturais, a crise do capitalismo, o imperialismo e, depois das décadas de 1980 e 2000, a ‘volta’ do neoliberalismo, quais são as atuais contradições?



A primeira fase da globalização advém das grandes navegações, do colonialismo - e posteriormente, do neocolonialismo. Tanto no colonialismo como neocolonialismo, o objetivo das nações colonizadoras era usurpar dos habitantes daquelas terras, os tornando escravos ou consumidores - eram vistos como mão-de-obra ou como uma possibilidade (visto que resistiram) de um novo mercado; eram vistos como seres inferiores, sendo que no período neocolonial surge a expressão do “fardo do Homem Branco”, que deveria levar a “civilização” à África. O outro objetivo dos imperialistas se apropriar dos recursos naturais daquelas terras, como por exemplo, a prata de Potosí, o pau-Brasil, o ouro e os diamantes africanos. Na segunda fase da globalização, as mesmas ações foram e ainda são tomadas: o avanço das multinacionais, do capital estrangeiro, e os recursos naturais que interessa as nações hegemônicas são o “ouro negro”, o petróleo e, também, a água. Em 1989, o chamado Consenso de Washington compôs uma lista de dez regras elaboradas por economistas do FMI e do Banco Mundial, logo, medidas neoliberais, que deveriam ser seguidas para que os países latino-americanos recuperassem as suas economias. No entanto, essas regras davam a oportunidade das multinacionais adentrarem nos países de interesse - por causa da reforma tributária, que constava no Consenso de Washington - e criar bases em países cuja mão-de-obra é de baixo custo. Nesse contexto, segundo A precarização tem rosto de mulher, surge o trabalho terceirizado no Brasil. E a globalização, então, possibilita que o capitalismo estenda seus tentáculos dos Estados Unidos à Taiwan, ao México, à China – nos Estados Unidos fixa-se a área administrativa da multinacional; em Taiwan e na China são produzidas partes do produto que será montado no México, por exemplo; ou seja, os trabalhadores são super explorados por não terem um salário digno em relação ao trabalho que prestam, não recebem todos os direitos que deveriam receber (atraso nos pagamentos do vale transporte e alimentação – caso cotidianamente brasileiro), trabalham horas dentro das fábricas sob condições precárias em prol do lucro de 1% da população mundial (vide Riqueza de 1% deve ultrapassar a dos outros 99% até 2016, alerta ONG, BBC Brasil)



Ademais, a privatização de estatais também estava dentro das normas do Consenso. No documentário O Mundo Global Visto do Lado de Cá, vê-se, por exemplo, o interesse das multinacionais e do Estado em privatizar a água de Cochabamba (Bolívia), por volta dos anos 2000 – e que através de manifestações e a resistência do povo boliviano, a medida foi barrada. Em 2016, segundo o Jornal Correio do Brasil, foi cogitado o interesse da privatização do Aquífero Guarani, interesse da multinacional Nestlé. Sobre o petróleo: segundo Hugo Chávez, em Vozes Contra a Globalização, o petróleo da Venezuela fora levado pelo imperialismo norte-americano durante 100 anos. Vale lembrar também que desde 2007, há interesse das empresas multinacionais americanas, holandesas, chinesas e norueguesas pelo petróleo brasileiro (Chevron, Royal Dutch Shell, Corporação Nacional de Petróleo da China e Statoil) – sendo que no ano de 2013, ocorreu a partilha do Campo de Libra, durante o governo de Dilma Rousseff (PT).



Cogita-se, também, que há anos deputados, juízes e senadores brasileiros passavam informações da Petrobrás os Estados Unidos e para essas empresas, segundo o Wikileaks: Projeto Pontes – EUA treina agentes da Polícia Federal e agentes judiciais, entre eles o juiz Sérgio Moro; Serra prometeu à Chevron que se vencesse as eleições em 2010 mudaria a legislação que rege a exploração do Pré-Sal; Lisa Kubiske cita Jucá como fonte da embaixada americana.



Podemos citar aqui a Guerra no Iraque ocasionada pelos EUA que segundo George W. Bush, era uma guerra “antiterrorista” – em busca dos culpados pelo 11 de setembro. Cabe rememorar que o Iraque é o país que tem a maior reserva de petróleo do Mundo. O imperialismo criar guerras quando há interesses econômicos. Sendo assim, pouco importa para as “grandes nações” quantos civis terão vidas destruídas.




Além disso, trazendo para o contexto da globalização o livro Vidas Secas, citado na introdução desta análise, o Estado Brasileiro, mais especificadamente o Poder Legislativo, recheado de Bancadas, sendo uma dela a ruralista (ou do Boi), mantém o poder da contrarreforma agrária nas mãos, para que seus latifúndios e monoculturas continuem existindo para que a exportação de, principalmente, grãos (soja), mesmo que esta acabe acarretando no problema da fome e da pobreza, a morte de indígenas, problemas no solo e no ambiente, já que é preciso produzir alimentos em grande quantia (mercadoria), que pode causar doenças aos consumidores por causa do uso excessivo de agrotóxicos nas plantações (sendo a Monsanto como a maior produtora de agrotóxicos), e mesmo que haja agrotóxicos proibidos, eles continuam e continuarão sendo utilizados, segundo a Anvisa (em O Veneno Está na Mesa); continuam mantendo as leis para que produção de alimentos orgânicos seja mais burocrática, para o benefício próprio e para o benefício das empresas de insumos que financiam suas campanhas. Nas palavras de Marx, “O Estado é o balcão de negócios da burguesia”, em Manifesto Comunista – há melhor exemplo que a nomeação de Kátia Abreu como Ministra da Agricultura do Governo Dilma (?)



Podemos citar também um exemplo retirado de Vozes Contra a Globalização dito para provocar a reflexão acerca da pobreza e da fome na África – “A quem pertence [...] as zonas de pesca da África? Vamos ver a quem pertence. E se sabemos a verdade, então podemos encontrar uma solução. Podemos dizer: “por isso são pobres.”



A pergunta que deve ser feita para compreender a globalização como perversidade é ‘a quem ela mais beneficia? ’ – Como Karl Marx desenvolve no Manifesto Comunista, estamos divididos em duas classes principais, burguesia e proletariado, mas hoje poderíamos (para facilitar reflexão) separar entre ricos e pobres, os que administram as fábricas, os banqueiros, os grandes acionistas e os que tudo a produzem, os que prestam serviços de limpeza e os desempregados afetados pelas crises capitalistas. 



Uma outra globalização poderá superar essa globalização. Se o Homem a criou, o Homem pode superá-la. A globalização, junto ao avanço da tecnologia, permite que possamos nos comunicar com mais facilidade e, até mesmo, em tempo real. Deve-se usar desses elementos para alterar o modo como vivemos, ou melhor, que 99% da população mundial vive. Fala-se em enfraquecimento das fronteiras após a queda do Muro de Berlim, em 1989 e, posteriormente, a queda da União Soviética e do “socialismo real” (estalinismo burocrático) em 1991. Não obstante, deve ser questionado ao que ou a quem essas fronteiras enfraqueceram? Os muros das fronteiras se enrijeceram para as pessoas, para os que se refugiam dos conflitos e da miséria dos seus países, mas se liquidificam para o capital, para importação e exportação de mercadorias de alguns países, podendo se solidificar para as mercadorias de outros – os embargos. Por exemplo, a Guerra na Síria e na Palestina faz com que esses povos emigrem constantemente para países da Europa, ou para a América do Norte; os Estados Unidos é o maior produtor bélico do Mundo; vende suas armas para Israel e financia grupos “rebeldes” na Síria – a França faz o mesmo. Mas, normalmente esses países, impedem diariamente a entrada de imigrantes sírios e palestinos. Ou seja, o capital estadunidense e francês permeia aos muros de Israel e da Síria, assim como o capital israelita poderá adentrar nesses países. Contudo, somente o capital; as pessoas não. A contradição parece velada, mas acaba por ficar clara.



A globalização é perversa. Isso, para Milton Santos é denominado de globaritarismo, pois há a falsa impressão que após a queda de Hitler e Mussolini não vivemos sob as regras de governos autoritários. Se o capital não é autoritário tendo em vista os exemplos acima, o que seria? Está longe de ser democrático, mesmo que vivamos sob os ares da democracia – vale ressaltar, democracia burguesa, ditadura da burguesia sob os demais.
 


É possível romper com o atual modo de produção. A alimentação poderá ser produzida organicamente e para todos, como pode-se ver em O Veneno Está Na Mesa. Os trabalhadores poderão assumir autonomamente as fábricas, como pode-se encontrar ao ler a história da fábrica Zanon, na Argentina, e da Ocupação da Mabe, no Brasil. A pobreza poderá chegar ao fim quando o capitalismo acabar e, junto com ele, suas crises cíclicas que geram desemprego, menores salários e violência. A natureza, tão importante para que o Ser Humano possa existir (Intercâmbio Orgânico com a Natureza, K. Marx) poderá ser preservada, já que a produção será de subsistência, diferentemente do plantation vigente. 


Sintetizando - na globalização como perversidade nota-se o conflito de interesses entre uma classe e outra, entre a maioria da população mundial que nada tem e uma minoria que a tudo conquista com a ajuda dos Estados Nacionais; e uma outra globalização que seria de interesse da humanidade em geral; a primeira vê o Mundo pelo seu valor de troca; a segunda pelo seu valor de uso.



Concluo esta analise com um fragmento de um poema de Eduardo Galeano que expressa bem o que é a globalização como perversidade:



“[...] As bancarrotas são socializadas, os lucros são privatizados.
O dinheiro é mais livre que as pessoas.
As pessoas estão a serviço das coisas.”





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