Teoria

Alexandra Kollontai e a solidão da sociedade moderna

Quais as bases sociais da solidão do homem moderno? Mal-estar endêmico nas relações interpessoais, miséria sexual em escala de massa: o que pensava disso a revolucionária Alexandra Kollontai?

Gilson Dantas

Brasília

sábado 18 de fevereiro| Edição do dia

Ao escrever sobre as relações sexuais e a luta de classes, Kollontai chamou a atenção para o terreno social no qual se desenvolvem as perturbações na vida sexual das pessoas nas camadas altas da sociedade capitalista e também no seio da classe trabalhadora. Nestes marcos, aquela autora chama a atenção para um fenômeno de base que ela chamou de solidão espiritual que reina nas classes urbanas e vem avançando sobre o campo.

As relações sociais nas quais o capitalismo se funda são individualistas. Com o capitalismo, elementos importantes da vida comunal ou tribal ancestral, não são substituídos por relações sociais coletivas, de aproximação espiritual entre as pessoas: isto é, nas grandes e pequenas metrópoles do capital emergem e prevalecem relações humanas que, em regra, para nada se parecem com solidariedade ou camaradagem. Ao contrário disso, desde o berço até o final da vida adulta, o imperativo de relações de propriedade, de competição e mesmo de posse entre pessoas e obviamente opressão, passa a ser uma norma. Uma espécie de “lei da selva” passa a ser naturalizada. O processo de acumulação do capital necessita, retroalimenta e se funda nesse marco, e assim funciona o mercado, a mercadoria.

Seguindo a tradição de Marx e Engels [basta ver, por exemplo, A ideologia alemã ou o capítulo XXIV de O capital, intitulado A assim chamada acumulação primitiva], Kollontai argumenta sobre a tese de que aquelas relações de solidão, aquele “mal-estar da moderna sociedade” capitalista, o quadro social onde os humanos são impelidos, por uma sociedade dilacerada entre exploradores e explorados, a relações interindividuais de desencontro, de isolamento, de células familiares privadas etc ele é e será um quadro incontornável enquanto imperar o capitalismo.

Não se trata de uma solidão que possa ser resolvida por qualquer tipo de auto-ajuda, de aconselhamento “familiar” ou psicológico. O trabalho incessante das religiões na base do “amai o seu próximo” é uma prova eloquente disso. Há mais religião que nunca e mais miséria espiritual e violência interpessoal – e particularmente contra a mulher e crianças - que nunca.

O fundamento daquelas relações transcende qualquer psicologia, e quanto à família, esta, na verdade, constitui um dos aparelhos institucionais que reproduz ativa e materialmente aquela miséria espiritual. Fundada na desigualdade da mulher em relação ao homem, na posse das crianças pelos pais, na posse de pessoas, a família é funcional à reprodução do sistema, da neurose coletiva e, na condição de unidade econômica e de poder, ela opera como uma fábrica de individualismo, uma fábrica de submissão e obediência – e, frequentemente, de religiosidade. Aliás, por isso mesmo foi restaurada e santificada pelo stalinismo, como explica Trotski no capítulo VII de A revolução traída, intitulado A família, a juventude e a cultura.

Na classe trabalhadora, quando esta se une na luta contra a opressão do capital e mesmo na sua vida amontoada nas periferias, se desenvolvem os mesmos elementos da crise da família burguesa e sua cultura, é certo, mas com a diferença de que, em muito pequena escala, ali se encontra também a novidade, os elementos embrionários de uma camaradagem de luta [da luta de classes]; se estes elementos são compreendidos por suas correntes políticas, podem se desenvolver de forma consciente; mais que isso, nos marcos da revolução social, na forma do novo Estado dos trabalhadores [a proposta de Lenin em O Estado e a revolução] podem ser a força, a única força a levantar as bases materiais para finalmente aproximar os humanos entre si, varrida a burguesia e assegurado o controle da produção pelos próprios produtores.

É a perspectiva do Manifesto Comunista de 1848, é a possibilidade histórica que não tem como conviver com o império da acumulação do capital. Ao mesmo tempo em que o espaço de luta e de camaradagem consciente, aqui e agora, deve ser pensado através da construção do partido revolucionário, construído nos marcos daquela perspectiva, de ferramenta política, programática e estratégica do proletariado para ir ao poder. Pensando-se o partido, portanto, como um embrião consciente da sociedade que queremos construir.

Na verdade, a dominação capitalista é a base incontornável que reproduz toda essa miséria espiritual, tema incessante do debate contemporâneo desde que Kollontai escreveu aqueles textos e retomada – no campo da miséria sexual – pelo primeiro W. Reich [ver referência abaixo].

Nas próprias palavras de Kollontai, vejamos uma larga citação sua onde ela, ao argumentar sobre o problema, não deixa de chamar a atenção para o fato de que a esperança de uma revolução social torna aquela solidão ainda mais insuportável, ao mesmo tempo em que pode ser uma base subjetiva para orientar as nossas lutas atuais:

“Nós somos pessoas que vivemos em um mundo em que domina a propriedade capitalista, um mundo onde transbordam as agudas contradições de classe e somos imbuídos da moral individualista. Ainda vivemos e pensamos sob o funesto símbolo de um inevitável isolamento espiritual. A terrível solidão que cada pessoa sente nas imensas cidades populosas, nas cidades modernas tão irrequietas e tentadoras; a solidão, que não é dissipada pela companhia de amigos e companheiros, é que impulsiona as pessoas a buscar, com avidez doentia, a sua ilusória “alma gêmea” em um ser do sexo oposto, visto que imaginam que só o manhoso Eros possui o mágico poder de afugentar, ainda que seja momentaneamente, as trevas da inescapável solidão.

Em nenhuma outra época da história os homens sentiram com tanta intensidade a solidão espiritual. Não poderia ser de outra maneira. A noite é muito mais impenetrável quando vemos brilhar uma luz logo em frente.

As pessoas “individualistas” de nossa época, unidas por débeis laços à comunidade ou a outras individualidades, agora possuem a chance de transformação das relações sexuais mediante a substituição do cego fator fisiológico pelo novo princípio criativo da solidariedade, da camaradagem. A moral da propriedade individualista de nossos tempos começa a sufocar e paralisar as pessoas. O homem contemporâneo não se contenta em criticar as relações entre os sexos, em negar as formas exteriores prescritas pelo código da moral vigente. Sua alma solitária deseja a renovação da própria essência das relações sexuais, deseja ardentemente encontrar o “verdadeiro amor”, uma situação confortadora e criadora que é a única capaz de afugentar o fantasma frio da solidão de que padecem os “individualistas” contemporâneos.

Se é certo que a crise sexual está condicionada em suas três quartas partes por relações externas de caráter econômico-social, não é menos certo que a outra quarta parte de sua intensidade é devida, à nossa “refinada psicologia individualista”, que com tanto cuidado a dominante ideologia burguesa cultivou. A humanidade contemporânea, como disse, acertadamente, Meisel-Hess, é muito pobre em “potencial de amor”. Cada um dos sexos busca o outro com a única esperança de conseguir a maior satisfação possível de prazeres espirituais e físicos para si, levando muito pouco em conta o que o outro sente. O amante ou o companheiro não pensa nos sentimentos, no trabalho psicológico e emocional que se efetua na alma da pessoa amada.

Talvez não haja nenhuma outra relação humana como as relações entre os sexos, na qual se manifeste com tanta intensidade o “individualismo grosseiro” que caracteriza nossa época. Absurdamente se imagina que basta à pessoa, para escapar à solidão que a rodeia, “estar amando”, exigir seus direitos sobre a outra pessoa. Espera assim, unicamente, obter esta rara felicidade: a harmonia da intimidade e a compreensão entre dois seres. Nós, os individualistas, pusemos a perder nossas emoções por conta do constante culto do nosso “ego”. E acreditamos que podemos conquistar sem nenhum sacrifício a maior das felicidades humanas, o estado de “grande amor” com aqueles mais próximos, sem termos que desistir de alguma coisa em nós. [...]

Além do individualismo extremado, defeito fundamental da psicologia da época atual, de um egocentrismo transformado em culto, a crise sexual agrava-se muito mais com outros dois fatores da psicologia contemporânea: 1. – a ideia do direito de propriedade de um ser sobre o outro; e 2. – o preconceito secular da desigualdade entre os sexos em todas as esferas da vida, incluída a esfera sexual.
[...]

A crise sexual é insolúvel sem que haja uma transformação fundamental da psicologia humana; a crise sexual só pode ser vencida pela acumulação de “potencial de amor”. Mas, essa transformação psíquica depende completamente da reorganização fundamental de nossas relações sócio-econômicas sobre os fundamentos comunistas. Se recusarmos esta ´velha verdade´, o problema sexual não terá solução”.

Podemos perceber que o mesmo sistema, da dominação capitalista, que abre a possibilidade do desenvolvimento da individualidade, de maior riqueza cultural do indivíduo, também trava seu florescimento não-individualista, solidário, ao impor a cultura do mercado, do homem “lobo do próprio homem”, do cada um por si, que lança suas raízes lá na exploração do trabalho humano, berço de todas as opressões.

O patrão é dono do operário no sentido de possuir sua força de trabalho e, por conta da propriedade da fábrica, da banca, dos meios de produção em geral, passa a controlar a vida ou morte do proletariado. É também a posse – através da compra da força de trabalho - de uma inteira classe por uma minoria rica e que não tem que trabalhar para viver, não cria nada de útil, parasitas da humanidade e do meio ambiente.

A família reproduz essa psicologia, apoiada na cultura milenar da propriedade privada onde a mulher veio sendo tratada e imaginada como um “ser inferior”, mas também na família patriarcal, burguesa, que garante a posse dos pais sobre as crianças, o tal “pátrio poder” e totalmente tomada pela ideologia de que “família, propriedade e tradição” são a “essência” humana. Na verdade, nada disso tem a ver com a “essência” humana, seja lá o que isso signifique, e sim com a essência do capital, da dominação capitalista contemporânea em sua forma acabada e decadente.

Esse é o alerta de Kollontai na longa citação acima.

E esse é seu brilhante insight, jamais superado pela psicologia – e muito menos pela filosofia – do nosso tempo, que tratam tudo isso como “a condição humana”.

Para Kollontai, na base da nossa psiquê está a forja individualista que começa na família e se estende a todos os aparelhos ideológicos do poder capitalista, da escola à Igreja, à mídia e por todos os poros. Esse é o ar que nossa subjetividade respira. Nós somos formatados em estruturas sociais que promovem a submissão, a obediência [em relação ao patrão ao padre, ao macho, ao psicólogo, ao doutor de qualquer tipo], lado a lado com o individualismo extremado – devidamente naturalizado e através do qual cada um pensa que vai encontrar, além do horizonte, não apenas sua “alma gêmea” privada, mas também o sucesso e a paz da encerrada vidinha familiar.

Primeiro a nossa psicologia é forjada naquelas bases neurotizantes na primeira infância, na família, mas quando adultos, a dominação capitalista e todas as suas formas de opressão, seguem conspirando contra a felicidade, reproduzindo a solidão espiritual de raiz, aquela que muitos filósofos se comprazem em chamar de “existência humana”, ahistórica, mas que, no real histórico, não passa de relações sociais transitórias. Transitórias no sentido de que não são, para nada, naturais, mas que não cessarão de se reproduzir enquanto a luta e, em seguida o poder dos trabalhadores organizados em partido e em Estado, se imponham; e que, a partir daí – aliás na própria luta - cada homem e cada mulher passem a ser donos do próprio destino, no trabalho e na vida, especialmente a vida sexual.

G Dantas
Brasília 14/2/17

Referências citadas – O combate sexual da juventude-comentado, W. Reich, 2011, Ed Ícone. As relações sexuais e a luta de classes, A. Kollontai [a aparecer brevemente pelas Edições Centelha Cultural]. Crédito de imagem [modificada]: site archdaily Brasil, do filme Encontros e desencontros.




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