Cultura

COLONIALISMO

América Latina: uma história de genocídio, saque, exploração e luta

Passaram mais de 500 anos da conquista e o colonialismo dos europeus na América e as palavras que identificam esse processo são saque, genocídio, exploração, transculturação.

sexta-feira 13 de outubro| Edição do dia

Depois da chegada de Cristóvão Colombo, a finais do século XV (em 1492), centenas de exploradores europeus empreenderam o reconhecimento territorial do novo continente. A incorporação dos novos territórios à Coroa espanhola e portuguesa supôs a implementação de uma conquista cruel e desapiedada.

O primeiro impacto foi assombro, logo depois medo, diante dos “canhões arcabuzes, mosquetes” e a presença “mágica” do homem branco em cima de um cavalo. Os invasores aproveitaram o desconcerto e dominaram as sociedades mais desenvolvidas dos povos originários que por sua vez, eram mais populosas e imponentes que as existentes na Europa.

Chocaram dois mundos desconhecidos entre si com os mais diversos estágios de desenvolvimento. A vantagem para os europeus foi conhecer a pólvora, a bússola, o papel e a imprensa.

O fato de pisar nessas terras produziu uma espetacular cadeia de acontecimentos que transformaram e dinamizaram a história da humanidade. O descobrimento do ouro e da prata no continente desatou uma verdadeira enxurrada de colonizadores. Centenas de expedições e milhares de homens foram atrás das fabulosas fortunas. Nos primeiros 150 anos de conquista, toneladas de prata e ouro chegaram a Espanha e potencializaram o incipiente desenvolvimento comercial e manufatureiro, que abriu as portas para a Revolução Industrial e a o desenvolvimento capitalista da Europa.

O comércio começou a desenhar o mercado internacional e o desenvolvimento econômico que terminariam por sepultar definitivamente a sociedade feudal e o absolutismo monárquico.

Em poucos anos, espanhóis, portugueses, britânicos, holandeses e franceses disputaram o gigantesco botim. Um século depois de sua chegada, mais de 60 milhões de indígenas pré-existentes morreram, sobrando três milhões e meio de almas. Primeiro, foram derrotados, depois, privados de sua cultura e crenças, submetidos ao trabalho escravo e às doenças importadas pelos europeus, encontrando seus organismos sem defesas para resistir os vírus e as bactérias.

A quase extinção da população nativa gerou outro genocídio; o de propiciar o repudiável comércio de seres humanos, de arrancar milhões de africanos de sua terra natal para trazê-los como nova mão-de-obra escrava.

Ingleses, holandeses e franceses se destacaram nesse negócio infame. Os caçavam como animais na África, em seguida os carregavam em barcos para atravessar o Atlântico. Seu primeiro destino eram as Antilhas, depois praticamente todo o resto do continente.

Só entre 1680 e 1688, a Real Companhia Africana embarcou 70 mil africanos, dos quais só chegaram às costas americanas cerca de 46 mil. No Haiti, ingressava uma média de 30 mil escravos por ano. Em 1789, a população da metade francesa da ilha espanhola era de 40 mil brancos e 450 mil escravos.

A reconstrução das datas disponíveis, permite determinar que, não menos em um século, se importaram cerca de 10 milhões de nativos africanos. Segundo fontes inglesas, essa estimativa se duplica.

Se tomamos em conta que grande parte dos africanos morria antes de pisar em terras americanas, vítimas das prisões, do translado até os barcos, das tortuosas travessias amontoados, nas bodegas ou no desembarque, a cifra de seres arrancados violentamente da África pode se elevar a 40 ou 50 milhões desde que começou esse desprezível comércio até meados do século XIX, provocando o arrasamento de aldeias e etnias.

Ouro e prata para a Europa

A sociedade capitalista se concebeu a partir do sangue, da escravidão e do saque impulsionado pelas potências europeias da época. Karl Marx escreveu que “os descobrimentos das jazidas de outro e de prata na América, a cruzada de extermínio, a escravização das populações indígenas, forçadas a trabalhar no interior das minas, o começo da conquista e do saque nas Índias, a conversão do continente africano em fonte de escravos negros, são todos fatos que demonstram a aurora da era da produção capitalista (...). As riquezas arrancadas pelo saque e levadas para a Europa, a escravização e o massacre refluíam até a Metrópole, onde se transformavam em capital. (...) O capitalismo aparece suando sangue e lodo por todos os seus poros”.

O ouro e prata americanos contribuíram para formar os primeiros grandes capitais europeus, que dinamizaram a economia e detonaram a Revolução Industrial.

Assim se foi gestando a sociedade capitalista. O capitalismo realizou suas máximas possibilidades de desenvolvimento nos países mais avançados da época, onde se produziram os saltos mais dinâmicos na primitiva acumulação de capital, baseados essencialmente no saque e na repartição do mundo.

Entre 1503 e 1660 saíram das terras americanas em direção à Espanha, segundo constâncias documentadas em Sevilla e Madri, cerca de 200 toneladas de ouro e 17 mil toneladas de prata.

Segundo as estatísticas mais autorizadas, a produção de ouro e de prata, entre 1503 e 1560, foi estimada em 173 milhões de ducados. Outras estimativas dão em torno de 90 mil toneladas de prata extraídas das entranhas americanas no lapso compreendido entre 1500 e 1800 e sua avaliação seria de uns 120 milhões de dólares atuais.

Se gerou assim uma divisão internacional do trabalho que adotou formas de triangulação: América aportou ouro, prata, matérias-primas e a mão-de-obra; África forneceu a mão-de-obra escrava que substituiu os exterminados nativos americanos e a Europa ficou com o pote de ouro, já que produziu e comercializou os produtos manufaturados a vez que capitalizou as transações dos demais vértices da triangulação.

Muitos herdeiros daqueles que sofreram na pele as atrocidades dos invasores europeus e o cínico papel da Igreja, aproveitaram a oportunidade da viagem de João Paulo II a Lima, em 1984, para lhe entregar uma carta assinada pelo Movimento Índio Kollasuyo, pelo Partido Índio e pelo Movimento Túpac Katari, da Bolívia e do Peru, que em um de seus parágrafos dizia o seguinte: “Decidimos aproveitar a visita do Papa para devolver a sua Bíblia, pois em cinco séculos não nos deu nem paz, nem amor, nem justiça... Por favor, leve a sua Bíblia e a dê aos nossos opressores, cujos corações e cérebros necessitam mais de seus preceitos morais... Recebemos a Bíblia, que foi a arma ideológica do assalto colonialista. A espada espanhola que de dia atacava e matava corpos índios, de noite se tornava a cruz que atacava a alma indígena...”.

O aniquilamento continuou, as rebeliões também

Apesar da enorme desproporção de forças, os submetidos pelos conquistadores se rebelaram em inumeráveis oportunidades. Uma das mais destacadas foi a de 4 de novembro de 1780, liderada por José Gabriel Condorcanqui: Túpac Amaru.

As rebeliões e massacres praticamente abarcaram todo o continente. Tantos os nativos do longínquo oeste, como os dos pampas, reagiram com distintas formas de resistência ao avanço incontido sobre suas terras.

Em 1522, os escravos de Diego Colombo – filho de Cristóvão Colombo – levaram a cabo a primeira sublevação que se tem memória, foram derrotados e terminaram enforcados, mas marcaram um caminho.

No Brasil, numerosos escravos fugiam das explorações em direção a selva. Foram se concentrando e organizando até chegar a constituir o reino de Palmares, na região Nordeste. O terreno que controlavam, chegou a alcançar um terço do domínio português da época. Durante todo o século XVII, resistiram o assédio das expedições holandesas e portuguesas que tentaram aniquilar a esse “mal exemplo”.

Em 1791, se instalou uma exitosa rebelião no Haiti, que conseguiu abolir a escravidão e desencadeou uma fuga massiva dos brancos. Treze anos depois, constituíram a primeira república negra da América, cuja constituição considerava todos os cidadãos como negros, independentemente da cor de sua pele.

O que celebram?

As hipócritas denominações com que se segue comemorando o aniversário da chegada de Colombo, colocam em manifesto o intento de dissimular, encobrir e minimizar os crimes cometidos. Celebrar “o descobrimento da América” significava esquecer, nada menos, que existiam cerca de 70 milhões de seres humanos que já viviam no continente e disfrutavam dele. As outras denominações, “encontro de culturas” ou “de dois mundos”, foram um débil intento de falsificar a histórica, dado que esse “encontro” não teve nada de pacífico como pretenderam instalar os colonizadores.

Os oprimidos seguiram o caminho de luta

Desde essa época as classes dominantes e os povos do continente têm uma larga história de enfrentamentos. Uns por continuar a exploração e outros por sua libertação.

O sistema de dominação imperante e os governos funcionais a esse status quo, são os responsáveis pelo empobrecimento generalizado, pelo afundamento das economias e pela descomunal entrega das riquezas naturais. Eles são os causadores de que milhões de crianças, mulheres e homens latino-americanos padeçam hoje de fome, misérias e marginalização.

Ontem, como hoje, o sangue, o suor e as lágrimas que correm são dos oprimidos e a luta por terminar com a exploração, também.




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