Política

POLÊMICA SOBRE ISRAEL

Algumas palavras sobre Freixo, Shimon Peres e a FIERJ

Simone Ishibashi

Rio de Janeiro

quinta-feira 20 de outubro| Edição do dia

Nos últimos dias uma polêmica gerou debates nas redes sociais e na grande imprensa. Uma corrente interna do PSOL, a CST, publicou um artigo a respeito da morte de Shimon Peres, ex-presidente de Israel que faleceu recentemente. A resposta da FIERJ (Federação Israelense do Estado do Rio de Janeiro), não tardou. Veio a público exigindo de Marcelo Freixo, candidato à prefeitura do Rio de Janeiro pelo PSOL, e da direção daquele partido “desautorizassem publicamente” o texto. E assim foi feito. Em sua página no facebook a campanha de Marcelo Freixo rapidamente se centralizou e fez as declarações exigidas pela FIERJ, e ressaltou que a posição do candidato carioca vai contra “desqualificar” Shimon Peres.

Frente a isso, alguns setores defenderam Freixo alegando que ele é candidato à prefeitura, e não poderia se enfrentar com a FIERJ, pois perderia as eleições. Outros diretamente concordaram com Freixo e ainda exigiram que fosse mais duro contra os que denunciaram Israel. Dentre esses, vários o criticaram colocando que não se deveria tolerar tais críticas a Israel e Shimon Peres dentro do seu partido, sugerindo inclusive a expulsão de quem as fizesse. A polêmica retornou quando no último debate da Rede TV em 18 de outubro Marcelo Freixo reafirmou que defende a política de dois Estados, e que não tem posições críticas a Israel. É importante abrir esse diálogo entre aqueles que apoiam a candidatura de Marcelo Freixo, pois apesar desse tema superar os limites da realidade carioca, é um dos mais caros para a esquerda no plano internacional.

E isso não é à toa. Israel é um enclave imperialista no Oriente Médio, fundado por iniciativa dos EUA na ONU em 1948, sobre o despojo do povo palestino que antes disso havia convivido pacificamente com a até então minoria judia que ali vivia. Desde a criação de Israel isso se transformou radicalmente, e os palestinos foram obrigados a deixarem suas terras ancestrais e viverem na mais profunda miséria na Faixa de Gaza, e em parte da Cisjordânia. São submetidos a bombardeios e ataques sistemáticos, inclusive com armas químicas, por parte do exército de Israel. São impedidos de entrarem em diversas partes da Cisjordânia e Jerusalém. A própria “solução” de dois Estados, que Marcelo Freixo defendeu no debate da TV é a mesma política de setores do imperialismo norte-americano. Na prática é condenar os palestinos a se contentarem com uma ficção de Estado, num território infinitamente menor que a Palestina histórica, sem unidade territorial, o que inviabilizaria o direito de retorno dos milhões de refugiados palestinos.

Se esse é o caráter do Estado de Israel, o de seus representantes não poderia ser diferente. Shimon Peres é de acordo com o historiador israelense Illan Pappe, um daqueles políticos cujas decisões mais tiveram impacto sobre a vida dos palestinos. E tal impacto não fora nada positivo. A mando de Ben Gurion, primeiro chefe de governo de Israel, Shimon Peres negociou a compra das armas usadas contra os palestinos na Nakba, a limpeza étnica promovida contra aquele povo em 1948. Como ministro da Defesa foi muito ativo na constituição do acordo entre a França, a Grã-Bretanha e Israel para invadir o Egito em 1956. Além disso, foi um dos idealizadores da expansão israelense e constituição de cidades exclusivamente judias, como Karmiel e Alta Nazare, estabelecendo militares israelenses nessa região, e fraturando o território palestino que deixou de ter contiguidade de suas fronteiras. Em 1967, ano da Guerra dos Seis Dias, foi nomeado ministro responsável pelos territórios ocupados na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Em outras palavras, foi um verdadeiro guardião do expansionismo colonialista de Israel contra os palestinos. Portanto, dizer a verdade sobre esse personagem histórico, que foi uma peça chave na opressão do povo palestino não é desqualificá-lo, como pretende Marcelo Freixo, mas uma obrigação de todos os que se colocam como parte das forças de esquerda quando se trata de abordar os temas da política internacional.

Em nosso país, que conta com uma ampla comunidade árabe e judaica, a FIERJ vem perseguindo vários setores críticos à política de Israel como se fossem antissemitas. O mais recente foi o historiador Thomas de Toledo, que havia feito um estudo sobre a relação dos Estados Unidos e de Israel no golpe institucional ocorrido no Brasil. A FIERJ ameaçou processar o historiador e realizou uma pressão tão grande, que no dia 20 de junho desse ano o historiador foi demitido da UNIP, universidade em que trabalhava.

Não se pode cair no simplismo interessado, promovido por setores como a FIERJ de que criticar o Estado de Israel é ser antisemita. Essa retórica é muito utilizada para colocar na defensiva todos os setores críticos à política e os ataques israelenses contra os palestinos, mas não se sustenta frente a análise dos fatos. O que impede que árabes e judeus convivam novamente em paz é o caráter colonialista do Estado de Israel, que atua como uma plataforma para as políticas do imperialismo na região, e segrega os não-judeus. Defender uma paz verdadeira para a região é algo que deve se dar através da garantia do direito de retorno de todos os refugiados, e na luta por uma Palestina laica, operária e socialista, onde possam conviver árabes e judeus. Nenhum indivíduo ou organização que se coloca como parte da esquerda deveria sofrer represália por defender aquilo que Marx já havia dito quando afirmou que “nenhum povo pode ser livre se oprime outro”.




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