8 DE MARÇO / KOLLONTAI

Alexandra Kollontai e a revolução no cotidiano e nos costumes

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 1º de março| Edição do dia

Kollontai foi uma mulher que viveu de forma revolucionária, militante e propagandeou e lutou por ideias em defesa da mulher e do amor, que iam muito além do seu tempo. Deixou elaborações sobre a família, o casal, o amor autêntico e as relações de gênero, presentes em vários dos seus livros e que até hoje inspiram reflexões.

Integrante de uma geração de revolucionárias que desde cedo se integrou à luta pelo socialismo na Rússia, ela fez parte de pequenos círculos da classe média russa que – por conta do processo desigual e combinado do desenvolvimento das sociedades - vivia e debatia o tema do “amor livre” de forma mais intensa e mais avançada que o resto da Europa.

A sua militância no partido bolchevique trouxe uma perspectiva mais profunda para sua contribuição teórica em torno do problema da discriminação da mulher, sobre o aborto, a proteção do Estado à maternidade, a prostituição e tudo que dizia respeito à independência e à felicidade da parcela mais oprimida da sociedade: a mulher.

Crítica da família burguesa, da família fechada em si mesma, com “suas inevitáveis e mesquinhas preocupações”, Kollontai abraçava uma certeza: essa família, burguesa/patriarcal/patrimonial está historicamente superada.

Claramente propõe que o Estado intervenha para separar a mulher da cozinha, da lavagem de roupa, de toda tarefa doméstica, para que possa se libertar do que ela chama de “esfera fechada dos hábitos egoístas da família”; e possa, portanto, contar com creches e jardins - no caso da mulher-mãe - e total independência econômica e ruptura com todas as relações de exploração, de forma a poder se assumir como ser humano por inteiro, social.

Com o ingresso no mundo do trabalho, a mulher não mais quer voltar aos encargos do lar, argumenta Kollontai, acrescentando que a própria função de educação-socialização dos filhos deve passar da família para a sociedade. Os ganhos desse movimento e dessa perspectiva se desenvolverão no sentido da gênese de mulheres e crianças mais felizes, independentes, educados todos – homens e mulheres - no sentimento e responsabilidade coletivos. Esta é a perspectiva da sociedade comunista.

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Já em seu tempo, Kollontai percebia claramente a diferença entre o feminismo burguês, ou mais à direita, que pretendia nada mais que reformar a família, isto é, consolidar a forma atual de família, apenas com algumas correções [com certa igualdade entre os sexos, direito à separação de bens etc] do feminismo proletário, de esquerda.

Abraçando este feminismo de classe, Kollontai não depositava ilusões na possibilidade de reformar a família; ela propunha o fim da dupla moral, da hipocrisia, a luta pela vigência de um único laço na relação afetiva, o do amor; lutava pelo triunfo do amor sem qualquer outro condicionante que não o próprio amor.

Esse feminismo não ignorava para nada a condição de explorada da mulher proletária; daí não via qualquer solução no capitalismo tanto para a reforma na relação conjugal, quanto na criação dos filhos; a maternidade se torna uma prisão, no capitalismo. Ou como dizia Bebel: como falar em liberdades privadas em uma sociedade da opressão?

Eis o feminismo revolucionário, proletário, necessariamente anticapitalista, socialista.
Que, através da revolução proletária, trata de criar as bases para profundas mudanças na psicologia humana que finalmente deem passagem a novas relações, ao triunfo contra o ciúme possessivo [de mãe ou de casal], contra as dificuldades para vencer a solidão – dominante nos marcos do capitalismo – que não seja através do ´amor romântico´. E na luta pela possibilidade material da autêntica vida coletiva, da nova subjetividade, na perspectiva de uma humanidade que, liberada das classes sociais, finalmente, se ponha de acordo consigo mesma.

Em todos seus argumentos, Kollontai vincula a libertação da mulher e o amor autêntico à perspectiva comunista. À luta por uma sociedade sem opressão. Na qual, finalmente, o amor seja apenas mediado pelo amor, pela coletividade já não mais dilacerada por antagonismos sociais ou preconceito de qualquer natureza.

Referindo-se especificamente à família, ela argumenta:

“A passagem da função educadora da família para a sociedade fará desaparecer os últimos laços que uniam a célula familiar fechada; a velha família burguesa vai se desagregar ainda mais rapidamente, e na atmosfera ambiente veremos aparecer desenhadas, com nitidez cada vez maior, as silhuetas ainda pálidas das futuras relações conjugais. E como serão essas silhuetas ainda enevoadas pelas influências atuais?
Será necessário repetir que a forma constrangedora atual do casamento será substituída pela união livre de indivíduos livres? O ideal do amor livre, que ocorre à imaginação sedenta das mulheres que lutam por sua emancipação, está sem dúvida de acordo com a norma de união entre os sexos a ser instaurada pela sociedade coletivista. As influências sociais são tão complexas, sua ação é tão diversificada, que atualmente é impossível imaginar com precisão qual a fôrma que moldará, depois de uma mudança radical em toda a estrutura da sociedade, as relações conjugais do futuro. Mas a lenta evolução das relações sexuais que se processa sob nossos olhos, demonstra claramente que o casamento ritual e a família fechada e constrangedora estão condenadas ao desaparecimento” [Citação do texto A união livre, que integra o livro a sair proximamente A Kollontai e a revolução no cotidiano e nos costumes].

Kollontai tinha consciência do potencial emancipador das primeiras medidas do Estado operário, de Lenin, a favor da mulher. Para Kollontai somente o Estado operário, com base na democracia operária, poderia resolver problemas seculares da sociedade fundada na propriedade privada. Um exemplo era o da prostituição, para o qual não vê solução na sociedade de classe.

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Kollontai, no entanto, irá viver nos marcos da degeneração do partido bolchevique, por conta do isolamento internacional da revolução e longo período de penúria em um país agrário atrasado [nos marcos de ampla intervenção militar das “potências imperialistas”]. Ela não chegará jamais a entender ou lutar contra esse processo, como faria, abertamente, Trotski e a Oposição de Esquerda na URSS.

Com Lenin ainda vivo, ela irá abraçar posições esquerdistas e, em alguma medida, idealizará as possibilidades concretas de um poder operário esmagado pelo isolamento revolucionário mundial naquelas condições de privações extremas e boicote internacional. Kollontai imagina ser possível a organização de elementos do comunismo na Rússia daquele período [a exemplo da “organização do consumo em bases comunistas” em pleno desastre provocado pela guerra civil; e no próprio “comunismo de guerra”, ela consegue ver “com extraordinária nitidez um modo de vida adaptado às sementes da futura sociedade comunista”] em pleno racionamento da miséria.

Em outras palavras, Kollontai via que as realizações da revolução estavam detrás das intenções, mas não se dava conta que a marcha ou o permanentismo da Revolução Russa estava sendo progressivamente travado pelo stalinismo.

Como analisa uma biógrafa dela, “desde 1922 até a sua morte, Kollontai não voltou a participar em nenhum dos numerosos debates que tiveram lugar no seio do PC russo. Seu silêncio, que em princípio, parecia obrigado pelas circunstâncias pouco propícias, de transitório se converteu em norma a partir de finais de 1922, data em que é nomeada para cargo diplomático” [Yolanda M Serra, 1974, p.64, Introducción ao livro Autobiografia de una mujer emancipada].

Em 1930, Kollontai toma posição pública a favor de Stálin. E em 1935, quando ela era embaixadora da URSS em Estocolmo, diretamente deu ultimatum ao governo sueco para negasse passaporte a Trotski.

No entanto, sua obra do período revolucionário permanece.
Dialogar com sua obra revolucionária nos permite ampliar – em chave revolucionária – a perspectiva de análise do problema feminino e da família no capitalismo.

E certamente ajudará a iluminar as lutas atuais onde a libertação do corpo da mulher, o direito livre ao aborto, a eliminação do feminicídio, da opressão feminina, e a socialização de todo trabalho doméstico, inclusive o da educação dos filhos, são algumas das bandeiras que levantamos contra o capitalismo, barreira estrutural para a emancipação de toda opressão, e contra a qual se levantou, em seu tempo, Alexandra Kollontai.

Brasília março 2018
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[Crédito de imagens modificadas: www.inrussia.com e www versoboks.com ]

Obs - Esta nota, levemente modificada, constitui o prefácio de livro a sair brevemente pela ISKRA/Centelha, intitulado Revolução no cotidiano e nos costumes [A questão feminina nos primeiros anos da Revolução Russa / Textos escolhidos]




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