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Amazon- Madrid: uma greve europeia, uma classe internacional

Durante três dias, os trabalhadores da Amazon em Madrid realizaram uma greve parar defender seus direitos trabalhistas, apesar da divisão imposta pela empresa e da repressão do Estado. Um balanço com dois companheiros correspondentes do jornal parceiro no Estado Espanhol, IzquierdaDiario.es, conta os detalhes e as circunstâncias desta greve.

terça-feira 24 de julho| Edição do dia

Contra todos os prognósticos daqueles que agouram a morte da classe operária, a greve de 72 horas no centro logístico da Amazon de San Fernando de Henares mostrou que a luta de classes não só não se extinguiu como parece voltar fortemente.

O Prime Day da Amazon é um dos maiores dias de venda do ano para a empresa de comércio eletrônico, junto com a Black Friday em novembro. É por esta razão que esta data foi estrategicamente escolhida pelos trabalhadores para convocar três dias de greve no maior centro logístico da Espanha. No ano passado, durante o Prime Day, o armazém MAD4 despachou quase um milhão de pacotes. No início da semana passada, o panorama era bem diferente: um estacionamento de caminhões praticamente vazio e poucas cargas e descargas de mercadorias.

Os trabalhadores da Amazon já haviam sustentado uma greve muito forte nos dias 21 e 22 de março, que atingiu uma adesão extraordinária de quase 95%. Durante estes três dias de julho, a greve atingiu 80% de adesão dos assalariados permanentes, porém foi menos aderida pelos trabalhados terceirizados ameaçados de serem demitidos e com represálias por parte da empresa.

“Foram 72 horas de greve contínua, que exigiu muitas horas de piquete e colaboração por parte de todos os companheiros para que chegássemos ao triunfo que obtivemos”, declarou Marc Blanes, delegado da CGT (Confederación General Del Trabajo) do comitê de empresa da Amazon. Prime Day é um dos maiores dias de venda da Amazon no mundo inteiro, mas “ao menos pelo centro logístico de San Fernando de Henares, não houve possibilidade de realizar pedidos”, diz Marc; “os clientes estão reclamando que os pacotes que compraram não chegam e a empresa não está conseguindo cumprir com seus compromissos de venda. Por isso, celebramos o êxito da convocação da greve”.

“Estes três dias de greve foram um êxito completo”, concorda Douglas Harper, delegado da CCOO (Sindicato de Comisiones Obreras) no comitê da empresa. Ele explica: “80% das pessoas que trabalham para a Amazon votaram pela greve; e os poucos funcionários que compareceram para trabalhar são responsáveis pelos serviços ou são os trabalhadores temporários contratados para substituir grevistas”. Para Harper, a greve foi “um passo a frente” e a empresa deverá “fazer propostas na mesa de negociação coletiva”. Sara, uma operária do centro que passou três dias de greve nos piquetes sente “orgulho” pela greve que fizeram. “Agora dependemos da empresa aceitar o acordo anterior de nos oferecer o que tínhamos antes”, explica.

Mas a Amazon não é um inimigo fácil de vencer e a unidade dos trabalhadores, tanto na Espanha, quanto ao nível internacional, é uma das chaves para a vitória. Esta é a constatação feita por Moisés Ferández Rico, presidente do comitê da empresa e militante da CGT para que “nós não deixemos as transnacionais continuarem assim”. Para Moisés, a luta na Amazon é “um movimento que está se globalizando, o início de um novo sindicalismo também global”, que é a maneira como operam as próprias transnacionais. “Este é o caminho, vamos conseguir melhorar as condições de todos os trabalhadores ao nível mundial”, assegura com plena confiança.

Maité considera também que a “greve foi um sucesso”, mas a alegria da luta não reduz a raiva gerada pela repressão sofrida na tarde de terça pela Polícia Nacional, enviada pela delegação do Governo do PSOE em Madrid, e que agiu como verdadeiros “cães de guarda” da empresa. Por isso ela denuncia “a mancha que a polícia deixou, nos oprimindo, não nos deixando fazer os piquetes informativos, não nos deixando parar os caminhoneiros para informá-los, agrediram companheiros; um deles teve que tomar pontos no rosto, outras companheiras tiveram que ir ao hospital, dois foram detidos, outra foi multada...”.

Para esta trabalhadora da Amazon, que também estava nos piquetes durante os três dias de greve, a repressão foi “a pior (das coisas), mas não quer dizer que eles irão nos parar. Se eles pensam que vão nos bater com seus cassetetes três, ou cinco ou seis vezes e, assim, vão nos parar, não é o caso, porque temos que lutar”, disse com convicção. A repressão “nos dá mais força”, reafirma Gema, delegada da CGT no comitê da empresa. “Somos operários, que não pisem em nossos direitos”.

“Temos um difícil desafio, mas com todos, os sindicatos e os coletivos que vieram nos apoiar, entre eles o Izquierda Diario, Pan y Rosas, Contracorriente e a CRT, aos quais estamos enormemente agradecidos por sempre virem aqui todas as vezes que temos uma manifestação ou uma greve... Com eles e todos unidos, nós conseguiremos”, disse Luis Miguel Ruiz, delegado pela CGT no comitê da empresa.

São as palavras de trabalhadoras e trabalhadores conscientes de que acabam de desencadear uma nova batalha contra o capitalista mais rico da história.

O segredo da Amazon

A Amazon conta com uma rede de centros logísticos em escala mundial. Nas mais de 80 mega armazéns (alguns chegam a medir o tamanho de um campo de futebol) situados em diversos países, a empresa acumula milhões de produtos, desde eletrodomésticos até alimentos, que são despachados em pouco tempo para quase qualquer canto do mundo. No quadro das empresas da “nova economia”, a Amazon vende a história de que o “segredo de seu sucesso” seria a criatividade de Jeff Bezos, com seu “espírito empreendedor” ou com a integração da robótica com a logística. O que este relato procura invisibilizar é que a Amazon não funciona sem seus trabalhadores, e eles são muitos!

A Amazon emprega nada menos do que 560.000 trabalhadores em todo o mundo segundo informações da empresa, incluindo empregados dos centros de armazenamentos, serviços de atenção ao cliente e informáticos. Na Alemanha totalizam 24.000 trabalhadores, enquanto o centro MAD4 de San Fernando de Henares emprega 1800 trabalhadores permanentes e terceirizados.

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A empresa utiliza de sua extensão global e de sua estrutura em rede para obter vantagens diferenciais na exploração de mão de obra. Por exemplo, um trabalhador na Polônia cobra menos do que um terço do que um na Alemanha pelo mesmo trabalho. Além disso, a taxa de sindicalização nesse país é mais baixa e a legislação trabalhista dificulta as greves. A Amazon instalou centros em várias cidades do oeste da Polônia, muito próximas da fronteira: assim alimenta o mercado alemão (o segundo maior do mundo para a Amazon, depois dos EUA) com custos poloneses. E quando os operários alemães iniciam uma greve, a empresa desvia seus pedidos para a polônia para reduzir o força dos trabalhadores na Alemanha.

Mas a Amazon tem outro segredo: é uma das empresas com maior taxa de empregos temporários. No caso de San Fernando de Henares, 1100 trabalhadores são permanentes, enquanto 800 são contratados temporariamente via empresas como Manpower e Adecco. Depois da greve em março, cerca de 100 trabalhadores foram demitidos e, ao longo destas semanas, a empresa contratou mais funcionários terceirizados com o objetivo de acabar com a greve. O comitê da empresa denunciou estas práticas como uma tentativa de violar o direito de greve.

Unificar as fileiras da classe trabalhadora

O problema do trabalho temporário, entretanto, não se limita ao seu papel desempenhado na greve da Amazon para violar o direito de greve dos trabalhadores. A contratação, a subcontratação, a terceirização, assim como as múltiplas variantes da precariedade do trabalho, são um dos pilares sobre os quais se fundam a ofensiva neoliberal contra a classe trabalhadora desde os últimos 30 ou 40 anos, impondo uma divisão jamais vista antes nas fileiras de nossa classe.

Ao longo das últimas décadas, as relações de exploração capitalista se expandiram através do mundo como nunca, englobando as atividades humanas mais variadas. Hoje, pela primeira vez na história, as assalariadas e os assalariados, junto com os semiproletários, constituem a maioria da população mundial. Um crescimento que modificou a cara da classe trabalhadora, com uma presença crescente do setor de serviços (que inclui o transporte, a logística e diversas atividades ligadas à circulação de capital).

Porém, este crescimento vertiginoso da classe trabalhadora foi acompanhado de uma fragmentação sociopolítica de suas fileiras em proporções também históricas. “Ao aprofundamento da tradicional divisão imposta pelo capital entre classe trabalhadora dos países imperialistas e da periferia, se somaram outras divisões que deram lugar, junto com o aumento de desempregados permanentes, ao surgimento de trabalhadores “de segunda classe” (contratos com término, subcontratados por empresas “terceirizadas’, trabalhadores sem contrato legal, fora de convenções coletivas, “sem papéis”, ou diferentes combinações destes), que constituem quase a metade da classe trabalhadora mundial; diferenciados do setor da classe operária legalmente “registrada”, “sindicalizada”, com salários e condições de trabalho superiores à média”. (Estratégia Socialista e Arte Militar, Emilio Albamonte e Matías Maiello, Editora IPS, Buenos Aires, 2017).

Superar esta divisão e unificar as fileiras da classe trabalhadora não é apenas uma tarefa chave para os próximos combates da mão de obra da Amazon; é uma tarefa estratégica do proletariado do século XXI para enfrentar o capital.

Uma greve europeia, uma classe internacional

Sim, a Amazon se estendeu a nível global. Mas a classe trabalhadora também e está descobrindo novas formas de luta para enfrentá-la. Em novembro passado, ocorreram greves simultâneas na Alemanha, França e Itália durante a Black Friday. Semana passada, a greve de 72 horas em Madrid confluiu com greves em setes centros na Alemanha e protestos na Polônia. Segundo o sindicato alemão Ver.Di, na última terça-feira entre 2500 a 3000 trabalhadores aderiram à greve neste país.

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Há vários meses, delegados de vários países europeus estão trabalhando para avançar na coordenação internacional; os representantes do comitê da empresa de Madrid viajaram para encontrar seus companheiros da Itália, Alemanha e França em diversas ocasiões depois da greve de março. A ideia de uma “greve europeia” mais forte segue sendo um objetivo.

A repressão ocorrida nas portas da Amazon na última terça-feira, com o saldo de suas pessoas detidas e vários feridos, se transformou em um “boomerang” para a Amazon: centenas de milhares de pessoas em todo o mundo compartilharam nas redes sociais as imagens de policiais agredindo os trabalhadores e trabalhadoras. Os grevistas receberam em poucas horas mostras de solidariedade de diferentes regiões do planeta, algo que os fortalece enormemente para continuar a luta.

A Amazon é um gigante capitalista difícil de vencer, mas seus trabalhadores estão acumulando experiências e ganhando cada vez mais apoio para esta luta, tanto por parte de outros setores de trabalhadores como de milhares de consumidores. Graças à luta, eles adquirem confiança em sua própria força e começam a se considerar como uma classe internacional que pode recolocar em questão o poder dos capitalistas, mesmo quando se trata do capitalista mais rico do mundo.




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