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OPINIÃO

Alexandre Kalil, a vida dos camelôs de Belo Horizonte vale mais do que seus lucros

Na última segunda, 3, o prefeito Alexandre Kalil (PHS) deu início a uma operação para retirada dos vendedores ambulantes do hipercentro da capital mineira. Kalil segue o exemplo da política higienista do empresário e prefeito de São Paulo João Doria (PSDB), mostrando a que e quem serve a ideia de “político-gestor”.

Iaci Maria

Belo Horizonte

quinta-feira 6 de julho| Edição do dia

Foto: Mídia Ninja

A operação foi decretada pelo prefeito Kalil há poucas semanas e no dia 20 de junho os camelôs começaram a ser notificados de que deveriam deixar o centro da cidade até o final do mês. Após esse prazo, teria início uma ação de fiscalização e apreensão de mercadorias. Ou seja, aos trabalhadores foi dado o prazo de apenas 10 dias para encontrarem novos empregos ou conseguir uma vaga nos shoppings populares, feiras e galerias, para onde a prefeitura quer levar os ambulantes.

Se de um lado João Doria, prefeito de São Paulo, ataca moradores de rua, usuários de drogas, artistas de ruas e muros coloridos, Alexandre Kalil não poupou o uso da violência para atacar trabalhadores de rua. Logo na manhã de segunda, 3, primeiro dia útil de julho, fiscalizadores junto com a guarda civil e polícia militar colocara em prática a ação de fiscalização e apreensão. Sem se importar se os vendedores teriam como se sustentar e antes de fazer o sorteio das vagas prometidas em estabelecimentos comerciais – vagas essas completamente insuficientes para a quantidade de trabalhador –, Kalil simplesmente tirou o meio de subsistência de centenas de famílias, que protestaram contra a ação. Uma ação totalmente higienista e racista.

Como resposta à luta por manter o trabalho, a polícia militar do governador Pimentel (PT), à serviço de Kalil, reprimiu violentamente os camelôs que fecharam as ruas do centro contra a retirada forçada dos vendedores das ruas. O enorme aparato repressivo transformou o centro de Belo Horizonte em uma verdadeira praça de guerra, deixando pedestres em pânico e obrigando lojistas a terem que abaixar as portas de suas lojas, já que o gás lacrimogêneo avançou por todas as ruas do centro. Ao menos uma vendedora ficou ferida e ainda houveram 14 detidos.

Já na manhã de terça, 4, houve nova manifestação no centro da cidade, onde os ambulantes chamavam Kalil de ladrão e reivindicavam o elementar direito de trabalhar. Os manifestantes pediram à prefeitura que faça a retirada gradual dos camelôs, conforme forem sendo oferecidas vagas nos shoppings populares e feiras, além da criação de uma feira livre nas ruas. A realidade dos camelôs foi fortemente exposta através da entrevista do jornal O Tempo com uma vendedora, que viralizou nas redes sociais e pode ser assistida aqui. Na quarta, 5, pelo terceiro dia seguido, os trabalhadores protestaram novamente, fechando ruas do centro e seguiram em manifestação até a Câmara dos Vereadores.

Veja também: Flavia Valle, professora da rede estadual e municipal em Contagem e dirigente do MRT, se solidariza com a luta dos camelôs de BH e repudia a ação de Alexandre Kalil

A política higienista de quem se preocupa mais com seus lucros do que com a vida dos trabalhadores

Kalil, o prefeito conhecido por dizer em campanha “roubo, mas não peço propina”, e que assim como João Doria foi eleito com base ao discurso de não ser político profissional e sim gestor, se vangloriando de ser um empresário que entende e quer melhorar a vida do trabalhador, vem seguindo o exemplo de gestão de seu mestre paulista Doria, apesar de criticá-lo. A nítida higienização da cidade, que ao invés de buscar uma solução aos problemas busca apenas varrê-los para baixo do tapete, é marca racista desses governos gestores.

Essa ação de Kalil mostra que, se tem algo que ele nitidamente não entende, é de trabalhador. Até porque ele é empresário, entende só do papel que o trabalhador cumpre pra ele, sendo explorado para gerar seus lucros. Seus interesses e dos trabalhadores são opostos pelo vértice. Seu diálogo com trabalhadores, em sua maioria negros e da periferia, foi na base do gás lacrimogêneo, bala de borracha, choque, caveirão, guerra. A justificativa de Kalil é a mesma de Doria: quer uma cidade “limpa”. Ou, no caso, quer limpar os trabalhadores da visão da população e jogá-los na marginalidade do desemprego.

Tampouco Kalil entende – e provavelmente não tem nenhum interesse em entender – que o que leva à cada vez maior quantia de camelôs nas ruas é a crise e o desemprego. E, segundo o IBGE, somente na região da Grande BH o desemprego atinge cerca de 700 mil pessoas. Mas Kalil não se importa com isso, o gestor quer apenas gestionar a cidade. Veja bem, a cidade, isso não significa nenhum interesse em responder às dificuldades que sofrem os moradores da cidade. Não importa o desemprego, importa o hipercentro sem mercadorias nas calçadas.

E não bastasse o desemprego, a operação de Kalil vem na mesma semana em que se vota urgência no andamento da reforma trabalhista, que deve ser votada semana que vem no Senado. Ou seja, a prefeitura de Belo Horizonte trabalha para aumentar o desemprego justamente quando os direitos trabalhistas são atacados, quando se aprofunda a terceirização e precarização do trabalho e arrumar emprego em meio à crise tem sido uma tarefa quase impossível.

Eles não querem melhorias para os trabalhadores, não querem saídas para a crise que nós vivemos, apenas quando os afeta. Políticos corruptos e empresários possuem interesse apenas em como farão para não diminuir seus lucros e pagar a dívida a banqueiros, e nenhum interesse nas vidas dos trabalhadores, que sofrem com a crise, o desemprego, e assistem seus direitos serem rasgados em prol de interesses alheios aos nossos. Mas nossas vidas valem mais do que os lucros deles.

Que as reivindicações dos vendedores ambulantes sejam imediatamente atendidas! Mas muito mais que isso, é gritante a situação do desemprego, e é necessário que se tenha emprego e condições dignas de trabalho para todos. Para poder garantir isso, o mais urgente hoje é derrubar a reforma trabalhista, e essa luta deve ser tomada nas mãos pelos camelôs, trabalhadores, desempregados, jovens e estudantes, por cada um que quer seus direitos trabalhistas garantidos, inclusive o direito de se aposentar. Para acabar com o enorme desemprego, repartir as horas de trabalho entre todos, sem diminuição salarial, para que todos possam trabalhar.

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